A promessa da geoengenharia solar parece simples à primeira vista: diminuir a quantidade de luz do Sol que chega à Terra para resfriar o planeta.
Em tese, isso deveria aliviar o aumento de temperatura tanto em terra quanto no mar. Só que os oceanos não reagem como se fossem um único sistema totalmente integrado.
Simulações recentes indicam que, com essa estratégia, alguns mares esfriariam, grandes áreas ficariam praticamente tão quentes quanto hoje e algumas regiões poderiam até aquecer ainda mais.
Em vez de distribuir alívio de forma uniforme, o resfriamento criaria vencedores e perdedores bem definidos pelos oceanos do mundo.
Calor abaixo da superfície
Em mar aberto, uma onda de calor marinha se forma devagar e pode passar despercebida. A temperatura da superfície sobe além do padrão e permanece assim por semanas - às vezes por meses.
Ao longo do último século, esses episódios se alongaram, e os recifes de coral estão entre as primeiras vítimas.
Um estudo relacionou uma sequência desses períodos quentes à perda de mais da metade do coral vivo na Grande Barreira de Corais, na Austrália, ao longo de três décadas.
Lala Kounta, oceanógrafa física da Michigan State University (MSU), acompanha esses eventos desde 2020.
O alerta inicial veio quando águas quentes na costa do Senegal favoreceram uma floração tóxica de algas que deixou centenas de pescadores doentes.
Escurecer o sol: geoengenharia solar
A redução de emissões tem avançado lentamente, e esse atraso levou parte dos pesquisadores a considerar uma alternativa mais incomum.
A proposta é chamada de geoengenharia solar e envolveria aeronaves voando alto na estratosfera para dispersar partículas capazes de refletir parte da luz solar de volta ao espaço.
A inspiração vem dos vulcões. Grandes erupções lançam dióxido de enxofre para as camadas altas da atmosfera, onde ele forma gotículas que devolvem luz ao espaço por anos.
Quando o Monte Pinatubo entrou em erupção nas Filipinas, em 1991, o planeta esfriou cerca de 1 grau Fahrenheit (0,6°C) por aproximadamente dois anos.
Se liberadas de propósito, as partículas fariam o mesmo trabalho - só que de maneira planejada. O atrativo é o tempo extra que isso poderia oferecer enquanto o mundo tenta cortar carbono. Ainda assim, ninguém consegue dizer com precisão como o efeito se desenrolaria em cada região.
Dois cenários de resfriamento
A maior parte dos estudos sobre o tema se concentrou mais nos efeitos na atmosfera do que no oceano. A equipe de Kounta testou um dos principais modelos climáticos em duas configurações.
Sem controle, o modelo apontou para a piora das ondas de calor em praticamente todos os oceanos do planeta até 2069.
Mesmo no ajuste mais brando, o plano teria protegido apenas cerca de 20% a 25% do oceano contra o agravamento das ondas de calor.
O alívio apareceu com mais força nos trópicos, no Ártico e no Atlântico Sul - incluindo a costa da África Ocidental que Kounta conhece de perto.
Ali, o cenário mais intenso retirou grande parte do calor que a água manteria de outra forma. Mas esse padrão não se repetiu em todo lugar.
Quando a proteção falha
As falhas também ficaram nítidas. Mesmo na versão mais agressiva, quase um quarto do oceano continuou aquecendo; suas ondas de calor se estenderam e ficaram mais severas ao longo do século.
As áreas que perdem com isso não são marginais. Elas incluem o Atlântico Norte, o Pacífico norte e tropical, além de partes do Oceano Antártico - regiões que sustentam alguns dos mais movimentados polos pesqueiros do mundo.
Até o fim do século, sugere o modelo, certas águas poderiam deixar de esfriar entre um pico e outro. Em vez de alternar, entrariam num estado de onda de calor permanente.
Quando está quente o tempo todo, a vida marinha tem pouca chance de recuperação. Ninguém havia delineado esse futuro com tanta clareza.
Para Kounta, a implicação envolve justiça tanto quanto temperatura: algumas faixas costeiras receberiam alívio, enquanto outras seriam deixadas para “assar”.
Não existe solução simples
Resfriar a superfície não resolve o problema do carbono. O dióxido de carbono continua sendo absorvido pelo mar.
Isso alimenta a acidificação oceânica, processo que torna a água do mar mais corrosiva para amêijoas, mexilhões e outros animais com concha na base da cadeia alimentar.
Interromper a medida de forma abrupta seria ainda pior. Alguns modelos alertam que encerrar um grande esforço de resfriamento de uma vez liberaria, num único pico, anos de calor acumulado - rápido demais para que seres vivos conseguissem se adaptar.
Críticos também afirmam que o plano esconderia sintomas do aquecimento em vez de tratar a causa. Nenhum país conseguiria conduzir isso sozinho.
Zarnetske enfatiza a necessidade de estratégias de saída antes de qualquer implementação e reforça que isso não substitui a redução de emissões. Para ela, cortes fortes de carbono continuam sendo o caminho mais eficaz.
O que vem pela frente
O recado central do estudo é claro: escurecer o sol jamais resfriaria o oceano de maneira uniforme.
A medida poderia suavizar ondas de calor em grande parte do mar, mas deixaria talvez um quarto ainda aquecendo - mesmo no cenário mais forte.
Economias costeiras baseadas na pesca, como as frotas de bacalhau do Atlântico Norte, podem descobrir que seguem expostas independentemente de quão agressivamente o plano seja levado adiante.
Outras pesquisas estão investigando o que essas partículas poderiam provocar em chuvas e lavouras. Nada disso resolve, por si só, se o mundo deve tentar.
O trabalho, porém, entrega um alerta mais nítido para quem considera a opção: ele ajuda a enxergar com mais clareza quem seria protegido pelo resfriamento e quem ficaria para trás, embora muita coisa ainda seja desconhecida.
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