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Metaverso, Chris Ashton e os Ruffian: Mustang Fastback 1970 e GT40 MkI

Dois carros esportivos, um Ford GT preto em primeiro plano e um Mustang verde ao fundo, em estrada rural ao pôr do sol.

Metaverso e vida fora da tela

Metaverso. A palavra anda perigosamente na ponta da língua de qualquer pessoa do setor de tecnologia. E, ao que dizem, é para lá que tudo vai: um futuro em que vamos morar na internet e tocar a rotina - as tarefas de todos os dias - em realidade aumentada, e não na realidade de verdade.

Parece o tipo de enredo que daria um episódio assustador de Black Mirror, daqueles que a gente acha que nunca vão sair do roteiro. Só que, goste ou não, isso já começou.

No ano passado, por exemplo, houve gente nas Filipinas largando o emprego “no mundo real” para trabalhar dentro do Axie Infinity (um jogo online baseado em blockchain no qual os jogadores ganham tokens e podem sacar em moeda local). A conta era simples: dava para faturar mais negociando pets digitais - ou virando ferreiro de dragões e barbeiro de unicórnios - do que em um trabalho tradicional no universo “de verdade”.

Só que mente, corpo e alma têm fome de matéria e de criação: a necessidade de fazer algo palpável, de provocar o lado esquerdo do cérebro enquanto usamos as ferramentas articuladas presas ao corpo. Pouca gente entende isso tão bem quanto Chris Ashton, cofundador e diretor de design da Turtle Rock Studios.

Imagens: Mark Riccioni

Ruffian Mustang Fastback 1970: fabricar para relaxar

Em uma garagem pouco iluminada, escondida em algum canto de Orange County, Califórnia, Chris recorta uma silhueta magra no penumbra. Tem o porte e a pele pálida de um gamer com leve déficit de vitamina D - o que faz sentido: ele passou a vida no mundo digital, ajudando a criar jogos de tiro em primeira pessoa que viraram referência, como Counter-Strike, Left 4 Dead e Back 4 Blood. Só que, nesta noite, ele não está diante de um computador. Está no extremo oposto: com uma ferramenta deliciosamente analógica e simples, a roda inglesa.

“É aqui que eu venho para relaxar”, diz Chris enquanto passa uma chapa grossa de metal de um lado para o outro, formando uma curva satisfatória. “Como seres humanos, a gente precisa usar as mãos. A gente tem uma vontade intrínseca de criar coisas. Só que, com automação e digitalização, a gente acaba fazendo menos - então isso me dá uma satisfação enorme.”

Do lado de fora, estacionado, está o resultado de incontáveis horas entre roda inglesa e martelo de planishing: um Mustang Fastback 1970 num verde mangetout irresistível, desenhado, construído e moldado à mão pelo próprio Chris com pouco além de paciência, curiosidade e um punhado de vídeos no YouTube.

“Eu dei muita sorte de ganhar dinheiro tocando uma empresa de software. Também tive muitos carros (um Lamborghini Gallardo Performante, McLaren 720S, BAC Mono, AMG GT R, C6 Corvette ZR1 e um 1969 Superbee, para citar alguns), mas chegou uma hora em que eu não queria mais comprar carros - eu queria construir carros. Nem para vender. Só algo que eu pudesse curtir e chamar de meu.”

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Foi aí que o Mustang entrou na história. Obcecado por Mustangs dos anos 1970 e pelo Trans-Am “raiz”, de peito estufado e bigode imaginário, Chris decidiu montar para si um carro de corrida antigo para usar na rua - com uma condição inegociável: precisava funcionar de verdade. O resultado foi uma linguagem que ele batizou de ‘Ruffian’.

“Eu não tinha absolutamente nenhuma experiência automotiva”, diz Chris, rindo com aquele humor típico de síndrome do impostor. “Tudo bem, eu cresci mexendo nas minhas coisas - eu era aquele adolescente ‘graxeiro’ padrão, comprando carro ruim e tentando descobrir como manter tudo andando quando, inevitavelmente, quebrava. Mas, conforme fui ficando mais velho, fui arrumando empregos melhores - e isso significava carros melhores. Carros que eu queria deixar mais rápidos. Aí, quando o negócio foi dando mais certo, eu tive mais dinheiro para comprar ferramentas e comecei a fabricar peças.”

