O acaso e a má sorte, no fim das contas, pesam pouco quando o assunto é saúde cardiovascular. Embora seja impossível viver blindado contra todo perigo - e também não dê para escapar completamente do determinismo genético -, quase todas as emergências mais graves têm explicações bem anteriores ao momento em que acontecem.
A crença de que eventos cardiovasculares “acontecem do nada” é um mito que precisa ser desmontado. De acordo com um estudo publicado em setembro de 2025 no Journal of the American College of Cardiology, que analisou em detalhe dados médicos de 9 milhões de adultos norte-americanos, a enorme maioria de quem sofreu insuficiência/ataque cardíaco ou um acidente vascular cerebral (AVC) já apresentava pelo menos um dos quatro grandes fatores de risco antes da doença.
Somados, esses quatro pontos estavam associados a 99% do total de crises e eventos registrados. Para a cardiologista Neha Pagidipati (Universidade Duke), a prevenção deve ser a primeira estratégia: “Hoje, a prioridade absoluta é enfrentar os fatores de risco sobre os quais realmente podemos agir, em vez de nos perder perseguindo variáveis secundárias, difíceis de tratar e sem relação de causa e efeito”. Insatisfeita com o estado da pesquisa clínica, ela afirma: “Podemos - e devemos - fazer melhor”. E, de fato, é possível retomar algum controle - ao menos em parte - sobre os quatro fatores apontados pelo estudo.
Hipertensão arterial: a principal culpada
No topo da lista está a hipertensão, um quadro comum que, segundo o Vidal, significa que “a pressão do sangue nas artérias é alta demais”. Pelos números do estudo, ela é o fator mais frequentemente ligado a eventos cardiovasculares: mais de 93% dos pacientes que tiveram infarto, AVC ou insuficiência cardíaca já conviviam com hipertensão antes.
Dá para acompanhar isso em casa com um aparelho de pressão comprado em farmácia ou até com alguns relógios inteligentes de melhor qualidade (como o Samsung Galaxy Watch 8 ou o Apple Watch Series 10, para citar dois), ainda que eles costumem apenas alertar para risco de hipertensão, sem detalhar muito.
Para ler corretamente os valores do medidor, é importante lembrar que a pressão arterial sempre traz dois números. O primeiro, mais alto, corresponde à pressão sistólica - o momento em que o coração se contrai e impulsiona o sangue pelo corpo. O segundo, mais baixo, é a pressão diastólica, quando o coração relaxa. Em geral, a pressão é considerada normal e ideal quando fica por volta de 120/80 (muitas vezes abreviada como 12 para a sistólica e 8 para a diastólica).
Quando esses valores se afastam dessa referência, fala-se em hipertensão, especialmente quando a pressão passa com frequência de 140/90 no consultório ou de 135/85 nas medições feitas por conta própria em casa.
No dia a dia, fora os componentes genéticos, há margem para agir e reduzir a chance de hipertensão. A primeira frente é a alimentação: maneire no sal e fuja ao máximo de alimentos ultraprocessados. Reduza o consumo de pão branco (sim, é difícil) e capriche em frutas e verduras, ricas em potássio.
Em segundo lugar, mesmo para quem não é fã de academia, atividade física regular é aliada: 30 minutos de caminhada acelerada, natação, ioga ou bicicleta cinco vezes por semana ajudam o coração a bombear com mais eficiência e tendem a baixar a pressão ao longo do tempo.
O mito do colesterol e das artérias “entupidas”
O colesterol é um lipídio essencial, produzido pelo fígado, que serve para formar as membranas das nossas células. Você provavelmente já ouviu falar em colesterol “bom” e “ruim”, um jeito popular de se referir, na prática, a dois tipos de lipoproteínas: HDL e LDL. Como a gordura não se dissolve no sangue, ela depende dessas moléculas (feitas de proteínas e lipídios) para circular no organismo. O problema aparece quando há LDL (o “mau” colesterol) em excesso: ele atravessa o endotélio - a fina camada celular que reveste a parte interna dos vasos - e se infiltra nas camadas internas das artérias.
Uma vez ali, o LDL oxida, e o sistema imunológico tenta dar conta do estrago enviando glóbulos brancos para eliminá-lo: monócitos entram na parede da artéria e viram macrófagos. Eles engolem a gordura oxidada até o limite e se transformam em “células espumosas”, como pequenas esponjas saturadas de lipídios. Quando essas células se acumulam em excesso, pode surgir uma placa de ateroma, um abaulamento dentro da própria parede arterial. Presos no local, os macrófagos acabam morrendo, o que alimenta uma inflamação crónica bem no interior da placa.
