Durante muito tempo, ao se falar em doença ligada ao trabalho, a associação mais imediata era com danos físicos. Por décadas, esses temas dominaram os debates sobre saúde e segurança no ambiente laboral. Só que a dinâmica de trabalho se transformou. A dificuldade de separar vida pessoal e profissional, o acúmulo de demandas, jornadas exaustivas e conflitos fizeram a saúde mental ganhar protagonismo em uma conversa que antes se concentrava sobretudo nos riscos físicos.
“Durante muito tempo, pensávamos principalmente nas consequências físicas. Hoje, precisamos ampliar esse olhar. Assim como determinadas condições podem provocar uma lesão ou uma doença no corpo, determinadas condições de trabalho também podem contribuir para o adoecimento mental”, explica a advogada trabalhista e previdenciária Priscila Arraes, autora do livro “Burnout tem Lei”.
Com a inclusão dos riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), a prevenção passa a abranger também fatores ligados à organização do trabalho e à forma como as atividades são estruturadas.
A especialista reúne 7 práticas capazes de favorecer relações profissionais mais equilibradas. Veja a seguir.
1. Respeitar o tempo de descanso
Pausas, intervalos, férias e períodos de desconexão são partes essenciais de uma rotina de trabalho saudável. Quando fica difícil se desligar das tarefas - inclusive fora do expediente - isso pode ser um sinal de que os limites entre trabalho e vida pessoal precisam de mais atenção.
2. Definir metas e expectativas com clareza
Metas fazem parte do cotidiano profissional, mas a maneira como são definidas e cobradas afeta diretamente a rotina das pessoas. Objetivos vagos, cobranças contínuas ou expectativas que não combinam com os recursos disponíveis tendem a aumentar a sensação de sobrecarga.
3. Construir relações pautadas pelo respeito
Um ambiente saudável não é sinônimo de ausência de cobranças ou de conflitos. A diferença está em conduzir essas situações sem humilhação, ameaça ou medo constante. O modo como erros são tratados, críticas são apresentadas e conquistas são reconhecidas influencia a relação das pessoas com o próprio trabalho.
4. Delimitar limites e manter comunicação aberta
Mensagens contraditórias, mudanças sem orientação e dificuldade para tirar dúvidas podem gerar insegurança e elevar a tensão no cotidiano. Também faz diferença contar com canais adequados para relatar dificuldades, conflitos e situações que estejam prejudicando a rotina profissional.
5. Prestar atenção aos sinais de sobrecarga
Fadiga persistente, irritabilidade, dificuldade de concentração, queda de motivação e mudanças no desempenho podem surgir em contextos de excesso de demandas. Isoladamente, esses sinais não significam necessariamente uma doença relacionada ao trabalho, mas indicam que o cenário pode exigir cuidado antes de se agravar.
6. Tratar os riscos psicossociais com seriedade
Saúde e segurança no trabalho não se limitam aos riscos físicos. Excesso de demandas, baixa autonomia, jornadas inadequadas, conflitos, assédio e pressão exagerada também podem levar ao sofrimento e ao adoecimento.
“Quando falamos em prevenção, não estamos falando apenas de oferecer uma palestra sobre saúde mental ou disponibilizar um aplicativo de terapia. É preciso olhar para aquilo que está acontecendo dentro da própria relação de trabalho”, afirma Priscila Arraes.
7. Valorizar as pessoas sem reduzir tudo à produtividade
Reconhecer resultados e esforços pode fortalecer o vínculo das pessoas com o trabalho. Ainda assim, a produtividade não deveria ser o único critério para avaliar um profissional. Uma relação equilibrada considera entregas e desempenho, mas também as condições oferecidas para que esses resultados sejam alcançados.
Um novo olhar para a saúde no trabalho
A especialista ressalta que a prevenção precisa acompanhar os desafios atuais do ambiente profissional. “Assim como aprendemos que um ambiente de trabalho pode adoecer o corpo, precisamos compreender que determinadas condições também podem adoecer a mente. A prevenção precisa acompanhar essa realidade”, conclui Priscila Arraes.
A mudança na dinâmica profissional, somada ao aumento de afastamentos e de discussões judiciais envolvendo saúde mental, reforça que os riscos psicossociais já integram os desafios da saúde ocupacional - e precisam receber a mesma atenção que, ao longo das décadas, passou a ser dedicada aos riscos físicos.
Por Ana Paula Gonçalves
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