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Teste com raiz de cabelo revela o relógio biológico, segundo a Charité – University Medicine Berlin

Cientista feminina analisando amostra de cabelo em laboratório com gráficos no laptop ao fundo.

Pesquisadores descobriram que uma única amostra de cabelo é capaz de indicar em que ponto do dia está o relógio interno de uma pessoa. A constatação aproxima a medicina da ideia de ajustar cuidados ao tempo do corpo, e não ao horário do relógio na parede.

Em poucas raízes de cabelo arrancadas, a marcação diária do organismo deixou um sinal suficientemente nítido para ser interpretado.

Na Charité – University Medicine Berlin, o professor Achim Kramer e sua equipa demonstraram que esse sinal pode ser convertido num teste prático de “tempo biológico”.

Com isso, foi possível reduzir a distância entre uma coleta simples e o padrão-ouro laboratorial usado há muito tempo.

Ao mesmo tempo, esse avanço evidenciou um entrave para a área: o teste de referência era trabalhoso demais para se tornar rotina.

Por que o método padrão ficava para trás

Durante anos, a forma mais confiável de marcar o tempo do relógio humano dependia do aumento da melatonina sob condições rigorosas de luz fraca.

"O método padrão até hoje mede o ‘hormônio da escuridão’, a melatonina, na saliva sob luz fraca ao longo de várias horas", afirmou o professor Kramer, chefe da Divisão de Cronobiologia da Charité.

Na prática, os pacientes precisavam seguir regras estritas de iluminação e fornecer várias amostras de saliva, o que tornava difíceis os estudos com grandes grupos.

Esse gargalo de laboratório era relevante porque qualquer plano de tratamento baseado no tempo biológico exige um exame que as pessoas consigam repetir fora de centros altamente especializados.

Atividade de genes em células da raiz do cabelo

Em vez de passar uma noite inteira num laboratório, o novo teste mediu a atividade de 17 genes em células da raiz do cabelo.

A partir desse padrão de expressão, a equipa treinou um modelo computacional para estimar em que posição cada pessoa estava dentro do ciclo de 24 horas.

"Usando aprendizado de máquina, esse padrão pode ser usado para calcular em que ponto do ritmo diário a pessoa se encontra no momento", disse Kramer.

Como o sinal vinha de uma única amostra colhida durante o dia, o método pareceu muito mais viável para aplicações de rotina.

Vantagens de uma amostra grande de estudo

Depois de validar a abordagem, mais de 4.000 participantes enviaram amostras de cabelo de casa pelo correio para análise.

Esse número incomumente alto permitiu comparar a biologia em condições da vida real, em vez de se limitar a um pequeno grupo acompanhado no laboratório.

Os pesquisadores chamam esse timing individual de cronotipo: a janela preferida do corpo para dormir e acordar, e a amostragem captou a variação desse traço na população.

O tamanho do grupo também ajudou a observar como idade, sexo e horários de trabalho puxavam o relógio interno em direções diferentes.

A idade influencia o relógio do corpo

Entre adultos na faixa dos 25 anos, a “noite interna” começava cerca de uma hora mais tarde do que em pessoas com mais de 50 anos.

Esse comportamento acompanha achados anteriores sobre sono: os relógios biológicos tendem a atrasar na juventude e, com o passar do tempo, avançam gradualmente.

Como exigências de trabalho e de família frequentemente caminham no sentido oposto, adultos mais jovens podem sentir com mais intensidade o desalinhamento entre corpo e horários.

Por isso, rótulos simples como “coruja” nem sempre captavam o facto de que a idade segue alterando o timing de uma mesma pessoa.

Ritmos biológicos entre géneros

No estudo, mulheres atingiram a noite biológica um pouco antes do que homens, mas a diferença foi de apenas 6 minutos.

Pesquisas anteriores baseadas em questionários sugeriam uma separação bem maior, e a leitura pelo cabelo reduziu esse argumento comum.

"Ainda assim, assumimos que o género influencia o relógio interno, já que outros estudos também mostraram que hormonas sexuais interferem nos ritmos biológicos", afirmou Kramer.

Entre pessoas empregadas, o relógio também ficou cerca de meia hora mais adiantado do que entre quem não trabalhava, um indício de que rotinas e agendas conseguem deslocar a biologia.

Implicações para tratamentos contra o cancro

O horário já altera o desempenho de algumas imunoterapias contra o cancro, porque a atividade imunológica não se mantém constante ao longo do dia.

Assim, o mesmo medicamento pode “encontrar” um corpo diferente ao meio-dia e ao entardecer, mesmo que a dose não mude.

"Por exemplo, estudos mostram que o horário do dia em que certas imunoterapias contra o cancro são administradas pode ter um impacto substancial na sua eficácia", disse Kramer.

Um teste prático de tempo biológico pode facilitar a investigação desse tipo de agendamento, em vez de deixar o tema apenas como uma hipótese promissora.

Dos laboratórios para as clínicas do sono

A aplicação inicial pode ocorrer em clínicas do sono, sobretudo quando o paciente relata fadiga que nunca “bate” com o relógio.

Médicos chamam essa abordagem baseada no tempo interno de medicina circadiana: cuidados ajustados aos ritmos biológicos individuais, em vez do horário social.

"A análise de cabelo é, no entanto, muito mais fácil de executar, e é isso que torna o método tão valioso", afirmou Kramer.

Se laboratórios de rotina conseguirem padronizar o processo, o teste poderá apoiar orientação sobre sono, diagnóstico e estudos de ajuste de horário de medicamentos.

O que ainda é incerto

Uma questão em aberto é o quanto o tempo interno de uma pessoa varia de uma semana para a outra na vida quotidiana.

Os próprios pesquisadores destacam que essas oscilações do dia a dia ainda são difíceis de mapear, o que importa tanto para testes repetidos quanto para o planeamento de tratamentos.

Agora, a equipa trabalha para padronizar o ensaio para laboratórios de rotina, em vez de mantê-lo como ferramenta de nicho.

Até que isso aconteça, o método deve ficar restrito a testes clínicos controlados, e não ao uso casual por consumidores.

No fim, as raízes do cabelo mostraram-se um registo prático do tempo biológico, revelando como idade, sexo e agendas diárias o remodelam.

Se ensaios clínicos maiores confirmarem a utilidade, médicos poderão finalmente medir o tempo do corpo com a mesma facilidade com que perguntam por sintomas.

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