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Pás de turbinas eólicas com cores de alerta podem afastar aves

Pessoa com capacete e binóculo observa turbinas eólicas em campo aberto com céu claro ao fundo.

Vários países já começaram a pintar as pás de turbinas eólicas para torná-las mais fáceis de serem percebidas pelas aves. Na Noruega, chegou-se a adotar uma pá preta. Em partes da Alemanha, apareceram listras vermelhas. As duas soluções funcionam - pelo menos um pouco.

O que ainda não tinha sido colocado à prova era se a própria natureza já guardava uma resposta mais forte. Um novo estudo da Finlândia indica que sim, e a pista estava escondida na asa de uma vespa.

Ver turbinas eólicas como as aves

A investigação foi conduzida na Universidade de Helsínquia, onde a bióloga evolutiva Prof. Johanna Mappes estuda há anos como predadores interpretam sinais de aviso no mundo natural.

A ideia que guiou o trabalho era direta: se as aves evoluíram para evitar determinadas cores na natureza, elas também evitariam essas mesmas cores quando aplicadas numa turbina?

Em colaboração com o Dr. George Hancock, hoje na Universidade de Exeter, Mappes montou um ensaio em ecrã com chapins-reais (uma ave canora comum na Europa) para observar como reagiam quando turbinas digitais surgiam à sua frente.

Cores que as aves temem por instinto

Na natureza, algumas combinações cromáticas funcionam como um “pare” imediato. Amarelo e preto numa vespa. Vermelho numa serpente-coral. Faixas vivas numa rã-dardo venenosa.

Muitos predadores evitam esses padrões mesmo sem nunca terem provado o animal que os exibe. Essa evitação instintiva é um dos recursos mais antigos da evolução - moldado ao longo de milhões de anos porque tende a funcionar de forma consistente entre espécies e ambientes.

A aposta da equipa de Helsínquia foi que o mesmo mecanismo poderia atuar fora do contexto natural. Pás de turbina não são animais, mas cores de aviso que fazem uma ave travar num prado talvez também sejam interpretadas como ameaça num rotor de cerca de 61 m.

Aves diante de turbinas eólicas digitais

Os investigadores capturaram 22 chapins-reais selvagens no sul da Finlândia, a mais de 80 km de qualquer parque eólico, para garantir que não tivessem contacto prévio com turbinas.

Cada ave foi treinada num ecrã tátil especial para pequenas espécies, aprendendo a bicar pontos cinzentos em troca de alimento.

Depois de habituadas ao sistema, turbinas digitais com diferentes esquemas de pintura passaram a aparecer junto dos pontos cinzentos. O equipamento registou quais desenhos as aves se aproximavam e quanto tempo hesitavam antes de o fazer.

Teste de quatro padrões de pás

Quatro propostas entraram no ensaio. O branco liso - padrão mais comum no mundo. Uma única pá preta ao lado de duas brancas, já utilizada em algumas turbinas norueguesas. Listras vermelhas, vistas em certas regiões da Alemanha.

E, por fim, o desenho novo: faixas vermelhas, amarelas e pretas, retiradas diretamente da “linguagem” visual de insetos impalatáveis.

Aves evitaram turbinas eólicas coloridas

Em comparação com pás totalmente brancas, as aves mostraram menor propensão a aproximar-se de pás com padrões - e, quando se aproximavam, demoravam mais, com hesitação visível. Esse comportamento repetiu-se nos três desenhos com marcações.

Ainda assim, a combinação vermelho-amarelo-preto foi a que mais se destacou. Com ela, as aves recuaram mais vezes e aguardaram por mais tempo do que com qualquer outra opção testada.

Uma análise mais ampla sobre mortalidade de pequenas aves em parques eólicos já tinha associado superfícies sem marcação a mais colisões. O branco, ao que tudo indica, quase não “diz” nada às aves.

“Pás brancas, que são o padrão mais frequentemente utilizado em todo o mundo, acabaram por ser a pior opção para as aves”, afirmou Mappes.

Um aviso incorporado

O que torna o resultado mais do que uma curiosidade de laboratório é a origem da resposta. Os chapins-reais nunca tinham visto uma turbina com faixas de vespa. Mesmo assim, recuaram - o que sugere uma aversão inata, e não apenas aprendida.

Trabalhos anteriores sobre a memória do chapim-real mostram que a espécie associa rapidamente cores de aviso a cautela e mantém essa ligação durante semanas, levando o reflexo muito além de um único encontro.

“Já sabíamos há muito tempo que as aves mudam a forma como respondem a objetos com cores de aviso, mas ver um efeito tão grande foi notável”, disse Hancock.

Ainda não testado em voo

A questão maior é se esse efeito aparece fora do ambiente controlado. Aves reais, em altitude real - voando em velocidade e sob luz variável - ainda não foram avaliadas.

Águias-de-cauda-branca, a espécie mais frequentemente morta em parques eólicos marítimos finlandeses, não fizeram parte do ensaio.

Além disso, o estudo trabalhou com apenas uma espécie de pequena ave canora. Não se sabe se rapinas, aves aquáticas ou espécies migratórias reagiriam da mesma forma.

Há também uma preocupação menos evidente: turbinas muito chamativas poderiam afastar aves de áreas de alimentação mesmo quando não existe risco imediato de colisão. As regras de aviação na Finlândia, por enquanto, exigem pás brancas, o que pode dificultar qualquer mudança.

Turbinas eólicas inspiradas na natureza

Pintar uma turbina custa quase nada quando comparado com sistemas de radar ou com paragens acionadas por câmaras.

Pás novas poderiam sair de fábrica já moldadas com as faixas. Pás existentes, por sua vez, poderiam ser repintadas durante manutenções de rotina.

O ensaio fez algo que estudos anteriores sobre pintura de turbinas não tinham feito: verificou se o biomimetismo - copiar uma solução que a natureza refinou durante milhões de anos - pode funcionar em infraestruturas modernas. Para chapins-reais num ecrã, a resposta foi positiva.

Pás listradas. Torres repintadas. A mesma lógica pode ser aplicada a janelas e linhas elétricas, que juntas matam muito mais aves por ano do que turbinas eólicas.

Mudar a cor padrão de uma turbina eólica pode parecer um ajuste pequeno. A conta muda quando essa ideia é multiplicada pelas 100.000 turbinas existentes no mundo.

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