Pular para o conteúdo

Chiclete açucarado após beterraba pode aumentar nitrito e reduzir a pressão arterial, diz estudo do King’s College London (KCL)

Homem medindo pressão arterial em casa enquanto sopra balão cor-de-rosa sentado em cozinha.

Mascar um chiclete é um dos hábitos mais banais que existem. Quase todo mundo faz isso para deixar o hálito mais fresco, e pouca gente imagina que o tipo de chiclete possa influenciar algo além desse efeito.

Só que uma pesquisa recente do King’s College London (KCL) transformou esse costume aparentemente sem importância em algo surpreendentemente informativo.

Ao trocar um chiclete sem açúcar por um chiclete açucarado (do tipo “chiclete de bola”) depois de consumir beterraba, ocorre uma mudança mensurável dentro do organismo - e ela contraria décadas de pressupostos na área.

O que acontece dentro da boca

A fama da beterraba como alimento saudável se explica, em grande parte, por um composto chamado nitrato - uma molécula que a planta absorve do solo e concentra nas raízes e nas folhas.

Espinafre e couve também são fontes relevantes. No entanto, sozinho, o nitrato quase não faz nada no corpo. A forma realmente útil é o nitrito, e a passagem de uma para outra depende de bactérias que vivem na língua.

Esses microrganismos fazem a “entrega” química, convertendo a forma inerte na forma ativa.

Depois dessa virada, o nitrito contribui para relaxar e dilatar os vasos sanguíneos; o sangue circula com mais facilidade e a pressão tende a cair. Sem bactérias, não há conversão - e, portanto, não há benefício.

Essa etapa limitante vem incomodando pesquisadores há algum tempo. Se a boca determina quanto nitrito aproveitável você produz, então qualquer coisa que acelere o trabalho bacteriano poderia aumentar o retorno de um prato de folhas verdes.

Uma ideia pouco explorada voltava e meia reaparecia: talvez tornar a saliva mais ácida ajudasse a empurrar a reação adiante.

Um palpite ao contrário

Aqui a história fica estranha. A maior parte do conhecimento disponível apontava o oposto, defendendo que mais acidez na boca deveria frear - e não acelerar - a conversão. A expectativa “de manual” era que não havia caminho por aí.

Só que essas conclusões vinham de testes curtos e amostras isoladas, não de um acompanhamento do organismo vivo ao longo de uma tarde inteira.

Andrew Webb, Ph.D., professor sênior clínico em medicina cardiovascular e metabólica no KCL, decidiu colocar a hipótese à prova de forma mais completa. O grupo dele já tinha motivos para desconfiar de que a química da saliva importava.

Em trabalhos anteriores, a equipe combinou suco de grapefruit com beterraba e viu o resultado sair pela culatra: a saliva ficou menos ácida e o fornecimento de nitrito foi reduzido.

Nesta nova investigação, os pesquisadores inverteram a pergunta. Se diminuir a acidez atrapalha o processo, aumentar a acidez poderia favorecer? Era uma hipótese esquisita, mas testável.

O experimento com chiclete de bola

O teste foi notavelmente simples. Voluntários saudáveis tomaram uma dose de suco de beterraba e, em seguida, mascaram chiclete por três a seis horas, enquanto os cientistas coletavam amostras de sangue e de saliva e monitoravam a pressão arterial durante todo o período.

Cada participante retornou pelo menos uma semana depois para repetir o protocolo, mas com outro tipo de chiclete.

De um lado, um chiclete açucarado de bola, conhecido por acidificar a saliva; do outro, um chiclete comum sem açúcar. A mastigação e a beterraba eram as mesmas - o que mudava entre as visitas era apenas a química dentro da boca.

Como o desenho foi cruzado (cada pessoa passou pelas duas condições), cada voluntário serviu como o próprio controle, reduzindo grande parte da variabilidade que costuma confundir estudos de nutrição.

Assim, qualquer diferença entre as sessões podia ser atribuída a um fator específico: o chiclete.

O que os números mostraram

Com o chiclete açucarado, o pH da saliva caiu 1,4 ponto - um aumento nítido de acidez.

E as bactérias reagiram exatamente como o “palpite ao contrário” sugeria, e não como os trabalhos mais antigos indicavam.

O nitrito na boca ficou cerca de 45 percent mais alto com o chiclete açucarado, e a quantidade circulando pelo restante do corpo aumentou aproximadamente 25 percent.

Em outras palavras: mais conversão na boca significou mais composto ativo chegando ao sangue. A acidez ajudou, em vez de atrapalhar.

Os valores de pressão arterial acompanharam essa direção. Em comparação com o chiclete sem açúcar, a versão açucarada reduziu tanto o número “de cima” quanto o “de baixo” - a pressão quando o coração bombeia e a pressão no intervalo entre os batimentos - em quase 3 over 2 mmHg.

No papel, a diferença parece pequena, mas ela foi consistente e, principalmente, contrariou a suposição antiga de que a acidez bucal prejudicaria a conversão de nitrato.

Limitações do estudo

O efeito durou apenas algumas horas, e adotar açúcar diariamente é ruim para os dentes e ainda pior para a saúde metabólica no longo prazo. Trata-se de uma prova de conceito, não de uma recomendação.

“Certamente não estamos sugerindo que as pessoas comecem a mascar chiclete açucarado com regularidade”, afirmou a Dr. Charlotte Mills.

A ideia foi demonstrar que, sim, é possível direcionar a forma como o corpo lida com o nitrato da dieta.

Agora, o objetivo do grupo é encontrar um jeito “amigável para os dentes” de reproduzir o mesmo resultado.

Se a acidez é a alavanca, o próximo passo é descobrir algo que a acione sem o açúcar - uma pastilha, um enxaguante ou outra abordagem capaz de ajustar a química da saliva sem causar dano.

Para onde isso leva

Até este trabalho, predominava a visão de que a acidez na boca atuava contra a conversão de nitrato em nitrito.

Ao acompanhar pessoas reais por várias horas, o estudo inverteu esse quadro e, pela primeira vez, indicou que aumentar a acidez pode elevar o composto ativo e reduzir alguns pontos da pressão arterial. O achado central é a direção do efeito.

Para atletas, o ganho potencial é mais imediato. Eles já usam beterraba como suplemento reconhecido para resistência e eficiência no uso de oxigênio.

Se um ajuste simples na química bucal extrai mais efeito da mesma dose, rotinas de treino poderiam mudar sem nenhum novo remédio ou dispositivo.

Até mesmo o velho hábito de encerrar uma refeição rica em nitrato com uma sobremesa doce talvez traga uma vantagem breve.

Para o restante das pessoas, a conclusão prática é mais discreta, mas ampla: o “maquinário” do nitrato no corpo não é fixo - ele pode ser ajustado.

Isso abre uma nova linha de pesquisa para manejar a pressão arterial por meio da alimentação e das bactérias da boca, em vez de depender apenas de comprimidos. Um estudo maior já está planejado.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário