Em meio a um momento raro de reacomodação política na defesa norte-americana, a sueca Saab está tentando aproveitar a brecha: quer que o Canadá opere o Gripen E/F ao lado do F-35, com a promessa de levar parte relevante da produção para território canadense.
A ideia, segundo a empresa, é simples e estratégica: manter a compra do caça americano, mas reduzir a dependência de um único fornecedor - especialmente quando decisões industriais e de soberania podem virar tema de disputa entre aliados.
Saab senses an opening amid US–Canada tensions
A fabricante sueca está vendendo o que chama de conceito de “frota dupla”: o Canadá continuaria comprando F-35, mas acrescentaria Gripens para não ficar excessivamente amarrado a hardware dos EUA e à boa vontade política de Washington.
Em uma teleconferência com investidores, o CEO da Saab, Micael Johansson, disse que autoridades canadenses estão avaliando como não ficar “dependente demais dos EUA” para poder aéreo de combate. Em resposta, a Saab afirma ter enviado um pacote amplo de dados técnicos e industriais para sustentar sua proposta.
A Saab está abastecendo Ottawa com informações detalhadas sobre transferência de tecnologia do Gripen, prazos de produção e potencial de exportação no longo prazo, apostando que autonomia estratégica agora pesa tanto quanto desempenho bruto.
A oferta chega num momento delicado. As relações entre Washington e Ottawa foram tensionadas por ameaças públicas do ex-presidente dos EUA Donald Trump e por um aviso direto do embaixador dos EUA no Canadá, Pete Hoekstra, sobre a compra planejada de F-35 pelo país.
What Saab is putting on the table
A proposta da Saab foi desenhada para agradar tanto aos planejadores de defesa do Canadá quanto à indústria aeroespacial local. Não é só sobre aeronaves, e sim sobre onde e de que forma elas seriam produzidas.
Local production and technology transfer
Johansson disse a investidores que a Saab forneceu ao Canadá detalhes sobre quão rápido conseguiria montar uma linha de produção do Gripen no país e quanto de tecnologia estaria disposta a transferir.
- Criação de uma instalação canadense de montagem final e produção
- Transferência de know-how essencial de fabricação e manutenção
- Uso da linha no Canadá para fabricar Gripens para outros clientes de exportação
A Saab também descreve como o Canadá poderia participar de vendas globais futuras caso Ottawa se comprometa com a aeronave.
A Saab está apresentando a oferta do Gripen não apenas como uma compra, mas como um passe de entrada no mercado global de exportação de caças.
A empresa já opera duas linhas de produção do Gripen - uma na Suécia e outra no Brasil. Uma instalação no Canadá seria a terceira, e a Saab sugere que ela poderia virar um polo para determinados pedidos internacionais.
A growing export portfolio
O Gripen E/F vem, aos poucos, consolidando uma base de clientes - algo que a Saab espera que tranquilize tomadores de decisão no Canadá, mostrando que o país não estaria sozinho no programa.
| Country | Gripen deal | Approximate value |
|---|---|---|
| Brazil | Ongoing production and deliveries of Gripen E/F | Multi-billion dollar programme |
| Colombia | 17 aircraft ordered (2025 agreement) | €3.1 billion (around $3.7 billion) |
| Thailand | Four additional aircraft | 5.3 billion Swedish kronor |
| Ukraine | Letter of intent for 100–150 aircraft | Potentially one of Saab’s largest deals |
Além disso, a Saab está ampliando capacidade. Um executivo da empresa disse recentemente que a meta é chegar a uma produção de 36 Gripens por ano - objetivo que ficaria mais viável com uma linha extra na América do Norte.
Canada rethinks its F-35-only plan
O Canadá já assumiu compromisso com o programa do F-35 liderado pelos EUA e planeja adquirir 88 aeronaves para substituir sua frota envelhecida de CF-18. O orçamento anunciado em 2023 é de 27,7 bilhões de dólares canadenses (cerca de US$ 20,3 bilhões), embora o valor esteja em revisão.
Apesar do ruído político, Ottawa segue no caminho para comprar um lote inicial de 16 F-35. Oito deles devem ser entregues à Base Aérea de Luke, no Arizona, entre 2026 e 2027, para treinamento de pilotos.
Nos bastidores, porém, o governo está reavaliando até que ponto seu poder aéreo futuro deve ficar vinculado a uma única plataforma fornecida por um único aliado. Um relatório do Auditor General registrou que o plano do F-35 está sendo revisado “para garantir” que a aeronave continue sendo a “melhor escolha” para as necessidades do Canadá.
Essa mudança de tom claramente deu fôlego à Saab. Um alto funcionário canadense já havia descrito a proposta sueca como “muito interessante”, sinalizando que a opção de frota mista agora está em jogo de um jeito que não estava alguns anos atrás.
US pressure and industrial leverage
Analistas afirmam que Washington ainda tem alavancagem relevante caso o Canadá reduza seu pedido de F-35. Bryon Callan, da Capital Alpha Partners, disse a investidores que qualquer movimento para “encurtar” o plano de 88 jatos pode trazer consequências para empresas canadenses.
Mais de 30 empresas aeroespaciais canadenses estão ligadas a trabalhos de produção do F-35 - uma alavanca econômica poderosa para os EUA se Ottawa se afastar do programa.
A maioria dessas companhias fornece componentes e serviços ao longo de toda a cadeia de suprimentos do F-35, o que garante contratos de longo prazo e alto valor. Um pedido canadense menor pode enfraquecer o argumento para manter essa participação.
Callan também apontou outra vulnerabilidade na oferta da Saab: o Gripen E usa o motor GE Aerospace F414G, fabricado nos Estados Unidos. Num cenário extremo, controles de exportação dos EUA sobre esse motor poderiam virar um ponto de pressão, mesmo que o Canadá adicionasse Gripens.
Ainda assim, Callan classificou como “prudente” o desejo de Ottawa de diversificar fornecedores de defesa, diante das ameaças públicas de Trump questionando compromissos de defesa do Canadá e decisões ligadas à sua soberania.
High-stakes timing and political calculations
Johansson evitou prever quando poderia sair uma decisão canadense sobre o Gripen, destacando que “decisões políticas de alto nível” vão, no fim, conduzir o desfecho. Segundo ele, a Saab está em “discussões intensas” com o lado canadense, mas sem um calendário fechado.
Qualquer avanço rumo a uma frota dupla teria de equilibrar diversas pressões:
- Obrigações do Canadá com a OTAN e o NORAD
- Vínculos contratuais e industriais já existentes com o programa do F-35
- Benefícios industriais domésticos de uma possível linha do Gripen
- Relação com Washington e a política de defesa mais ampla dos EUA
Para Ottawa, a questão não é apenas técnica. Enquanto o F-35 oferece furtividade e integração profunda com as forças americanas, uma segunda frota de caças poderia dar ao Canadá mais controle sobre atualizações, manutenção e regras de exportação associadas às suas aeronaves.
GlobalEye, NATO and Saab’s broader Canadian ambitions
As conversas da Saab com o Canadá não se limitam a caças. Johansson disse que acompanha de perto a definição de um novo requisito para aeronaves de vigilância, que tende a incluir uma oferta do GlobalEye, a plataforma de alerta aéreo antecipado e controle (AEW&C) da Saab.
O GlobalEye combina a célula de um jato executivo Bombardier Global com radar e sensores avançados, muitos deles ajustáveis às exigências nacionais. O Canadá, com sua enorme necessidade de vigilância marítima e do Ártico, é visto como um candidato natural.
Ao mesmo tempo, a Saab aguarda uma decisão da OTAN sobre um possível contrato do GlobalEye, enquanto a aliança busca um sucessor para sua frota envelhecida de E-3 Sentry. A OTAN já havia considerado o E-7A Wedgetail, da Boeing, mas esse caminho foi deixado de lado, dando ao GlobalEye uma nova chance.
What a dual fleet would mean in practice
Operar F-35 e Gripen ao mesmo tempo aumentaria a complexidade para a Royal Canadian Air Force, mas também ampliaria a flexibilidade. Dois tipos diferentes de caça significam dois conjuntos de treinamento, cadeias logísticas e simuladores. Por outro lado, também significam mais opções numa crise.
Na prática, o Canadá poderia direcionar os F-35 para missões em que furtividade e penetração profunda em espaço aéreo defendido sejam cruciais - como nos primeiros dias de uma campanha aérea da OTAN. Já os Gripens poderiam cumprir alerta de reação rápida em casa, patrulhas no Ártico e muitas missões de coalizão em que a furtividade é menos determinante.
Uma frota dupla também poderia proteger o Canadá de riscos de paralisação. Se um problema técnico obrigasse uma das frotas a suspender operações, a outra continuaria voando. Para um país responsável por vigiar vastas áreas do norte, essa redundância tem valor operacional real.
Key terms and risks worth understanding
Dois conceitos estão no centro desse debate: transferência de tecnologia e participação industrial. Transferência de tecnologia é o quanto de conhecimento de projeto e fabricação um fornecedor aceita compartilhar, permitindo que empresas locais construam, reparem e modernizem sistemas por conta própria. Participação industrial é o pacote mais amplo de empregos, instalações e trabalho de exportação ligado ao contrato.
A Saab tradicionalmente se vende como generosa nas duas frentes, enquanto os EUA tendem a ser mais restritivos - especialmente em tecnologias sensíveis de furtividade. Essa diferença é parte do que torna a proposta do Gripen atraente para a indústria canadense, mas ela também traz riscos. Dependência profunda de tecnologia externa, mesmo com acordos de transferência, pode continuar exposta a mudanças políticas, controles de exportação ou sanções nos países fornecedores.
Para o Canadá, a escolha tem menos a ver com apontar um “vencedor” e mais com equilibrar soberania, política de alianças e custo-benefício ao longo de décadas. A oferta do Gripen acrescenta uma nova variável a essa equação, aumentando o poder de barganha de Ottawa - mas também elevando os riscos com seu aliado mais próximo.
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