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Lava do fim do Triássico selou um deserto no Nordeste do Brasil e preservou os ventos de Gondwana

Mulher analisando areia no deserto com instrumento de medição, livro e martelo ao lado.

Uma inundação de lava que marcou o fim do Triássico aprisionou um deserto no Nordeste do Brasil. Enterradas sob 200 milhões de anos de rochas, as dunas ainda guardam o rasto dos ventos antigos de Gondwana.

A própria forma preservada registra algo que os cientistas vinham estimando há décadas, mas sem qualquer prova direta. Ela revela, de maneira concreta, para que lado sopravam os ventos sobre um supercontinente do passado.

Um deserto selado

O campo soterrado fica no Nordeste do Brasil, numa área onde a erosão expôs parte do arenito antigo. Uma equipa liderada pelo geocientista Rossano Michel, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), reconstituiu o deserto que permaneceu oculto sob a lava.

As areias são do Triássico, período que terminou com uma das grandes extinções em massa da Terra. A cobertura de lava funcionou como uma tampa, isolando as dunas e interrompendo o desgaste que costuma apagar quase todos os desertos antigos.

Em geral, campos de dunas muito antigos aparecem apenas em camadas fragmentadas e descontínuas. Neste caso, a estrutura maior manteve-se inteira, permitindo à equipa interpretar como as dunas se formaram e em que sentido o vento as moldava.

Interpretando a areia soterrada

Para alcançar um deserto escondido sob rocha maciça, é preciso mais do que uma pá. A equipa de Michel recorreu a levantamentos magnéticos, medindo o quanto o arenito e a lava acima dele respondem ao campo magnético da Terra.

Como os dois tipos de rocha produzem assinaturas muito diferentes, esse contraste permitiu delinear as dunas enterradas no subsolo sem escavação. Depois, a análise detalhada do arenito exposto ajudou a mapear as cristas que haviam ficado ocultas por tanto tempo.

No interior do arenito, os investigadores analisaram a estratificação das dunas - lâminas inclinadas deixadas à medida que cada face crescia e deslizava em avalanches. Essas camadas oblíquas registam a direção do deslocamento da areia e, por consequência, do vento que a empurrava.

Dunas dentro de dunas

A área reconstituída era gigantesca. O campo estendia-se por mais de 54.000 quilómetros quadrados (21.000 milhas quadradas), com longas cristas em linhas aproximadamente paralelas, orientadas de leste-nordeste para oeste-sudoeste.

Tratava-se de dunas lineares, o tipo mais raro de aparecer em registos rochosos antigos. As maiores cristas chegavam a cerca de 170 metros (550 pés) de altura e ficavam separadas por aproximadamente 2,7 quilómetros (1,7 milhas).

Com isso, torna-se o maior e mais bem preservado campo desse tipo já encontrado no registo geológico.

Sobre os flancos dessas cristas gigantes, dunas menores, em forma de crescente, deslocavam-se lentamente por cima das formas maiores. Essa “aninhagem” - dunas pequenas subindo e cruzando dunas enormes - é justamente o padrão capturado nas camadas preservadas.

Por que as dunas se alinham

Dunas longas e retas não surgem sob um único vento constante. Elas exigem dois ventos vindos de quadrantes distintos, e a crista cresce na direção média entre esses dois fluxos.

Trabalhos de modelação sustentam essa ideia. Um estudo de modelação mostrou que, quando dois ventos predominantes se encontram formando um ângulo amplo, a areia acumula-se em cristas alongadas alinhadas com a direção partilhada por ambos.

As cristas brasileiras exibem exatamente esse alinhamento, indicando que foram construídas por dois ventos. A orientação das dunas conserva, gravada na rocha, de onde sopravam essas duas correntes de ar.

Ventos antigos de Gondwana

Ao rastrear essas duas correntes de ar, a equipa obteve um rumo claro. Um vento vinha do nordeste e o outro, do sudeste. Ambos convergiam sobre a região que hoje é o Brasil.

Na época, essa porção de terra situava-se na metade sul do supercontinente, numa área que os geólogos chamam de Gondwana. Ela estava a cerca de 10 graus ao sul do equador.

Dois ventos a encontrarem-se ali são compatíveis com uma monção sazonal, do tipo que se inverte com a passagem do ano. Há muito tempo, modelos climáticos previam esse padrão de circulação sobre Gondwana em baixas latitudes, mas as rochas ainda não o tinham confirmado.

O campo de dunas alterou esse cenário. Pela primeira vez, fixou em campo as direções do vento que um estudo sobre o clima do supercontinente havia apenas calculado.

A ligação com a lava

A lava que sepultou o deserto veio de um dos maiores episódios de vulcanismo em larga escala já registados no planeta. Essa inundação vulcânica está associada à fragmentação do supercontinente e à extinção em massa que encerrou o Triássico.

Datações cuidadosas e análises químicas conectaram esse vulcanismo às extinções, como descrito num estudo sobre as erupções. A mesma lava que pode ter esvaziado os mares também preservou este deserto.

Esse soterramento é o motivo de hoje ainda ser possível ler o registo. Sem a tampa de lava, vento e água teriam dispersado as dunas há muito tempo - e, com elas, o testemunho dos ventos antigos.

Testando os modelos

O que esse deserto fornece é um ponto de verificação. Os geólogos agora dispõem de prova física de como sopravam os ventos sobre Gondwana em baixas latitudes há 200 milhões de anos.

Até então, os modelos climáticos chegavam a essas direções sem nada concreto para sustentar o cálculo. A importância de confirmá-las vai muito além da história remota.

Esses mesmos modelos são as ferramentas usadas para testar como as monções se comportam quando a atmosfera contém muito mais dióxido de carbono - como ocorria no Triássico. A matemática é a mesma, mas a composição do ar era muito diferente.

Um deserto que desapareceu antes de os dinossauros dominarem entregou à ciência do clima uma evidência rara de um mundo impossível de visitar. Agora, os investigadores podem confrontar a sua reconstrução de como a atmosfera antiga se movia e confiar no que ela indica.

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