Se o estudo citado na introdução confirma que placas de ateroma continuam sendo fatores de risco relevantes, outro trabalho publicado em setembro de 2025 na revista JAAC Journal mostrou que o perigo nem sempre vem de uma placa crescendo até bloquear a artéria. Infartos e AVCs tendem a acontecer com mais facilidade quando a capa fibrosa (uma membrana fina que separa a gordura do sangue) se rompe por causa da inflamação. O núcleo da placa, muito aderente, fica exposto: o contato com o sangue desencadeia imediatamente a formação de um coágulo (um trombo), que interrompe o fluxo sanguíneo.
Para acompanhar o colesterol, é indispensável medi-lo com profissionais de saúde. Só um exame de sangue em jejum, feito em laboratório, consegue dosar LDL e HDL; depois de chegar à vida adulta, recomenda-se repetir esse controlo ao menos uma vez a cada cinco anos.
Também aqui há espaço para mudança, sobretudo pela alimentação. A ideia é poupar o fígado limitando o consumo de ácidos graxos saturados, muito presentes em carnes gordas, embutidos, queijos maturados, manteiga e creme de leite (o que, na prática, costuma ser o mais saboroso). Folhados e doces de padaria, pizzas industriais, frituras, refrigerantes e pratos prontos também devem entrar apenas com muita moderação.
Isso não significa cortar gorduras por completo - você ainda precisa delas -, mas priorizar as gorduras “certas”. Dê preferência a azeite de oliva, nozes, amêndoas e peixes gordurosos (salmão, sardinha, cavala, arenque), ricos em ômega-3, e aumente a ingestão de fibras solúveis (aveia, lentilhas, maçã, pera, cítricos, morango, cenoura) para reduzir, em parte, a absorção de LDL antes de ele entrar na corrente sanguínea.
Glicemia: como evitar uma montanha-russa de energia
O terceiro responsável destacado pelo estudo é o açúcar - uma substância que, para piorar, tem alto potencial de dependência para o cérebro. Assim como ocorre com a hipertensão, manter a glicose do sangue (glicemia) alta e de forma repetida causa danos importantes. Em excesso, a glicose se liga espontaneamente a aminoácidos das proteínas; essa reação química altera a estrutura tridimensional do colagénio presente na parede dos vasos: é o fenómeno chamado glicação, que torna as artérias mais rígidas.
Com menos elasticidade, elas perdem a capacidade de se dilatar adequadamente quando o fluxo sanguíneo aumenta. Ao longo do tempo, a glicação faz o sangue exercer uma pressão mecânica constante sobre o endotélio; a parede se deteriora, mantendo uma inflamação crónica que favorece doenças cardiovasculares.
Para se proteger, o primeiro passo é reduzir a dependência do organismo por excesso de açúcar. Ele já existe naturalmente em muitos alimentos, então não há por que exagerar: a OMS recomenda não ultrapassar 25 g de açúcares livres por dia, o equivalente a seis colheres de chá. Troque açúcares refinados (como pão de forma branco ou massas brancas) por carboidratos complexos e integrais, que demoram mais para ser digeridos e liberam energia de modo gradual.
Depois, para “quebrar” o pico de glicemia que aparece após as refeições, levante e caminhe por dez minutos. Esse esforço simples faz os músculos captarem a glicose circulante e usá-la como combustível, evitando que a glicemia dispare. No restante, um controlo de rotina no seu próximo exame anual de sangue costuma bastar para confirmar que está tudo em ordem.
Cigarro: um problema que dá para evitar
Aqui está o único fator que não cumpre absolutamente nenhuma função vital ou nutricional: o tabaco. A nicotina, por si só, não é o que mais agride as artérias, mas é uma substância psicoativa altamente viciante. O ponto central é que o tabaco reúne uma infinidade de compostos que atacam o sistema cardiovascular. Quando é queimado e inalado, liberta toxinas potentes nos pulmões: monóxido de carbono, amoníaco, formaldeído, arsénio, benzeno e cianeto de hidrogénio. Ao todo, há pelo menos 7 000 substâncias químicas na fumaça do cigarro, e 70 são consideradas cancerígenas.
Esse cocktail cria microlesões nas artérias e desencadeia inflamação generalizada: o monóxido de carbono ocupa o lugar do oxigénio no sangue e, para compensar, o coração é obrigado a bater mais rápido, enquanto as artérias, já danificadas, ficam mais rígidas. Com tabaco não existe meio-termo: para proteger de verdade o sistema cardiovascular, é um produto a ser evitado ao máximo. Parar pode ser muito difícil - daí a utilidade de substitutos de nicotina (vendidos em farmácias e com reembolso parcial pelo seguro de saúde) e do acompanhamento médico.
Na medicina, risco zero obviamente não existe e, mesmo com um estilo de vida impecável, ainda é possível ter complicações cardíacas. Não controlamos todos os fatores ambientais, genéticos, fisiológicos ou mesmo sociais; então, sob essa lógica, por que entregar de bandeja ao nosso sistema vascular toxinas que podemos evitar? Sem precisar viver como um asceta, dá para tirar de cena o que é claramente nocivo - o que, por si só, é a forma mais eficaz de autoproteção.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário