Com as bolsas renovando recordes sucessivos, apesar da guerra no Oriente Médio, Robert Engle - vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2003 - descarta a hipótese de uma nova crise financeira no radar. Em entrevista ao Expresso, à margem de sua participação na Lisbon Sustaintability Week, organizada pela Católica Lisbon SBE, ele sustenta que “não há uma bolha” no universo da tecnologia e da inteligência artificial (IA), embora ressalte que “isso não significa que não vá haver uma correção”.
Mercados financeiros e risco de nova crise
Como você avalia a situação atual dos mercados financeiros? Enxerga uma nova crise financeira se formando?
De fato, não vejo outra crise tomando forma. Os mercados financeiros estão surpreendentemente tranquilos. Um cenário de guerra total me parece pouco provável. E guerra, na prática, costuma significar que o governo direciona muito dinheiro para armamentos. Isso pode até impulsionar a economia e favorecer algumas empresas. Nos Estados Unidos, o presidente se preocupa bastante em manter o mercado acionário forte. Quando ele começa a cair, toma alguma medida para impedir a queda. Os mercados, em geral, não parecem muito apreensivos.
É perigoso para as famílias e para a economia real depender tanto dos mercados financeiros?
O mercado acionário está muito concentrado em poucas companhias. Isso torna arriscadas até carteiras consideradas bem diversificadas. Existe um risco nesse sentido. Se as empresas de chips e de IA caírem, podem puxar o mercado inteiro para baixo. Muita gente se pergunta se há uma bolha se formando nos setores de IA e tecnologia.
Tecnologia e inteligência artificial (IA): bolha ou correção?
E o que você acha? Há uma bolha?
Acho que não há uma bolha, e o motivo é que a IA tem utilidade concreta. As empresas estão faturando muito com a venda de IA. É algo bem diferente da crise financeira e da bolha da internet no início dos anos 2000. Naquela época, havia muitas companhias com avaliações elevadas e sem um negócio de verdade. Não é isso que aparece agora: essas empresas têm um negócio sólido. Isso não significa que não vá haver uma correção, mas não deve ser um colapso.
Há um conflito no Oriente Médio, mas os mercados seguem calmos e os índices acionários bateram novas máximas. Por quê?
Porque não estão precificando um colapso. E eu tenho duas explicações simples. A primeira é o TACO - isto é, a ideia de que Trump “sempre arregou” -, de que todo mundo já ouviu falar. A segunda eu chamei de MOO - “o mercado está otimista demais”. Essas duas chaves ajudam a entender por que o mercado acionário está mais alto do que talvez devesse estar. Ainda assim, não acredito que isso termine em um colapso do mercado. Não é como na crise financeira, quando a gestão de risco falhou e os bancos estavam expostos demais. Hoje, os balanços dos bancos parecem bem saudáveis. Na minha avaliação, a parte mais frágil dos mercados financeiros está no private equity (capital privado) e no crédito privado.
Esse é o ponto cego do sistema?
É uma fraqueza, mas não chega a ser tão vulnerável, porque, no capital privado e no crédito privado, os investidores não conseguem resgatar o dinheiro a qualquer momento. Assim, não dá para ocorrer o mesmo tipo de corrida e colapso que vimos na crise financeira. Se empresas de capital privado quebrarem, muitas pessoas ricas, fundos de pensão e fundos patrimoniais vão perder dinheiro. Mas não o público em geral. E é pouco provável que isso contamine todo o sistema financeiro. Há riscos, mas não riscos sistêmicos.
“Confiar em Elon Musk pode ser um risco sistêmico”
Bancos, juros e concentração nas big techs
As empresas de tecnologia representam uma grande fatia do mercado acionário e vêm puxando os índices para cima. Você vê os preços subindo ainda mais?
Não gosto de fazer previsões. Mas é um momento de cautela. Existem motivos para isso. Se a inflação voltar e os bancos centrais elevarem as taxas de juros, isso desacelera as economias. A economia americana talvez suporte melhor esse processo do que a europeia. Os bancos que enfrentaram problemas no último surto inflacionário foram os que usavam títulos do Tesouro de longo prazo como principal aplicação. Quando os juros subiram, os preços desses títulos caíram e, como os depositantes sacaram recursos, eles precisaram vender, realizando perdas de capital. Agora, os bancos parecem saudáveis. Estão com mais liquidez e já não colocaram tudo em títulos do Tesouro. Mas estão emprestando para a SpaceX. E ninguém sabe como isso vai terminar.
Europa, EUA, China e Oriente Médio na corrida da IA
Os EUA estão na dianteira da IA. A Europa corre o risco de ficar para trás?
Se houvesse um colapso de bolsa relacionado à IA, a Europa estaria em melhor situação. Minha previsão é que isso não vai acontecer e, por essa razão, acredito que a Europa esteja atrasada. Mas não sei até que ponto isso é determinante, porque a IA pode ser usada em qualquer lugar.
Não importa de onde vêm as empresas de IA?
Não é como fabricar um carro e vendê-lo em outro país. A IA está disponível pela internet, no mundo inteiro. Pode acontecer de o acesso ser restringido, e a Europa ficar sem? Países do Oriente Médio estão tentando desenvolver a própria IA, porque se preocupam com esse risco. A China está direcionando recursos impressionantes para esse tema, tentando construir capacidade própria.
Então eles antecipam risco?
Sim. Imagino que a Europa também enxergue esse risco, até porque os Estados Unidos já não parecem um parceiro tão confiável quanto eram. Estou muito insatisfeito com a forma como o ambiente geopolítico vem evoluindo. Ainda assim, não vejo isso levando a economia a um colapso.
SpaceX, Elon Musk e a possibilidade de risco sistêmico
Na entrada em Bolsa da SpaceX, vimos as ações dispararem. Qual é a explicação?
Não sei. Elon Musk consegue realizar coisas que não imaginávamos ser possíveis. Acho que os investidores estão dispostos a lhe dar um voto de confiança. Há risco demais ali, e eu considero que as ações estão supervalorizadas. Mas, se uma parte do que Musk quer fazer realmente acontecer, talvez elas não estejam.
Confiar em Elon Musk pode ser um risco sistêmico?
Pode ser um risco sistêmico. Fico incomodado por terem colocado a empresa no índice (Nasdaq) tão rapidamente. Vamos ver o que acontece.
Os bancos centrais salvaram os mercados na crise financeira de 2008 e na crise da covid-19. Eles ainda conseguiriam fazer isso hoje?
Sim, por que não?
Sustentabilidade e clima nos mercados
Você veio a Lisboa falar sobre sustentabilidade. Os mercados financeiros se preocupam com esse tema?
As mudanças climáticas são uma externalidade, e os mercados, por natureza, não conseguem resolver uma externalidade. É necessária alguma forma de intervenção governamental. Na Europa, há forte apoio a isso. A China é o maior emissor, mas diz que vai reduzir as emissões a zero até 2060. Se realmente quiserem fazer isso, estão preparados. Eles fizeram um investimento impressionante em tecnologia verde.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário