O treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT) tem fama de acelerar ganhos de condicionamento - e um estudo recente ajuda a esclarecer o motivo.
Após 8 semanas de HIIT, os músculos não apenas passaram a ter mais mitocôndrias: por dentro, essas estruturas também se modificaram de um jeito que provavelmente as torna mais eficientes na produção de energia.
Usinas de energia mais eficientes
Pesquisadores da Universidade do Sul da Dinamarca analisaram em detalhe biópsias musculares coletadas antes e depois do programa de treino.
Eles observaram um aumento na quantidade de mitocôndrias e, além disso, uma ampliação da membrana interna funcional das mitocôndrias, chamada de cristas - justamente a área onde ocorre a produção de energia.
“Analisámos amostras musculares dos participantes do nosso estudo”, disse Martin Eisemann de Almeida, pesquisador de pós-doutorado na Universidade do Sul da Dinamarca.
“Conseguimos medir que o número de mitocôndrias tinha aumentado após 8 semanas de treino e, de forma importante, as nossas medições mostraram que a membrana ativa dentro das mitocôndrias também tinha expandido. Portanto, o treino não só cria mais usinas de energia, como também usinas mais eficientes.”
Por que as cristas importam tanto
É comum chamar as mitocôndrias de “usinas de energia” da célula. A imagem é útil, mas deixa de lado um detalhe essencial: mitocôndrias não são apenas pequenas estruturas que “fazem energia”.
A membrana interna é dobrada em sulcos muito compactos - as cristas - e é nessas dobras que fica a maquinaria responsável por produzir ATP.
Em geral, maior área de superfície das cristas significa mais “espaço de trabalho” para gerar energia. Assim, se o treino aumenta a quantidade de cristas, isso sugere que a mitocôndria pode produzir mais energia sem depender apenas de aumentar o número total de mitocôndrias.
Neste estudo, a densidade de cristas aumentou depois do período de HIIT. Isso aponta para mitocôndrias mais eficientes - e não somente mais numerosas.
Capacidade de melhorar os sistemas de energia
O efeito não apareceu apenas em participantes saudáveis. Os pesquisadores encontraram alterações mitocondriais semelhantes em homens com excesso de peso e também em homens com diabetes tipo 2.
Isso é relevante porque confronta uma ideia comum de que o diabetes poderia reduzir a capacidade do músculo de se adaptar ao exercício. De acordo com este estudo, pelo menos neste grupo, a capacidade de “responder” ao treino permaneceu presente.
Os resultados, portanto, enfraquecem a noção de que pessoas com diabetes tipo 2 estariam limitadas a uma capacidade menor de aprimorar os sistemas energéticos do músculo. A mensagem fica mais próxima de: a maquinaria ainda consegue adaptar-se.
O que tornou este estudo diferente
Diversos trabalhos já mostraram que o treino de resistência ou o HIIT pode aumentar o conteúdo mitocondrial. O que costuma ser mais difícil de evidenciar é a alteração fina da estrutura interna - as cristas - especialmente quando o efeito é modesto.
Segundo a equipa, a diferença aqui esteve na precisão e no volume de trabalho.
“Passámos um ano a analisar manualmente cerca de 11.000 mitocôndrias individuais. Isso tornou possível detetar uma mudança de cerca de 7% na membrana ativa - uma diferença que estudos anteriores com treino não conseguiram demonstrar”, disse Eisemann de Almeida.
Esse nível de análise minuciosa explica por que foi possível identificar melhorias estruturais que podem ter passado despercebidas em estudos anteriores, menos detalhados.
O estudo reuniu 44 homens, divididos em três grupos: 15 homens com diabetes tipo 2, 15 homens com excesso de peso mas sem diabetes (pareados) e 18 homens com peso normal. Todos fizeram um programa de treinamento intervalado de alta intensidade por 8 semanas.
Os pesquisadores coletaram biópsias musculares - pequenas amostras de tecido muscular - antes e depois do período de treino. A partir dessas amostras, avaliaram tanto o número de mitocôndrias quanto a estrutura das cristas.
O que os resultados podem significar na prática
A implicação central do estudo é direta: o treino pode melhorar a produção de energia no músculo não apenas por aumentar a quantidade de mitocôndrias, mas também por elevar a “qualidade” mitocondrial - isto é, quanto de membrana ativa existe disponível para produzir ATP.
Com o tempo, isso pode ajudar a explicar ganhos em resistência e função física. E pode ter impacto na saúde metabólica, sobretudo porque a mesma adaptação foi observada em pessoas com diabetes tipo 2.
“Qual é a descoberta mais importante? Além de aumentar o número de mitocôndrias, o treino também aumenta a quantidade de membrana ativa - as cristas - dentro delas, o que provavelmente melhora a capacidade de fornecer energia”, disse Eisemann de Almeida.
Limitações do estudo
Os autores são cautelosos quanto ao alcance das conclusões. O estudo teve um tamanho relativamente pequeno e incluiu apenas homens. Além disso, não responde se as mudanças nas cristas se mantêm no longo prazo.
“Este é um estudo pequeno que inclui apenas homens, portanto, para tirarmos conclusões mais firmes sobre o efeito, é preciso repeti-lo em grupos maiores e mais diversos”, disse Eisemann de Almeida.
Ele também observou que manter o treino provavelmente ajuda a sustentar ou ampliar as mudanças, enquanto interromper o treino tenderia a fazer com que as mitocôndrias voltassem gradualmente ao nível basal.
Este estudo acrescenta uma nuance útil à história habitual de que “o exercício constrói mitocôndrias”. Ele sugere que o HIIT pode também remodelar internamente as mitocôndrias, aumentando a área de membrana dobrada onde a energia é produzida.
Em termos simples: o exercício não está apenas a colocar mais motores em funcionamento - pode estar também a afiná-los.
E o facto de essa remodelação ter aparecido em homens com diabetes tipo 2 é particularmente animador, porque indica que a capacidade de adaptação do músculo pode ser mais resistente do que muitos supõem.
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