Pular para o conteúdo

IA e o Malt Tech Trends 2026: agentes autônomos mudam o jogo para freelancers

Pessoa trabalhando em laptop com checklist na tela e celular ao lado sobre caderno aberto em mesa de madeira.

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e virou uma força que, em tempo real, está redesenhando a trajetória de inúmeras carreiras. De acordo com o relatório mais recente Malt Tech Trends 2026, estamos diante de uma virada rara: competências tech que por muito tempo foram centrais começam a perder espaço para automação e agentes autônomos, enquanto vários setores entram num ciclo acelerado de transformação.

Para entender por que o mercado de trabalho está mudando de eixo, vale olhar para onde muitas tendências aparecem primeiro: entre os profissionais independentes. Com uma comunidade de 1 milhão de especialistas na Europa e no Oriente Médio, a Malt ocupa um ponto de observação privilegiado. A plataforma - que conecta freelancers a 80% das empresas do CAC 40 - acaba de divulgar o Malt Tech Trends 2026. Com base na análise das buscas feitas por 100 000 empresas, o estudo aponta uma aceleração inédita dos usos de tecnologia.

O diagnóstico inicial é direto: já entramos na “fase agêntica”. Se 2024 foi o ano dos assistentes conversacionais capazes de responder perguntas usando Retrieval-Augmented Generation (RAG) - técnica que conecta um modelo aos documentos internos de uma empresa -, 2026 marca o avanço dos agentes autônomos capazes de executar ações.

“A fase agêntica vai muito mais rápido que as duas primeiras fases da IA”, analisa Claire Lebarz, diretora técnica e de IA na Malt, em entrevista ao Presse-citron. “Ela já ultrapassou a demanda pela competência em RAG, em assistente para as empresas. É a competência e a tecnologia mais rápida que a gente já viu. Essa é realmente a grande tendência que vem chacoalhar o ecossistema”, continua.

Essa mudança altera profundamente a natureza dos projetos. Em vez de procurar apenas alguém para desenvolver uma interface, as empresas passam a buscar perfis que consigam desenhar sistemas que operem por conta própria. A demanda por profissionais que dominam IA agêntica, assim, subiu 60% em um ano. Para a executiva, isso é só o início de uma transformação mais ampla em que “as fronteiras se apagam entre as tecnologias”, e a IA passa a funcionar como uma verdadeira parceira de produção.

A grande virada

O movimento é comparável a um abalo sísmico: pela primeira vez em anos, pilares tradicionais da web perdem tração. Segundo os dados da Malt, a procura por competências em Java e WordPress caiu de 20 a 30% em apenas um ano. Esse recuo não significa o fim dessas ferramentas, mas indica que a atenção das empresas está migrando em massa para alternativas percebidas como mais flexíveis.

“Tradicionalmente, as competências mais demandadas sempre foram as stacks clássicas de código: Java, TypeScript, Python, etc. Estamos vendo uma virada do ecossistema. Não é que haja menos engenheiros codando, mas existe uma aceleração tão forte da demanda por IA que todas as tecnologias que dominavam o top 10 há oito anos perderam espaço”, explica Claire Lebarz.

Ao mesmo tempo, low code e no code ganham terreno de forma explosiva, ao permitir criar aplicações ou automatizar processos por meio de interfaces visuais simplificadas, em vez de digitar manualmente milhares de linhas de código. Como sinal dessa virada, a ferramenta de automação n8n teve seu uso multiplicado por 14 na plataforma em um ano. Ferramentas como Zapier seguem o mesmo caminho, com crescimento de mais de 1500%.

Essa dinâmica também muda o que se espera do próprio engenheiro: “Vai-se esperar que um especialista seja capaz de codar com tecnologias clássicas para o núcleo da infraestrutura, mas que também domine ferramentas que permitam experimentos muito mais rápidos por cima”, observa a dirigente.

Quase todas as profissões

E o impacto da IA está longe de ficar restrito ao universo tech. O que se vê é uma reconfiguração ampla de diferentes funções - de recursos humanos a marketing, passando por finanças. Os números da Malt sustentam essa leitura: 22% das solicitações de missão, mesmo em projetos estritamente não técnicos, já incluem a exigência de competências obrigatórias em IA. “É um sinal claro de que amanhã será uma competência realmente disputada em todas as profissões. Estamos vivendo uma transformação do trabalho numa velocidade impressionante”, avalia a especialista.

Como referência, um estudo publicado em março indicou que 16,3% dos empregos na França estarão ameaçados entre dois e cinco anos por causa da inteligência artificial. Diante desse cenário, os freelancers atuam como sentinelas, já que dedicam, em média, quatro horas por semana à própria formação para manter a competitividade.

“Os talentos hoje mais aptos a trabalhar nesses projetos são os que fizeram a virada”, reforça Claire Lebarz. Nesse contexto, as empresas recorrem a independentes familiarizados com IA porque essa se tornou a forma mais rápida de colocar inovação dentro das equipes, sem depender de ciclos de capacitação internos - frequentemente mais lentos.

A explosão das exigências de conformidade

Uma coisa é colocar IA para funcionar; outra, bem diferente, é industrializá-la dentro de organizações mais rígidas. Escalar exige novas capacidades - e isso aparece nas demandas. A Malt registra um aumento de 380% na busca por expertise em regulamentação de IA. “Um projeto em cada dois está ligado à conformidade. Há crescimentos fortes em metodologias de análise de risco e certificações ISO. Essa necessidade de governança se traduz hoje na procura por perfis de alto nível, como Chief Data Officers ou encarregados de proteção de dados interinos”, detalha Claire Lebarz.

Da mesma forma, a IA abre novas brechas que as empresas precisam fechar rapidamente. Em um ano, o número de freelancers especializados em cibersegurança aumentou 65%: agora, um projeto de cibersegurança em cada dois é voltado à conformidade dos sistemas. Por fim, existe o desafio financeiro: é a ascensão do FinOps (+72% de crescimento), prática de acompanhar em tempo real o consumo de recursos em nuvem para impedir que o custo tecnológico saia do controle.

“O nível de maturidade não está mais ligado ao tamanho da empresa ou ao setor. Mesmo no setor público, vemos uma aceleração extremamente forte. Hoje, a diferença está no leadership e na capacidade das organizações de integrar esses especialistas que, todos os dias, redefinem os limites do possível”, conclui Claire, a especialista.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário