Pular para o conteúdo

Novo estudo mostra que leões-marinhos-australianos aprendem a caçar com as mães

Focas subaquáticas interagindo, uma passando um peixe para a outra no fundo do mar com mergulhador ao fundo.

Leões-marinhos-australianos passam boa parte da vida vasculhando o fundo do mar em busca de presas escondidas. Caçar no oceano está longe de ser simples - sobretudo para filhotes, que precisam aprender onde procurar e como mergulhar.

Durante muito tempo, cientistas pensaram que esses filhotes desenvolviam a maior parte dessas habilidades explorando por conta própria. Pesquisas recentes, porém, indicam que as mães podem ajudar ativamente os filhotes a aprender a encontrar alimento.

Uma equipe da University of Adelaide e do South Australian Research and Development Institute (SARDI) encontrou a primeira evidência clara de que filhotes de leão-marinho-australiano conseguem aprender comportamentos de forrageamento observando as mães.

O resultado melhora a compreensão científica sobre como jovens leões-marinhos adquirem as competências necessárias para sobreviver na natureza.

Filhotes observam adultos durante a caça

Animais jovens com frequência aprendem habilidades importantes ao observar adultos experientes. Os cientistas chamam esse processo de transmissão social de informação. Em termos diretos, o conhecimento passa de uma geração para a seguinte por meio de observação e prática.

Na natureza, há exemplos conhecidos desse tipo de aprendizado. Filhotes de chimpanzé veem as mães usarem gravetos para retirar cupins dos ninhos. Golfinhos-nariz-de-garrafa transmitem técnicas de caça junto ao fundo do mar. Lontras-marinhas também mostram aos filhotes como manipular e abrir presas.

Leões-marinhos exibem comportamento de aprendizagem

Até pouco tempo, esse tipo de aprendizado ainda não havia sido confirmado em otarídeos - o grupo de mamíferos marinhos que inclui leões-marinhos e lobos-marinhos. Essa lacuna de conhecimento tornava os leões-marinhos-australianos particularmente interessantes para estudo.

"A transmissão social de informação ajuda os jovens a desenvolver comportamentos de forrageamento especializados e complexos", disse Nathan Angelakis, da University of Adelaide.

"Embora essa transmissão social seja bem reconhecida em alguns mamíferos marinhos, nossa pesquisa forneceu a primeira evidência direta de transmissão social, de mãe para filhote, do comportamento de forrageamento em leões-marinhos-australianos."

Acompanhando uma mãe de leão-marinho no mar

Para entender como uma fêmea se comporta durante saídas de caça, os pesquisadores usaram câmeras e dispositivos de rastreamento fixados em uma fêmea adulta.

Ela vivia nas proximidades do Seal Bay Conservation Park, na Ilha Kangaroo, no estado da Austrália do Sul, e tinha um filhote de 11 meses.

Os equipamentos registraram deslocamentos, mergulhos e vídeos subaquáticos durante as viagens no mar. Uma das saídas durou cerca de oito horas e contou com o filhote nadando ao lado da mãe. Depois disso, a mesma fêmea realizou outra viagem de caça sozinha, que durou quase três dias.

Filhote acompanha os mergulhos de caça da mãe

Com as gravações, os cientistas puderam comparar as duas situações. Quando o filhote participou da saída, ele permaneceu perto da mãe na maior parte dos mergulhos.

As imagens mostraram o filhote aparecendo em 35 de 47 mergulhos, o que indica que a dupla se manteve próxima enquanto avançava pelo fundo do mar. Esse deslocamento lado a lado dá aos filhotes uma chance valiosa de observar como um adulto experiente procura presas.

O estudo também apontou que a mãe alterou seu modo de caçar quando o filhote estava junto. Os mergulhos ficaram mais curtos e ocorreram em áreas mais rasas, e a dupla passou boa parte do tempo explorando recifes e habitats subaquáticos cobertos por macroalgas.

Durante a viagem compartilhada, a fêmea tentou capturar presas apenas três vezes. Uma das tentativas deu certo: ela pegou uma lula-gigante e a levou até a superfície.

