Bebês adoram se ver no espelho. Para muitos pais, é uma cena comum: um sorriso, um balbucio ou um olhar bem arregalado para o rostinho que devolve o olhar.
Agora, cientistas suspeitam que essa curiosidade simples pode fazer mais do que apenas distrair os pequenos.
Um estudo recente constatou que apenas duas semanas de brincadeiras com espelho alteraram a atividade em partes do cérebro de bebês de quatro meses ligadas a compreender rostos e expressões de outras pessoas.
O resultado sugere que experiências do dia a dia ajudam a moldar o cérebro social mais cedo do que os investigadores imaginavam.
Por que os bebês copiam rostos
Muito antes de conseguirem falar, bebês tendem a reproduzir as expressões que veem ao redor. Um sorriso puxa outro sorriso; uma boca aberta convida uma resposta parecida.
Esse reflexo, conhecido como mímica facial, facilita que as pessoas entrem em sintonia e captem o que o outro está sentindo.
Nos adultos, esse hábito é bem enraizado. Repetir a expressão de alguém - mesmo sem intenção - está associado à empatia e à identificação rápida de emoções; além disso, um estudo apontou que pessoas mais empáticas imitam rostos com mais intensidade.
Foi justamente a origem desse comportamento que pesquisadores da Universidade de Essex decidiram investigar.
A equipe queria entender se os bebês já nascem “programados” para copiar rostos ou se desenvolvem essa capacidade com a experiência. A resposta muda a forma como pensamos sobre onde a vida social começa.
Como os bebês aprendem a imitar
Uma corrente defende que a ligação entre ver uma expressão e produzi-la existe desde o início. Nessa visão, recém-nascidos conseguiriam imitar antes de qualquer prática.
A outra corrente sustenta que essa conexão é aprendida. Aos poucos, os bebês associariam o que enxergam ao que sentem ao fazer o movimento.
Gradualmente, ao longo de meses de vida comum, formariam a ponte entre observar e agir. Há pesquisas que sugerem que esses circuitos ficam mais precisos com prática direta.
Essa segunda hipótese costuma se apoiar nos neurônios-espelho, células cerebrais que se acredita dispararem tanto quando nos movemos quanto quando vemos outra pessoa se mover.
Se a experiência afina esse sistema, então passar mais tempo observando o próprio rosto deveria deixar um sinal no cérebro do bebê.
Duas semanas com um espelho
Para testar isso, os investigadores deram a um grupo de bebês de quatro meses um brinquedo pequeno com um espelho embutido. Durante duas semanas, esses bebês brincaram em casa com o próprio reflexo, dia após dia.
Um segundo grupo recebeu o mesmo brinquedo, mas sem espelho. Todo o restante foi mantido igual, de modo que qualquer diferença no fim pudesse ser atribuída às horas gastas olhando para o próprio rosto.
Antes e depois das duas semanas, cada bebê assistiu a vídeos de outros bebês fazendo caretas - abrindo a boca, levantando as sobrancelhas.
Sensores no couro cabeludo registaram a atividade elétrica do cérebro, enquanto sensores nas bochechas e na região da sobrancelha captaram as contrações musculares discretas típicas de uma expressão copiada.
A brincadeira com espelho alterou a atividade cerebral
Depois do período de intervenção, o grupo do espelho apresentou uma resposta cerebral diferente. Ao ver outro bebê mexer o rosto, o córtex sensório-motor apresentou mais atividade do que tinha mostrado duas semanas antes.
Essa região liga o que vemos ao que o nosso próprio corpo faz. Já os bebês com o brinquedo sem espelho não exibiram aumento semelhante.
O efeito foi mais forte do lado direito do cérebro, numa área associada ao reconhecimento de rostos. Até então, ninguém havia demonstrado que poucas semanas com um espelho poderiam estimular essa resposta em bebês tão novos.
O registo indica uma reação mais intensa, mas não explica a causa. Os pesquisadores interpretam o padrão como um indício de que observar os próprios movimentos pode reforçar circuitos usados para entender outras pessoas - embora apenas a leitura cerebral não prove essa sequência.
O que dá destaque ao achado é o desenho do estudo. Ao oferecer a experiência de forma deliberada e medir a mudança em seguida, a equipe conseguiu atribuir a diferença ao tempo de espelho em si, e não a um padrão percebido apenas depois.
Cérebro aprendeu antes do comportamento
Houve, porém, um detalhe importante. Apesar do aumento de atividade no cérebro, esses bebês não passaram a copiar expressões mais do que antes - os sensores musculares não detetaram crescimento na mímica.
Isso não significa que fossem novos demais para imitar. Trabalhos anteriores já haviam mostrado que bebês dessa idade reproduzem uma expressão quando algo chama a atenção deles.
O comportamento já estava ao alcance; o aumento de resposta no cérebro simplesmente ainda não tinha se traduzido em ação.
Duas semanas podem ser pouco tempo para esse avanço aparecer no comportamento. Mudanças na forma como os bebês processam o outro podem surgir primeiro no cérebro e só depois virar manifestação visível.
Novas pistas sobre aprendizagem social
Antes deste estudo, a ideia de que a experiência cotidiana ajusta o cérebro social do bebê era, em grande parte, uma suposição bem informada.
Agora há evidência direta de que um hábito pequeno e comum - tempo a observar o próprio rosto - pode modificar como o cérebro de um bebé responde a outras pessoas.
Isso abre questões concretas, porque os investigadores observaram que apenas duas semanas de exposição já mudaram esses circuitos, o que permite perguntar quanta exposição - e quão cedo - produz diferenças duradouras.
Também se torna possível testar se a mesma abordagem simples poderia ajudar bebês com desenvolvimento mais lento de habilidades sociais.
O comportamento ficou para trás, mas o cérebro claramente “registrou” a experiência. Um bebê que encara um espelho de brinquedo está, em silêncio, ensaiando uma das primeiras competências sociais de que vai precisar.
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