Há mais de 25 anos ele pratica autocross (corrida competitiva e relativamente acessível, de base, contornando cones em estacionamentos), então queria que o Mustang fosse capaz de brigar no cronômetro. E, de um jeito pouco comum, foi o pneu que mandou na construção. O autocross não é um esporte de altíssima velocidade; o foco está na aderência lateral. A solução que Chris escolheu foi direta: borracha gigante - 315 mm na frente e 345 mm atrás, com pneus de pista Toyo R888R super aderentes. Para eles caberem, ele precisou moldar à mão alargadores de para-lama em aço de 3 polegadas (cerca de 7,6 cm). De quebra, essa postura deixa o Mustang com a presença absurda de um Trans-Am antigo.

Chris foi além. Estudando a história, ele viu como as equipes de Trans-Am costumavam esticar as regras ao máximo em favor do desempenho - e, às vezes, simplesmente passavam por cima delas. Havia Mustangs de corrida com pedaços cortados dos conjuntos dianteiros para baixar a frente em 1 polegada (aprox. 2,5 cm), melhorando a dinâmica e deixando o visual mais agressivo, com o nariz apontado para baixo em vez de alinhado ao horizonte. Chris repetiu o truque. E isso acabou influenciando o motor que caberia ali (fãs ortodoxos da Blue Oval, desviem o olhar): um LS427 carburado - o monstro 7,0 litros de bloco de alumínio da GM - agora entregando 625 bhp e cerca de 560 ft lb de torque.

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Função antes da forma - e detalhes de época

Basta dar uma volta ao redor e você vai sendo puxado por um monte de detalhes cativantes, em que a forma segue a função. Há, por exemplo, a adaptação das entradas laterais dos para-lamas traseiros de ’69 e a criação de aletas (louvres) nos para-lamas dianteiros para ajudar na refrigeração. Existem também dutos frontais funcionais flanqueando os faróis, e uma barra articulada na gaiola completa para facilitar entrar e sair. Ao mesmo tempo, ele equilibra isso com elementos de época que dão credibilidade ao conjunto.

Não surpreende que o Ruffian Mustang tenha virado assunto nas redes sociais. Jogadores da NBA, rappers e sheikhs com bolsos sem fundo apareceram nas DMs de Chris querendo comprar o carro. Só que, depois de colocar três anos inteiros de vida no projeto, ele não queria se desfazer dele. Na verdade, ele queria mais. Então comprou um Superformance GT40 MkI e começou a preparar outro Ruffian.

Superformance GT40 MkI: o Ruffian entre o analógico e o digital

Dá para ver de longe: é insano - um widebody exagerado, quase cyberpunk, uma “pantufa” de corrida que parece pronta tanto para o set de Mad Max quanto para o metaverso. Só que, como o Mustang, este também foi pensado para funcionar. E, ao contrário do metaverso, ele é real.

Se o Mustang nasceu de técnicas totalmente analógicas e conhecimento à moda antiga, o GT40 é um animal diferente. A base é metodologia moderna e componentes contemporâneos. Por ser de fibra de vidro, não houve aquelas horas penitenciais na roda inglesa criando painéis; em vez disso, muito tempo madrugada adentro foi gasto produzindo moldes de carbono com a ajuda de artistas conceituais encontrados no Instagram. A lógica é que o Photoshop - com todos os seus defeitos - vira uma ferramenta potente quando cai nas mãos certas: permite misturar o mundo polarizado de um carro de corrida dos anos 1960 com tendências e visões novas, criando algo realmente único sem desrespeitar o original.

Por toda parte aparece o traço do trabalho manual, a disciplina e a obsessão quase doentia do Chris. Acoplados ao motor Ford Racing 52XS V8 (entregando 580 bhp e 445 lb ft) estão os coletores e um escapamento artesanal “polvo”, de comprimento igual. É uma trança majestosa de metal, tipo Medusa, que não só é linda de olhar como também amplifica com perfeição aquele ronco clássico da América.

Os faróis também são fruto da loucura calculada de Chris. Insatisfeito com qualquer conjunto que encontrava, ele comprou - pagando caro - um scanner 3D portátil para medir o alojamento do farol. Depois, levou os dados para o computador, desenhou e imprimiu em 3D um farol de assinatura própria usando uma lâmpada de Harley Davidson. No fim, ele gastou mais horas só nessa peça do que em toda a carroceria do Mustang somada. O que diz muita coisa.

O que amarra esses dois carros é uma estética caseira e absurdamente legal, derivada das pistas, mas adaptada para a rua. O toque do autocross e a borracha gigantesca carimbam de vez o visual ‘Ruffian’. E o próximo passo? Mais oito Ruffians de rua, prontos para correr - todos diferentes e não à venda. O primeiro da fila é um Ford Galaxie ’64, planejado para pistas grandes graças a aerodinâmica escondida e - sim - pneus insanos de 335 em todas as rodas. Então, antes de todo mundo se plugar de vez no metaverso, vale parar um minuto para celebrar o aqui e agora.

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