Nesse momento, o filhote permaneceu ao lado da mãe e chegou a tentar comer parte da lula. A interação sugere que a mãe pode ter demonstrado como localizar, capturar e manipular a presa.

Mães caçam de outro jeito quando estão sozinhas

Quando a mãe saiu sozinha, surgiu um padrão bem diferente. A viagem solo incluiu mergulhos mais profundos e um número muito maior de tentativas de caça.

Os cientistas contabilizaram 172 tentativas de capturar presas durante essa saída.

A diferença indica que a mãe pode reduzir o ritmo e selecionar áreas de alimentação mais seguras quando o filhote acompanha o trajeto.

Um ciclo de vida diferente do de outras focas

Leões-marinhos-australianos já chamam atenção entre os mamíferos marinhos por terem um ciclo reprodutivo incomum. A maioria das focas se reproduz uma vez por ano e segue padrões sazonais previsíveis.

Já os leões-marinhos-australianos adotam um ciclo reprodutivo de 18 meses, que não coincide com as estações e ocorre em períodos diferentes dependendo da colônia.

"Esse ciclo reprodutivo supra-anual, que é seis meses mais longo do que o de outros otarídeos, contrasta com os ciclos reprodutivos altamente sazonais, anuais e sincronizados seguidos por outras focas", disse Angelakis.

"Acreditamos que o período prolongado de cuidado materno dos leões-marinhos-australianos pode oferecer às mães a oportunidade de demonstrar comportamentos de forrageamento aos filhotes."

Como as mães cuidam dos filhotes por mais tempo do que a maioria das focas, os jovens leões-marinhos podem ter uma janela maior para observar e praticar o comportamento de caça.

Crescendo até se tornarem caçadores independentes

Filhotes de leão-marinho-australiano começam cedo a explorar habitats oceânicos. Estudos sugerem que eles podem iniciar pequenas saídas de forrageamento quando têm cerca de quatro a seis meses de idade.

A independência completa leva bem mais tempo. Aos poucos, os jovens desenvolvem melhor capacidade de mergulho e de captura de presas e talvez não se tornem nutricionalmente independentes até os 12 a 15 meses de idade.

Mesmo juvenis mais velhos frequentemente não têm a habilidade de mergulho e a experiência das fêmeas adultas. Esse período longo de aprendizado indica que o tempo passado com a mãe pode ser decisivo para construir essas competências.

Por que essa descoberta é importante

Compreender como os filhotes aprendem a caçar pode ajudar cientistas a proteger essa espécie ameaçada.

A sobrevivência pode depender não apenas de encontrar alimento suficiente, mas também de garantir que os jovens tenham tempo para aprender com adultos experientes.

"A presença de um componente social no forrageamento em leões-marinhos-australianos pode ter implicações importantes para a conservação, como se as viagens de forrageamento entre mãe e filhote aumentam ou reduzem o risco de predação por tubarões-brancos, bem como o risco de interações com pescarias", afirmou Nathan.

Compreendendo as trocas envolvidas no ensino

Os pesquisadores também querem estimar quanto esforço as mães dedicam a essas viagens que funcionam como aprendizado. Eles observaram que investigar as trocas envolvidas em saídas conjuntas de forrageamento com filhotes pode trazer insights importantes sobre o desenvolvimento dos filhotes.

Essas viagens podem ajudar os filhotes a aprimorar habilidades de forrageamento e mergulho, mas também podem impor demandas energéticas adicionais às mães.

Entender esse equilíbrio - entre benefícios para os filhotes e custos para as mães - pode esclarecer a sobrevivência dos filhotes, a dinâmica mais ampla das populações e a conservação e o manejo da espécie.

A pesquisa indica que o vínculo entre mãe e filhote pode influenciar diretamente como os jovens aprendem a sobreviver no oceano.

Os cientistas esperam que a compreensão desses comportamentos contribua para proteger os leões-marinhos-australianos e os ecossistemas marinhos onde a espécie vive.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário