Desde que o H5N1 começou a se espalhar por rebanhos leiteiros dos Estados Unidos em 2024, a sala de ordenha virou a principal suspeita. Vacas infectadas passam a produzir um leite tão carregado de vírus que, à primeira vista, até um resíduo mínimo em equipamentos partilhados parecia suficiente para transmitir a infecção ao próximo animal da fila.
Por fim, cientistas testaram essa hipótese de forma direta: por duas semanas, levaram equipamento de ordenha contaminado de vacas doentes para vacas saudáveis duas vezes ao dia. As vacas saudáveis não apresentaram qualquer sinal de infecção. E essa foi apenas a primeira surpresa.
Uma dose quase inexistente
O Dr. Andrew Bowman, professor de medicina veterinária preventiva na Universidade Estadual de Ohio (OSU), acompanha vacas leiteiras e a gripe aviária H5N1 desde o início do surto em fazendas dos Estados Unidos.
O grupo dele conduziu experiências para determinar qual é a menor quantidade de vírus capaz de infectar uma vaca e, também, para avaliar quais práticas comuns permitem a disseminação da doença.
Para isso, eles injetaram, diretamente nos tetos de vacas em lactação, quantidades de vírus rigorosamente medidas.
A menor dose avaliada foi de dez partículas virais - e isso bastou. Em poucos dias, as vacas infectadas passaram a produzir leite repleto de vírus, em concentrações muito elevadas.
Doses mais altas provocaram quadros mais graves. Ainda assim, mesmo a menor dose levou ao que os pesquisadores chamam de infecção produtiva: o vírus se replicando ativamente dentro da glândula mamária e sendo liberado no leite em níveis capazes de infectar outros animais.
A infecção permanece localizada
O úbere de uma vaca tem quatro glândulas mamárias separadas, que compartilham um mesmo suprimento sanguíneo. Nos experimentos, o vírus ficou, em grande parte, restrito à glândula que recebeu a dose inicial. Ele não se deslocou livremente para as outras três.
Essa separação entre glândulas influencia o quanto o animal adoece. Uma vaca com apenas uma glândula infectada tende a ficar em condição bem melhor do que outra com as quatro glândulas comprometidas.
Febre e queda na produção de leite pioraram à medida que mais glândulas foram afetadas. Depois de infectada, a vaca elimina o vírus no leite por bem mais de uma semana.
Um estudo anterior identificou cerca de um terço das amostras de leite no varejo com resultado positivo para H5N1, embora a pasteurização inative o vírus antes de chegar aos consumidores.
Colocando o principal suspeito à prova
As ordenhadeiras entram em contacto com todas as vacas do rebanho várias vezes por dia, e os animais infectados produzem leite saturado de vírus.
Por isso, o equipamento de ordenha parecia o caminho mais óbvio: material carregado de vírus passando diretamente de um animal para o outro por meio de máquinas partilhadas.
Os pesquisadores transferiram equipamento contaminado de vacas doentes para vacas saudáveis duas vezes ao dia durante 14 dias consecutivos. As vacas saudáveis continuaram saudáveis. Não houve vírus no leite delas.
Mesmo com os animais infectados produzindo leite com grande carga viral e exibindo sinais claros de doença, o contacto com o equipamento não espalhou a enfermidade. Bowman não estava disposto a descartar a hipótese.
“Uma linha reta entre dois pontos diria que o equipamento de ordenha ainda parece ser a via mais provável de transmissão entre vacas”, afirmou Bowman, autor sénior do estudo.
Bezerros e ar também foram testados
Em fazendas leiteiras, bezerros costumam beber leite cru, e, em propriedades com surtos ativos, esse leite pode conter cargas virais muito altas.
Quando os pesquisadores alimentaram bezerros com mamadeira usando leite de vacas infectadas, encontraram apenas quantidades residuais de vírus. Nenhuma infecção ocorreu.
Engolir o vírus, mesmo em grandes quantidades, não parece causar infecção da mesma forma que o contacto direto com o tecido do teto.
Um estudo anterior já havia mostrado uma forte preferência do vírus por tecido mamário em comparação com outros locais, e o resultado com os bezerros reforçou essa conclusão.
Aves silvestres eliminam H5N1 nas fezes, e o gado frequentemente divide o espaço do estábulo com elas. Vacas que receberam uma dose nasal não adoeceram, e o leite permaneceu livre de vírus. Alguns tecidos respiratórios mostraram uma ligeira atividade imunitária, mas não houve desenvolvimento de infecção.
Galinhas alojadas ao lado por 17 dias permaneceram saudáveis, embora o fluxo de ar controlado do laboratório talvez não reproduza um estábulo real.
O mistério da transmissão
O quadro geral, em conjunto, é difícil de conciliar. Apenas dez partículas conseguem infectar via tecido do teto.
Uma vez no interior, o vírus passa a ser eliminado no leite em concentrações enormes. Ainda assim, nenhuma das rotas de transmissão mais óbvias espalhou a doença de maneira consistente. Esse problema central segue sem solução.
“Como ele se espalha de vaca para vaca se torna uma pergunta muito importante. Precisamos entender se existe uma forma de mudar as práticas de ordenha ou de manejo para limitar a transmissão entre vacas, porque achamos que o transbordamento vai acontecer de novo. É só uma questão de tempo”, disse Bowman.
Desde o início de 2024, mais de 1.000 rebanhos em 17 estados foram afetados. Sem orientação baseada em evidências sobre quais práticas travam a disseminação, aos produtores resta pouco além dos protocolos de monitorização já em vigor.
Foco no transbordamento
Antes deste estudo, ninguém havia medido a dose infecciosa em vacas leiteiras vivas e em lactação. Rotas específicas de transmissão também nunca tinham sido testadas em condições controladas.
Agora, essas experiências foram realizadas. Várias das rotas candidatas mais fortes falharam. E o limiar de dez partículas torna mais difícil responder à questão do transbordamento de aves para vacas.
Aves silvestres carregam H5N1 no intestino e o eliminam nas fezes. Como quantidades tão pequenas conseguem chegar, de forma confiável, ao úbere de uma vaca a ponto de causar surtos amplos, continua sendo uma pergunta em aberto.
Esse limiar dá aos cientistas um alvo fixo para a próxima fase da investigação. Seja qual for o caminho que o vírus percorra de uma ave silvestre até um rebanho leiteiro, ele só precisa entregar dez partículas para iniciar um surto.
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