Um estudo recente concluiu que um homem sepultado no dólmen de Menga - uma imensa tumba pré-histórica de pedra no sul da Espanha -, há mais de mil anos, tinha ancestralidade que atravessava a Ibéria, o Norte da África e o Mediterrâneo oriental.
A descoberta transforma um enterro fora do comum em um dos monumentos sagrados mais antigos da Espanha em uma nova evidência de como sociedades medievais estavam profundamente conectadas pelo mar.
Sepultado com intenção
Logo na entrada da grande câmara de pedra, dois homens mais velhos foram depositados de bruços em covas separadas, posicionadas de acordo com o eixo do Menga.
Em laboratórios da University of Huddersfield, Marina Silva conseguiu reconstruir a origem diversa de um dos indivíduos a partir de DNA degradado.
Os resultados apontaram para um homem cuja linhagem paterna parecia europeia, enquanto a linhagem materna o vinculava a populações hoje presentes no Norte da África.
Ainda assim, o segundo sepultamento forneceu DNA confiável demais escasso, e o próprio monumento acabou carregando boa parte da narrativa.
O que os genes indicam
O único perfil que pôde ser preservado colocou esse homem próximo de populações medievais da Espanha e da Itália, mas também com maior afinidade com grupos do Norte da África.
Esse tipo de padrão costuma surgir quando deslocamentos prolongados aproximam famílias dos dois lados do mar, reunindo no mesmo corpo fragmentos hereditários vindos de regiões diferentes.
Um segundo estudo medieval, realizado no leste da Ibéria, já havia observado que a ancestralidade norte-africana se tornava mais estabelecida durante o domínio islâmico.
Muito antes disso, um levantamento amplo de genomas antigos já tinha identificado contatos com o Norte da África na Ibéria em períodos bem anteriores.
Por que apenas um
A maior parte do material genético já estava fragmentada, restando menos de um por cento de DNA humano aproveitável.
Para recuperar qualquer informação, a equipe recorreu ao enriquecimento por SNP, técnica que “pesca” marcadores genéticos específicos em amostras danificadas.
Com essa etapa adicional, foi possível obter cerca de 72.500 marcadores utilizáveis de um homem e apenas cerca de 9.200 do outro.
Como o segundo corpo também apresentava sinais de contaminação, os pesquisadores não conseguiram avaliar se os dois homens eram parentes.
Datação dos sepultamentos
Pesquisas anteriores dataram as covas entre os séculos 8 e 11 por meio de datação por radiocarbono, método que estima a idade a partir da decomposição do carbono.
A recalibração indicou que os sepultamentos ocorreram com cerca de 190 anos de diferença, o que exclui uma relação de pai, filho ou irmão.
Os dois indivíduos tinham mais de 45 anos e foram enterrados sem bens funerários, destacando escolhas rituais mais do que sinais de riqueza.
Essa distância temporal é relevante porque sugere um comportamento repetido, e não um episódio isolado no monumento.
Um lugar lembrado
Erguido entre 3800 e 3600 a.C., o Menga integra o Sítio dos Dólmens de Antequera, reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO no sul da Espanha.
Um artigo anterior já havia mostrado que o monumento foi um enorme feito de engenharia muito antes desses enterros medievais.
Seus construtores montaram pedras gigantescas em uma tumba com câmara, que gerações posteriores ainda podiam ver, acessar e tratar como carregada de significado.
Essa durabilidade ajuda a entender por que a memória permaneceu associada ao Menga mesmo depois de mudanças nos reinos, nas crenças e nas línguas ao redor.
Fé e sepultamento
Durante Al-Andalus, a parte da Ibéria sob domínio islâmico, o sul da Espanha abrigava muçulmanos, cristãos, judeus e, provavelmente, tradições pagãs mais antigas.
A posição do sepultamento e a orientação do corpo lembram, em linhas gerais, práticas islâmicas, já que os mortos foram enterrados individualmente e voltados para Meca.
Por outro lado, o alinhamento cuidadoso com o próprio eixo do Menga não corresponde a cemitérios islâmicos próximos, o que torna esses enterros mais difíceis de classificar.
Assim, a genética não consegue atribuir uma religião aqui, e a arqueologia passa a sustentar a maior parte da interpretação.
Por que o Menga importava
Na Ibéria medieval, não era incomum que pessoas reutilizassem monumentos pré-históricos como sepulturas, santuários ou lugares impregnados de sentidos antigos.
Relatos históricos sugerem que estruturas antigas podiam atrair reverência, sobretudo em áreas rurais, onde hábitos religiosos poderiam persistir por séculos.
No caso do Menga, os autores propõem a hipótese de um marabuto - um santuário rural ou eremitério ligado a uma reputação de santidade -, e não um cemitério comum. Essa leitura situaria os sepultamentos como parte de um local sagrado em uso, e não como o reaproveitamento de uma “casca” de pedra esquecida.
Fios norte-africanos
Outro indício genético veio do DNA mitocondrial, material herdado pelas mães, que conectou o homem a linhagens observadas no Norte da África.
Duas mutações compartilhadas, inclusive, aproximaram sua linhagem materna de uma sequência encontrada em um indivíduo mozabita moderno da Argélia.
Seu perfil genético mais amplo também mostrou sinais do Mediterrâneo oriental, sugerindo histórias familiares moldadas por deslocamentos em torno do mar.
“Com o início do período islâmico em 711 d.C., os contatos com o Norte da África provavelmente foram mais frequentes, viabilizados por eventos políticos e práticas culturais compartilhadas”, escreveu Silva.
O que ainda é desconhecido
Mesmo com o genoma parcialmente recuperado, aspectos centrais da vida desse homem seguem inacessíveis. A baixa cobertura manteve a estimativa de ancestralidade em termos amplos, sem permitir determinar com precisão suas origens familiares.
A equipe de Silva também alertou que genes não se traduzem diretamente em língua, fé ou identidade cotidiana. O que resta, portanto, é um contorno mais nítido em torno do mistério - e isso pode ser tão útil quanto a certeza.
Uma memória mais antiga
Os sepultamentos medievais no Menga mostram um monumento ainda influenciando decisões humanas, enquanto um genoma degradado relaciona essa escolha a uma sociedade marcada pela mistura.
Mais DNA recuperável poderia refinar o quadro, mas a conclusão mais clara já se impõe: as pessoas continuaram voltando ao Menga de forma deliberada.
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