A única coisa que dá nos nervos no novo CLS63 AMG é o próprio nome. Deve haver algum motivo bem germânico circulando pelos corredores do quartel-general da Mercedes, mas, depois de anos em que a sigla no porta-malas apontava com fidelidade o tamanho do motor, agora ela virou, na prática, um blefe. Em vez do esperado 6,3 litros que o emblema alardeia, o carro passou a trazer um 5,5 litros. O que aconteceu? Alguém encomendou um lote gigante de plaquetas “63” e agora precisa queimar o estoque? Ou foi o Hans, lá do departamento de motores, que largou a salsicha no meio do expediente e decretou que todos os V8 grandes da AMG seriam, de uma hora para outra, 800 cm³ menores e ainda por cima ganhariam dois turbos?
Tudo bem - e eu sei que a BMW também faz esse tipo de coisa -, não é um problema sério. Só que o detalhe chama atenção justamente porque o restante do novo CLS AMG é tão redondo que sobra pouco para reclamar além do batismo. A melhor forma de esquecer isso é simples: entrar, apontar o carro para longe e ir o mais rápido possível. Tirando o fato de que cada movimento seu parece ser observado, validado e, às vezes, contido pelo exército do Tronic, é bem provável que você desça do carro com a sensação de que faria a mesma viagem novamente, do começo ao fim. O CLS AMG dá confiança, protege, conecta e empolga de tantos jeitos que a pergunta acaba sendo: será que você precisaria de mais carro do que isso?
Talvez “precisar” nem seja o verbo certo. Quase ninguém, de verdade, precisa de mais do que a versão de entrada - que já vem carregada de tecnologia como um quarto de adolescente e com um nível de luxo que faria bonito ao lado de um balcão da Chanel. “Querer” descreve melhor. E vontade é o que não falta no CLS AMG, começando pelo motor com “tamanho 4” e nome de “tamanho 6”.
Nome e motor do CLS63 AMG: o “63” que não é 6,3
Conhecido internamente na AMG como M 157, esse V8 biturbo de “padrão militar” entrega 518 bhp (cerca de 525 cv) e 516 lb ft (aprox. 700 Nm) de forma implacável - o que representa 11 bhp e 51 lb ft a mais do que o antigo 6.3 aspirado. O ganho vem de uma calibragem cuidadosa da mistura de ar e combustível. Injeção direta guiada por spray, injetores piezoelétricos e comandos de válvulas variáveis afinam a “digestão” do motor. O intercooler com refrigeração ar-água impede que tudo vire granada. E a gestão do alternador - que entra em ação apenas quando faz sentido, em vez de ficar o tempo todo roubando potência -, junto do sistema de start/stop, ajuda a evitar que o carro beba o tanque inteiro antes de você chegar ao próximo posto ou terminar de lixar os pneus até aparecer a lona.
A Mercedes diz que o 157 consome um terço a menos do que o antigo AMG 6.3, o que parece absurdo. Mas deixemos isso de lado por enquanto.
V8 M 157 e AMG Performance Package
A marca também afirma que os M 157 equipados com o opcional AMG Performance Package gastam exatamente a mesma quantidade de combustível, apesar de oferecerem mais 32 bhp e 74 lb ft - além de velocidade máxima de 187 mph (cerca de 301 km/h), em vez das 155 mph (aprox. 250 km/h) da versão “normal”. Esse truque mecânico (e estatístico) acontece ao aumentar a pressão máxima dos turbos de 14.5 psi (aprox. 1,0 bar) para 18.8 psi (aprox. 1,3 bar).
Dá para identificar um CLS com esse pacote de duas maneiras: parado, pela capa de motor em fibra de carbono e pelas pinças de freio vermelhas; em movimento, pelo borrão agressivo em cinza metálico - com aerofólio traseiro de carbono - que passa por você.
Câmbio AMG Speedshift de sete marchas e modos de condução
Outro personagem central nessa combinação de vigor e eficiência é o câmbio AMG Speedshift de sete marchas, que também tem seus truques. Em vez de usar um conversor de torque que desperdiça potência e combustível para “escorrer” de uma marcha para outra, e em vez de herdar o sistema de dupla embreagem do SLS (já que ele foi pensado para o motor do asa-de-gaivota, que gira mais alto e entrega menos torque), o Speedshift recorre a uma embreagem úmida de saída.
A transmissão oferece quatro modos: um existe para satisfazer os legisladores da economia (e justificar números de consumo que parecem inacreditáveis) e três foram feitos para agradar quem está ao volante. No modo Eficiência Controlada (C), o motor suspira e desliga assim que você para, e as trocas acontecem com a mesma pressa de uma jukebox antiga. A história muda de figura nos modos Manual, Esporte e Esporte Plus. O motor deixa de “fingir de morto” a cada cruzamento, e você passa a curtir o carro do jeito que ele foi feito para ser curtido.
Chassi, direção e suspensão adaptativa no CLS AMG
E aproveitar não é nada difícil. O CLS “convencional” de 2011 já recebeu uma reforma considerável em chassi e carroceria, conquistando uma fluidez visual e dinâmica que a Classe E nem sempre consegue alcançar. Ao adicionar um sistema de suspensão adaptativa programável exclusivo, a equipe da AMG deixou o CLS AMG ainda mais acertado.
Eu temia que isso transformasse o conforto em concreto - mas não. Sim, ele inclina menos nas curvas, porém sem cobrar o preço nos seus dentes ou na sua coluna. A direção também entrega uma dose respeitável de sensação, muito acima do que você imaginaria para um carro deste porte e peso. A bitola dianteira é quase 1 polegada (cerca de 2,5 cm) mais larga, mas o mérito está, sobretudo, na calibragem caprichada do conjunto: do ponto de contato dos pneus com o asfalto até as suas mãos no volante AMG revestido de Alcantara.
Rodas, freios e opções
Parte importante do pacote são as rodas de 19 polegadas (aprox. 48 cm), pintadas em tom titânio e polidas, largas na medida certa - sem exageros. Elas ajudam a impedir que o carro comece a “escolher sozinho” o traçado quando o piso fica ruim. Já os freios de 36 cm são tudo, menos discretos. Não tivemos a chance de tentar fritá-los em pista, mas na rua eles se mostraram impecáveis, sem sinal de fadiga.
Ainda assim, caso isso não pareça suficiente, há freios de carbono-cerâmica por mais £9.500.
No fim das contas, há muito pouco de errado - e uma enormidade de certo - na forma como o novo CLS AMG faz o trabalho dele. Ele é muito rápido, muito confortável, surpreendentemente divertido de guiar, tem presença intimidadora (especialmente com a pintura fosca) e transmite uma sensação de robustez digna de uma JCB. A plaquinha “63” pode incomodar quem tem mania de perfeição, mas até isso tem solução… é só remover todos os emblemas.
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