Para companhias como a Hapag-Lloyd, o momento tem sido favorável. Na segunda-feira, a gigante alemã do transporte marítimo revisou para cima as suas projeções de desempenho para este ano, passando a apontar, agora para 2026, um lucro operacional de até €1000 milhões - bem acima dos €400 milhões estimados anteriormente. A antecipação de pedidos no mundo todo, numa tentativa de se proteger de uma possível nova rodada de tarifas liderada por Donald Trump, e a alta dos fretes ligada à crise no estreito de Ormuz, deixaram o cenário mais promissor para a Hapag-Lloyd. Mas o efeito não deve parar aí.
Na prática, a empresa alemã é só um entre vários agentes econômicos que tendem a colher ganhos com a instabilidade no Oriente Médio, com o estreito de Ormuz convertido em palco de confronto naval. Isso representa uma ameaça à economia global - mas traz benefícios relevantes para a indústria de petróleo.
Hapag-Lloyd, estreito de Ormuz e a alta dos fretes
Quando Trump declarou que queria ser o “guardião de Ormuz”, ao mesmo tempo em que falava em um “pedágio” de 20% sobre o valor das mercadorias que passam por lá, abriu-se uma nova frente de incerteza para o comércio marítimo mundial e para os custos de derivados de petróleo. A turbulência, porém, foi breve: em menos de 24 horas, o presidente dos Estados Unidos recuou da promessa de cobrar o pedágio.
O Brent chegou a passar esta semana os 87 dólares por barril, após ameaça de Trump de impor “pedágio”
Brent, diesel e spreads: por que os preços subiram
Ainda assim, o Brent reagiu com força ao agravamento da guerra no Oriente Médio. O petróleo de referência na Europa havia fechado a semana passada nos 76 dólares por barril (dias depois, inclusive, de ter caído para valores próximos aos níveis pré-conflito), mas nesta semana acelerou e chegou a ser negociado acima de 87 dólares.
Em junho, o mercado global de petróleo vinha seguindo um caminho de recuperação gradual. A consultoria especializada Kpler estimava um horizonte de três a quatro meses para que as exportações do Oriente Médio voltassem à média dos últimos anos. Só que novos ataques em Ormuz interromperam essa normalização e ampliaram um quadro já delicado.
Um componente adicional de pressão veio da Rússia: a sua capacidade de refino - num país que está entre os maiores fornecedores de diesel do mundo - caiu para o patamar mais baixo em 21 anos, depois dos ataques realizados pela Ucrânia.
Margens de refino: Galp, BP, Shell, Repsol e Moeve
Esse contexto levou a um salto nas margens de refino da indústria de petróleo. No caso da Galp, as margens vêm avançando trimestre após trimestre: de 4,7 dólares por barril no terceiro trimestre de 2024 para 16,8 dólares no segundo trimestre deste ano (marca superada apenas pelos 24 dólares de margem do terceiro trimestre de 2022, no auge da crise energética desencadeada pela invasão russa da Ucrânia).
Em Sines, o volume de matéria-prima processado pela Galp no segundo trimestre foi de 22,6 milhões de barris de petróleo, o que representa um aumento de 7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A empresa portuguesa, porém, está longe de ser exceção. No segundo trimestre de 2026, várias companhias do setor viram as margens de refino avançarem, embaladas pelos ataques envolvendo os Estados Unidos e o Irã. Entre elas, a BP, que entre abril e junho registrou margens de quase 30 dólares por barril (mais 149% do que no período homólogo), e a Shell, cuja margem de refino cresceu 125% e alcançou 20 dólares por barril. Na Espanha, Repsol e Moeve (ex-Cepsa) também surfaram a “onda”, com altas de 28% (para 14 dólares por barril) e 94% (11,3 dólares), respectivamente.
Com uma nova temporada de divulgação de resultados se aproximando, a expectativa é de que a maior parte das petrolíferas apresente lucros maiores - e em escala superior à dos primeiros três meses do ano. Entre janeiro e março, a Galp contabilizou um lucro líquido de €272 milhões (alta de 41% na comparação anual). No mesmo intervalo, as espanholas Repsol e Moeve reportaram lucros de €873 milhões (mais 56,7%) e €147 milhões (mais 7%), respectivamente. Já a BP ampliou seus resultados em 129%, para 3,2 mil milhões de dólares, enquanto a Shell chegou a 5,7 mil milhões de dólares (mais 18,8%).
Limitação da capacidade de refino da Europa e da Rússia está a pressionar os preços dos combustíveis
Por enquanto, o setor vai ajustando a logística de abastecimento. “Os preços altos já estão a empurrar oferta de substituição rumo à Europa. Os carregamentos de diesel sauditas, indianos e norte-americanos rendem mais quando entregues em Roterdã, mas levam semanas a chegar”, disse ao Expresso James Noel-Beswick, diretor da área de commodities da consultoria Sparta.
Diante das altas no preço do petróleo bruto e dos derivados, com o mercado de diesel especialmente apertado, há alguma chance de recuo nos preços dos produtos petrolíferos? Segundo James Noel-Beswick, “Um alívio duradouro da tensão em Ormuz, uma recuperação do refino russo ou a libertação sustentada de produtos chineses poderiam fazer baixar os preços significativamente”. Mas, até que algo desse tipo aconteça, o consultor alerta: “Mas até que alguma destas coisas aconteça o mercado do diesel continuará apertado. Os stocks já eram frágeis antes desta escalada e os últimos acontecimentos surgem numa situação já complicada”.
Incerteza para a economia
No campo macroeconômico, o tamanho do impacto ainda não é claro. “Apesar da forte subida dos preços do petróleo observada durante o segundo trimestre, a economia portuguesa não parece ter registado um custo material em termos de crescimento da atividade económica. Naturalmente, o prolongamento das tensões no Médio Oriente constitui um risco negativo, mas os efeitos observados até agora parecem relativamente contidos. E de forma algo surpreendente menores do que esperávamos”, avalia João Borges de Assunção, professor da Católica Lisbon.
Na leitura de Borges de Assunção, ainda é “prematuro” mexer na projeção de crescimento de 1,8% para Portugal neste ano. Paula Carvalho, economista-chefe do BPI, segue na mesma linha. “A previsão de 1,8% para o crescimento do PIB em 2026 mantém-se, pois este cenário foi desenhado com preços médios das commodities semelhantes aos atuais. Todavia, a margem para surpresas positivas, que existia num contexto de menores tensões, cumprimento do memorando e abertura do estreito de Ormuz, são agora bastante menores”, afirma Paula Carvalho.
O BPI já havia estruturado sua projeção para a economia portuguesa assumindo um preço médio de 90 dólares por barril, o que faz com que o nível atual do petróleo ainda seja visto como “confortável” para a estimativa mais recente do banco.
Ainda assim, Paula Carvalho reconhece que “o recente agravamento das tensões no Médio Oriente volta a intensificar os riscos negativos para a economia e ascendentes para os preços e também para as taxas de juro”. A economista-chefe do BPI ressalta que “o principal canal de transmissão em Portugal são os preços dos combustíveis” e que “a atividade também pode ser negativamente afetada por via do menor poder de compra das famílias, da quebra de confiança dos empresários, e da maior incerteza, com impacto desfavorável potencial no consumo e investimento”.
Para onde irá nas próximas semanas o preço do petróleo é, como sempre foi, uma incógnita.
Perguntas e respostas (P&R)
Por que o petróleo chegou a cair para os níveis pré-conflito, mas a gasolina e o diesel não?
Antes do ataque dos EUA ao Irã, no fim de fevereiro, o Brent era negociado a 70 dólares por barril, e depois superou 120 dólares em abril. Com o acordo de paz entre as duas partes (em meados de junho), o preço retornou, pela primeira vez em quatro meses, aos níveis pré-guerra, com uma nova “onda de petróleo” inundando os mercados. Mesmo assim, as cotações dos refinados (gasolina e diesel) não acompanharam esse movimento, o que limitou a queda dos preços nos postos. Desde o pico de abril, o Brent já recuou cerca de 50%, enquanto o diesel só recuperou 41%.
Quais fatores estão pressionando as cotações dos refinados?
Esses produtos são negociados com um spread em relação ao petróleo bruto, que define o lucro das refinarias e que no início de julho atingiu máximas históricas de quatro anos. Ainda assim, normalmente os dois mercados andam “de mãos dadas”. A atual “desconexão” aparece por restrições do lado da oferta: há refinarias paradas no Oriente Médio e unidades sob ataque na Rússia, o que limita exportações. Resultado: os estoques estão abaixo da média histórica dos últimos cinco anos. Com navios retidos no Golfo Pérsico, o valor do transporte marítimo (frete) também encarece de forma relevante os refinados.
O que é o fenômeno dos foguetões e das plumas?
Em 1990, o economista Robert Bacon publicou um estudo chamado “Rockets and Feathers” (ou “Foguetões e Plumas”), sobre como os preços finais da gasolina no Reino Unido reagiam às mudanças de custos. A conclusão, com base em dados de 1982 a 1989, foi que “o processo de ajustamento em alta [dos preços no retalho] é ligeiramente mais rápido e o período de ajustamento é mais concentrado do que quando os custos caem”. Em Portugal, a Autoridade da Concorrência também analisou o tema e observou que a intensidade do fenômeno varia de país para país. Neste mês, a ERSE (regulador da energia) descartou a ideia de irregularidades no mercado de combustíveis, depois de a ministra ter pedido novas análises sobre o comportamento dos preços.
Portugal tem preços acima da média europeia?
Dados da Comissão Europeia, referentes ao início de julho, indicam que Portugal estava com o preço ao consumidor do diesel 0,25% abaixo da média da zona do euro, enquanto o da gasolina estava 1,83% acima. Antes de impostos, na primeira semana de julho, a gasolina em Portugal era 1,28% mais barata e o diesel estava 4,13% abaixo da média da zona do euro (desde o início do conflito em Ormuz, o preço português permaneceu sempre abaixo da média).
Qual é a trajetória esperada para os preços?
O Brent voltou a acelerar e, nas cotações dos refinados, eram esperados novos aumentos relevantes nesta semana. Isso não favorece os preços finais nas estações de serviço, com novas altas nos combustíveis já previstas para a próxima semana. Na segunda-feira passada, o diesel subiu 6 cêntimos por litro e a gasolina 2 cêntimos, já considerando o desconto aplicado pelo Governo no ISP.
Quão sensível é a economia às variações do petróleo?
Uma alta forte no preço do petróleo e no custo do transporte marítimo tem efeitos sobre a economia global, elevando a inflação. No Orçamento do Estado para 2026, o Governo adotou como referência para este ano um preço médio do Brent de 65,4 dólares por barril. A análise de sensibilidade do Orçamento estima que uma alta de 20% no preço “resultaria numa redução de 0,1 pontos percentuais no crescimento do PIB em 2026”.
Bábara Silva e Miguel Prado
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