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Logística da FAB expõe gargalos com KC-390 e A330 KC-30 na ajuda à Venezuela

Dois homens com coletes refletores supervisionam carga com bandeira do Brasil sendo carregada em avião da FAB.

OPINIÃO

O emprego simultâneo de várias aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) voltou a evidenciar um problema antigo, diretamente ligado à falta de investimento na Aeronáutica.

Após o terremoto que devastou a Venezuela, o Brasil - assim como dezenas de outros países - enviou ajuda ao território venezuelano, num gesto histórico e indispensável para aliviar o sofrimento da população. No entanto, a operação também escancarou uma deficiência crónica das Forças Armadas brasileiras: a logística.

Voos para a Venezuela e o gargalo dos KC-390 da FAB

Até agora, foram quatro voos do Brasil para a Venezuela utilizando aeronaves Embraer KC-390 e mais um com o Airbus KC-30. Nos KC-390, foram empregadas as aeronaves de matrícula FAB2854 e FAB2860; já no KC-30, a missão foi realizada com o FAB2901.

Hoje, existem apenas quatro jatos KC-390 em operação: os dois já citados, além do FAB2857 e do FAB2858, que entra nesta equação mais adiante. Esse é um dos maiores estrangulamentos do momento, porque a frota de KC-390 da FAB é de oito aeronaves - como reportámos meses atrás, quando o cenário era ainda mais desfavorável.

Um exemplo claro do nível de pressão sobre a disponibilidade é o caso do FAB2860: depois de regressar da Venezuela, ele foi imediatamente usado num deslocamento para a Operação Salitre, no Chile, ao lado do FAB2858, e já voltou ao Brasil. Com isso, apenas na última semana, restou dentro do país só um KC-390 que não estava empregado em missões “reais”.

A330 (KC-30), manutenção pendente e ausência de reserva no Brasil

Nos jatos A330 (KC-30), o quadro é igualmente crítico. O FAB2902 não voa desde agosto do ano passado e está parado no hangar da Azul. De acordo com informações que já tínhamos divulgado anteriormente, a aeronave precisa passar por manutenção, mas não há verba para pagar o serviço.

Na prática, em missões no exterior - incluindo os recentes deslocamentos presidenciais em viagens internacionais - a FAB acaba sem qualquer A330 disponível dentro do Brasil. Isso empurra a logística quase toda para os poucos KC-390, que, como já mencionado, já ficam sobrecarregados pela procura do dia a dia.

Se ocorrer uma nova tragédia como a que atingiu o Rio Grande do Sul dois anos atrás, nesta mesma época do ano, a FAB ficaria praticamente sem condições de transportar ajuda: hospital de campanha, donativos, máquinas e equipas de socorro. E, se um incêndio florestal surgir no Centro-Oeste e um KC-390 for destacado para o combate ao fogo, a Força volta a ficar sem cargueiro disponível.

Conversão para MRTT, aeronave mista e o que outros países já fazem

A situação torna-se ainda mais delicada quando se observa o plano original para os A330, adquiridos com a proposta de conversão para jatos MRTT. A ideia era reforçar o piso para transportar carga juntamente com passageiros (numa configuração mista), ao mesmo tempo em que se executaria o reabastecimento em voo - tudo dentro de uma única missão.

A própria Airbus já declarou que, até hoje, aguarda a FAB iniciar o processo de contratação da conversão para MRTT, o que nunca aconteceu. A fabricante europeia, inclusive, tem comercializado o A400M - de maior porte e concorrente indireto do KC-390 - como uma aeronave de emprego misto: realiza missões militares, como paraquedismo e transporte de blindados, e também consegue levar uma escavadeira completa ou toneladas de equipamento médico.

É evidente que praticamente todos os países fazem isso: optimizam as suas frotas para a “Defesa Civil”. A necessidade ficou mais do que comprovada agora na Venezuela, com vários C-130, C-17, A330, A400M e modelos semelhantes operando em simultâneo por diversas nações, muitas vezes até com meios partilhados entre países.

Dimensão do Brasil, prioridades internas e efeitos em outros programas

Em países grandes como o Brasil, o problema tende a ser mais crítico. Usar um avião para levar ajuda não é apenas uma questão de velocidade ou demonstração de força; é necessidade. Há regiões acessíveis apenas por barco ou por via aérea; em outras, o deslocamento terrestre leva dias por estradas piores do que uma pista de rali.

Tudo isso está ligado à falta de recursos e à escolha de prioridades políticas menos úteis do que a logística interna. Na época da aquisição do A330, por exemplo, surgiram grupos políticos a afirmar que a compra era desnecessária, apesar de a lacuna deixada pelo Boeing KC-137 existir há décadas e prejudicar missões básicas da FAB.

Esse quadro também atinge outros programas, como o do próprio Gripen, que vem sendo priorizado, mesmo com cortes que já se traduziram em gastos extra - dinheiro que pagaria mais aviões de combate. Com menos KC-390 e sem um A330 MRTT operacional, o treino de reabastecimento em voo diminui, o que prejudica a curva de aprendizagem.

Em exercícios como o Salitre, que representam uma oportunidade valiosa de capacitação para todos os participantes, torna-se necessário levar menos pessoal e até menos aeronaves, simplesmente porque não há aviões de suporte suficientes. Está tudo interligado.

Os exemplos práticos de como a logística é decisiva aparecem em casos recentes. A Rússia não dispõe de frota estratégica com disponibilidade operacional adequada e, com frequência, precisa recorrer a métodos arcaicos - incluindo camiões antigos - para perseguir os seus objectivos imperialistas na Ucrânia, que, por sua vez, “agradece” a prevalência da mentalidade soviética de focar excessivamente em meios terrestres no fim do século 20 e início do século 21.

Os próprios EUA são outro exemplo: as guerras que venceram foram sustentadas pelo domínio da sua cadeia logística. No Vietname, parte do desastre foi justamente a retirada logística após o armistício de Paris. Sem pessoal e sem apoio logístico, Hanói não teve dificuldade em dominar o sul depois do rompimento do tratado. No Afeganistão, a saída desastrosa, sem coordenação logística adequada, deixou militares da coligação mortos e também ceifou a vida de dezenas de civis.

Esse cenário só vai mudar quando a doutrina política de investimento na FAB deixar de ser politizada e se transformar num programa estratégico permanente. Trata-se de uma mudança cultural - que, por si só, nunca é rápida nem simples - e que infelizmente passa pela parte mais deteriorada da sociedade brasileira: toda a classe política.

Até lá, a actuação da FAB em desastres continuará limitada pela falta dos próprios meios, como aconteceu no Rio Grande do Sul e como está a acontecer na Venezuela. Infelizmente este não é o primeiro aviso ou alerta, e certamente não será o último.

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