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EE-11 Urutu: por que o Exército colombiano retirou o blindado e o debate sobre modernização

Dois soldados em uniforme camuflado inspecionam veículos blindados militares verdes estacionados ao ar livre.

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Dando sequência à série de textos sobre os blindados colombianos, o foco de hoje é o EE-11 Urutu, veículo que foi retirado de serviço pelo Exército Nacional da Colômbia. Em 2025, a instituição deu início ao processo de sucateamento ou desmilitarização. A medida foi justificada pela idade dos meios e pela alegada inviabilidade técnica e económica de uma modernização - ainda que os estudos que embasariam essas conclusões não tenham sido divulgados ao público.

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O EE-11 chegou à Colômbia em 56 unidades ao longo dos anos 1980, em conjunto com o blindado de reconhecimento Cascavel. A frota passou a compor o núcleo da força blindada dos grupos de Cavalaria e foi tratada como uma das principais capacidades de dissuasão voltadas à segurança das fronteiras.

Ao longo de mais de quatro décadas, o EE-11 Urutu foi um elemento-chave nas operações de contrainsurgência do Exército colombiano. Em áreas rurais de elevada conflitividade, o veículo viabilizou o transporte protegido de tropas e forneceu cobertura em ambientes hostis. Sua atuação ganhou maior visibilidade no âmbito do Plano Meteoro, quando executou missões de escolta a caravanas civis e a veículos de carga agrícola em rodovias consideradas de alto risco, em coordenação com as companhias motorizadas de Cavalaria. Além disso, o Urutu também foi empregado em regiões de fronteira como instrumento de controlo territorial.

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Operação, manutenção e suporte logístico do EE-11 Urutu

Para manter os Urutu (e também os Cascavel) em funcionamento, o Exército colombiano realizou trabalhos de conservação e reparo em oficinas especializadas, com destaque para o Batalhão de Manutenção em Apoio Direto N.° 3 e para a Unidade de Manutenção de Blindados N.° 11. A aquisição de peças de reposição ocorreu, entre outros canais, por meio da empresa Nimda Corporation, o que ajudou a sustentar a frota ativa apesar da antiguidade do projeto.

O único grande ciclo de manutenção foi executado em 2015, quando se realizou um processo de reparo integral dos sistemas de tração. O serviço ficou a cargo da empresa colombiana Universal de Metais e, com isso, a operatividade das viaturas foi estendida por mais alguns anos.

Características e origem do blindado EE-11 Urutu

O EE-11 Urutu é um veículo blindado de transporte de pessoal (APC) na configuração 6 × 6, desenvolvido pela empresa brasileira ENGESA (Engenheiros Especializados S.A.) no início da década de 1970. A produção em série teve início em 1974, na fábrica de São José dos Campos, Brasil. A designação “Urutu” remete a uma espécie de serpente sul-americana, seguindo o padrão da ENGESA de batizar as suas plataformas com nomes de fauna regional - convenção também aplicada ao EE-9 Cascavel.

Em termos dimensionais, trata-se de um blindado com 11 toneladas em vazio, 6,15 m de comprimento, 2,65 m de largura e 2,12 m de altura. A guarnição é composta por duas pessoas, além de capacidade para 11 passageiros.

A proteção é feita por blindagem de aço soldado entre 6 e 12 mm, capaz de resistir ao fogo de armas ligeiras de 5,56 mm e 7,62 mm, bem como a estilhaços de granadas. Na configuração original, o conjunto motriz incluía um motor Detroit Diesel 6V-53T, de seis cilindros, com potência entre 212 e 260 hp, arrefecido a água, acoplado a uma transmissão automática Allison MT-643 com quatro marchas à frente e uma à ré.

A suspensão utiliza o sistema “Boomerang Drive”, com duplo eixo e barras oscilantes, concebido para melhorar o desempenho em terrenos irregulares. Com esse conjunto, o veículo atinge entre 90 e 105 km/h em estrada e oferece autonomia entre 750 e 850 km, com capacidade de combustível de 380 litros.

Modernizações na região e o debate sobre substituição na Colômbia

Na América Latina, o EE-11 permanece em serviço no Brasil, com mais de 200 unidades operacionais em diferentes missões. Essas viaturas foram modernizadas por meio do Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP) e de empresas como a Technicae. Entre as melhorias, foram instalados motores Mercedes-Benz OM 366A de 230 CV, combinados com transmissões automáticas Allison 3000 SP, o que elevou de forma significativa a mobilidade tática - considerado o exemplo mais destacado de atualização.

Na Venezuela, o Urutu é empregado pelo Batalhão 41 de Veículos Anfíbios da Infantaria de Marinha em duas configurações: uma equipada com canhão de 20 mm e outra com a tradicional metralhadora .50, num total estimado de 20 unidades. Nesses veículos, foram implementadas modernizações como câmaras térmicas, ecrãs multimodais, substituições de motores e caixas de câmbio, além de renovação e modificações no sistema elétrico.

A Bolívia, por sua vez, opera 24 unidades com melhorias no sistema pneumático. O Equador utiliza entre 10 e 12 dos 18 veículos adquiridos e conduz manutenção preventiva, além da restauração total de duas unidades incendiadas em 2019 no Centro de Manutenção Blindado de Manabí. Já o Paraguai mantém 32 EE-11 Urutu, após receber em 2025 uma doação adicional de 20 unidades do Brasil, somadas às 12 já existentes. Esses meios estão a passar por um programa de modernização que inclui blindagem adicional, transmissões recondicionadas, sistemas de visão noturna e suspensão reforçada. O Uruguai, por fim, comprou 18 unidades em 1980 e recebeu mais 11 por doação do Brasil em 2022, preservando o emprego do modelo por meio de manutenção corretiva e recondicionamento.

Diante desse panorama, observa-se que há modernizações avançadas aplicáveis ao Urutu, além de alternativas para manter o veículo em serviço com orçamentos inferiores aos praticados pela Colômbia. Vale ressaltar que, mesmo sob bloqueio de peças e sob restrições de fornecimento, a Venezuela conseguiu executar uma modernização relevante dentro das suas limitações - algo que a Colômbia também poderia ter buscado com apoio direto do Brasil e acesso a diferentes famílias de motores e transmissões.

No que diz respeito ao que seria indispensável para sustentar o uso do blindado, as mudanças realmente obrigatórias seriam a substituição do motor e da transmissão, nos moldes do que ocorreu no Brasil e na Venezuela. A partir daí, permaneceriam as rotinas de manutenção típicas de qualquer veículo, como as associadas aos sistemas elétrico e pneumático, entre outros. Como melhoria relevante, seria possível adotar blindagem do tipo “gaiola”, elevando a proteção, em especial contra RPG e drones. Esse conjunto de medidas poderia ser executado nas próprias oficinas do operador, com suporte de empresas brasileiras e norte-americanas.

Ainda assim, a questão central passa a ser o propósito de investir nessas melhorias. Para o EJC, a necessidade de veículos APC blindados é apresentada como vital e incontornável. Por isso, seria incoerente supor que as diferentes versões do M1117 conseguiriam cumprir essa função. É importante lembrar que apenas os 69 veículos iniciais comprados em 2010 têm capacidade de transporte de tropas, com espaço para sete passageiros, sem contar com a torre - o que permite transportar 483 soldados de infantaria. O segundo lote, com 28 veículos adquiridos em 2013, leva apenas quatro passageiros, totalizando 112 militares transportados. Por fim, os 200 veículos doados pelos Estados Unidos contam apenas com quatro tripulantes, sem capacidade de transporte de tropas.

Assim, em números concretos, todos os M1117 - 297 unidades - conseguem transportar apenas 595 soldados equipados. É um dado que contrasta com o potencial dos 56 Urutu: considerando apenas dez passageiros em cada viatura, seria possível deslocar 560 militares.

Outro argumento considerado enganoso é o de que os Urutu seriam substituídos pelos LAV III, apesar de ainda não ter chegado a primeira unidade de um contrato contestado, assinado em 2022, cujo andamento é desconhecido e permanece encoberto por irregularidades. Do mesmo modo, existem versões colombianas como o Titán e os Hunter, além de opções como o Sandcat e outros MRAP. A pergunta, portanto, é direta: onde estão as compras? Quantos já entraram efetivamente em serviço?

Conclui-se, então, que os Urutu foram retirados sem planeamento, sem substituto real e apesar de existirem caminhos de modernização e atualização, como os adotados noutros países. E, acima de tudo, com completa falta de consciência quanto à vida dos nossos homens. Em 2025, morreram 202 integrantes da Força Pública - soldados, fuzileiros navais e polícias -, assassinados na Colômbia em decorrência de atentados, ataques com explosivos e emboscadas realizadas por grupos armados, segundo o balanço oficial do Ministério da Defesa, aos quais ainda é preciso somar os mortos durante o ano de 2026.

Quem assume a responsabilidade pelas decisões tomadas? A quem se pode cobrar os estudos técnicos? Alguém solicitou propostas de possíveis modernizações ou de manutenção que permitissem manter os Urutu operacionais e a proteger as nossas tropas? Essas, como tantas outras perguntas dentro das Forças Militares da Colômbia, jamais terão resposta.

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