A explicação mais comum para um antigo campo de caça abandonado é a escassez. As manadas rareiam, a água some, e os caçadores migram para áreas melhores. Esse raciocínio funciona para a maioria dos locais de abate que as pessoas deixaram para trás.
Mas uma área do centro de Montana fugiu desse padrão. Ali, caçadores voltaram ao mesmo ponto, com idas e vindas, por cerca de 700 anos - e então pararam de vez, há aproximadamente 1.100 anos.
O curioso é que a relva continuava a crescer e o riacho seguia correndo. Ou seja, outra coisa deve ter afastado essas pessoas.
Um abandono intrigante
O local é conhecido como sítio Bergstrom, uma encosta gramada a oeste da pequena cidade de Garneill, em Montana.
Ele fica na borda do Judith Gap, uma passagem baixa entre duas cadeias de montanhas onde as manadas, ao serem canalizadas pelo relevo, viravam alvos fáceis para caçadores à espreita.
Em algum momento, porém, os abates cessaram abruptamente - e ninguém mais retornou. Essa interrupção chamou a atenção de John A. F. Wendt, cientista ambiental que liderou o estudo na Universidade Estadual de Montana (MSU).
Wendt e seus colegas organizaram quatro hipóteses principais: talvez os bisões tivessem diminuído nas redondezas; ou o próprio ambiente tivesse se transformado.
Também era possível que novos hábitos de caça tivessem tornado aquele ponto pequeno menos vantajoso, ou ainda que várias pressões tivessem se somado ao mesmo tempo.
Descobertas sob o solo
Na primavera de 2019, a equipa abriu nove pequenos poços numa encosta acima do Red Bluff Creek, escavando até alcançar sedimentos sem qualquer vestígio de presença humana.
Nas camadas inferiores, os achados eram numerosos: ossos de bisão, carvão e pontas de pedra usadas em antigas lanças.
À medida que os escavadores avançavam para baixo, surgiam dois estilos diferentes dessas pontas - as mais recentes nas camadas superiores e as mais antigas mais abaixo.
O carvão dessas camadas, datado por carbono radioativo, situou a atividade de caça entre aproximadamente 1.800 e 1.100 anos atrás.
Junto ao riacho, o grupo retirou dois longos testemunhos de lama das profundezas do terreno encharcado.
Cada testemunho guardava um registo do ambiente: pólen indicando quais plantas dominavam, carvão como indicador de fogo e esporos de um fungo que se desenvolve em fezes.
Duas hipóteses perdem força
Se o local tivesse passado a prejudicar os caçadores, os testemunhos deveriam revelar essa virada - mas não revelam.
Ao longo de séculos de uso e mesmo depois do fim das caçadas, as gramíneas e as árvores das margens mantiveram-se estáveis, e os incêndios continuaram raros. O sinal mais nítido veio dos esporos do fungo associado a esterco.
Como esses esporos só aparecem em excrementos, encontrá-los na lama do riacho indica onde animais pastadores estiveram. Pesquisas anteriores já tinham usado esse método para acompanhar a presença de grandes manadas.
E, no caso de Bergstrom, esses esporos ficaram mais comuns depois que a caça terminou - não menos. Assim, uma hipótese caiu. A segunda, de que os caçadores apenas teriam acompanhado os bisões para outro lugar, também não se sustentou.
Os investigadores compararam ossos de bisão deixados por pessoas com ossos de animais que morreram naturalmente. Se a caça refletisse diretamente a quantidade de bisões, ambos os registos deveriam subir e descer em conjunto. Não foi o que aconteceu.
Os bisões permaneceram na região por muito tempo após 1.100 anos atrás, e as secas acabaram por aliviar. Mesmo assim, ninguém voltou a caçar no sítio Bergstrom.
Como a manada não desapareceu e o ambiente não entrou em colapso, nenhuma das explicações simples resolveu o enigma.
Um boom regional de caça
No mesmo período em que Bergstrom ficou silencioso, a caça na região não estava a perder força. Pelo contrário: intensificou-se, com mais bisões abatidos e processados do que em qualquer fase anterior.
Em relação ao número de bisões que morriam naturalmente, o total abatido por caçadores tinha aumentado mais de cinco vezes desde o fim da Era do Gelo.
Mais estranho ainda: o auge da pressão de caça coincidiu com as secas mais severas - períodos áridos que um estudo acompanha em escala continental. A seca não interrompeu a caça; ela mudou a forma como ela era feita.
Em vez de distribuir os abates por muitos pontos pequenos, os caçadores passaram a concentrar os bisões em poucos lugares maiores, bem abastecidos de água, preparados para caçadas colectivas de grande porte.
Locais maiores levaram vantagem
Essas operações funcionavam numa escala totalmente diferente. Em batidas comunitárias, grupos conduziam manadas inteiras por alinhamentos de pedras empilhadas até penhascos ou currais.
Um estudo descreve complexos desse tipo espalhados por quilómetros, assinalados por milhares de montículos de rocha.
Para uma caçada assim dar certo, era preciso água confiável, espaço para o processamento das carcaças e muitas pessoas a trabalhar em conjunto.
Um ponto pequeno e vulnerável à seca, como Bergstrom, teria dificuldade em competir. E, à medida que as caçadas em grupo se tornaram o padrão, locais menores passaram a oferecer retornos cada vez menores.
O impacto da seca
Então as secas apertaram. A última caçada em Bergstrom ocorreu pouco antes de dois dos três piores períodos de estiagem dos últimos dois milénios.
Com menos água disponível, as grandes caçadas colectivas atraíam pessoas para outros sítios, e a disputa pelos melhores locais aumentava.
Na leitura dos autores, essas pressões convergiram até que o pequeno ponto fosse abandonado de vez.
Lições para hoje
O que encerrou a caça no sítio Bergstrom não foi um ambiente em declínio nem o desaparecimento das manadas.
Foi uma mudança no modo de caçar: a seca e a força de atração de áreas maiores, com água mais garantida, foram empurrando os terrenos menores para fora do sistema. Isso traz um recado atual para a gestão de bisões.
Nas Grandes Planícies, muitas manadas hoje vivem dentro de cercas fixas e sob regras rígidas, o que pode retirar a flexibilidade que permitia aos sistemas antigos adaptar-se às secas em vez de colapsar. Os bisões precisam de espaço.
Manter áreas conectadas, controlar os números abaixo do limite do território e permitir que os animais alcancem novas áreas num ano seco ajuda a recuperar a flexibilidade que manteve esses sistemas a funcionar.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário