Fora de estrada e o seletor ‘Terrain Response’
Enquanto a água salobra bate de leve na base do para-brisa e uma truta marrom de uns 30 cm roça na parte de baixo do carro, fico tentando encaixar a utilidade óbvia desse recurso com qualquer coisa que eu realmente precisaria no meu trajeto diário até o trabalho. Recado entendido: o novo Discovery 4 sabe fazer aventura, aquelas coisas “brutas” que quase ninguém mais faz. Dá para entrar com ele num rio, sacolejar sem drama pelos estradões de terra preta de um Belize tomado pela selva ou passear por uma duna do Saara sem nada de equipamento especializado além de uma cueca limpa - e tudo isso só girando um comando escrito ‘Terrain Response’.
Ainda assim, para mim sempre pareceu um tipo de desculpa preventiva: exagero fora de estrada usado para disfarçar a falta de jeito no básico, no asfalto.
"Ele dirige como um porco morto rolando morro abaixo."
"Sim. Mas olha a articulação dos eixos! Você ia precisar disso se ficasse atolado numa vala em Belize!"
"Eu moro em Peterborough."
Melhorias mecânicas e comportamento em estrada do Discovery 4
É com certo receio, portanto, que aponto o bico do Disco recém-revisado para fora do rio e de volta à estrada. E aí vem a constatação: dá, sim, para chegar a um compromisso aceitável entre a capacidade de “cabra-montês” no fora de estrada e um mínimo de delicadeza no asfalto.
Por baixo, o Disco ganhou componentes novos de suspensão, direção melhorada e mais direta, um controlo de tração mais esperto e travões maiores. Os centros de rolagem foram baixados, as barras estabilizadoras ficaram mais robustas e houve um festival de matemática aplicado à geometria da suspensão. Continua a ser um carro grande - não dá para fingir o contrário -, mas, de repente, ele passa a ter, se não agilidade, ao menos previsibilidade. Ele vai para onde você aponta com consistência, em vez de ficar bamboleando como uma novilha bêbada. Ou seja: melhora de um jeito bem fácil de perceber.
Também há mais controlo de carroceria do que antes, o que reforça a sensação geral de que ele “encolheu” ao volante - ainda que, na realidade, não tenha encolhido nada.
Nos últimos meses, houve uma onda de atualização na gama Land Rover. Range Rover e Range Rover Sport ficaram com a maior fatia dos holofotes graças a reestilizações de meio de ciclo que devem segurá-los por mais alguns anos. Só que, no fim das contas, quem parece ter saído mais beneficiado foi o Discovery.
Ele recebeu, claro, o pacote visual que serve para fazer você querer um novo: para-choques mais limpos, novos faróis e lanternas, uma grade horizontal que deixa a frente um pouco menos agressiva, arcos de roda na cor da carroceria - e até os inevitáveis LEDs cintilantes, tipo luzinhas de Natal, que brotaram em tudo ultimamente. Mas as mudanças que realmente importam estão escondidas: na mecânica e na cabine.
Motor LR-TDV6, eficiência e interior de sete lugares
No banco do motorista, a diferença aparece na hora: o interior continua prático e resistente, mas ficou muito mais fácil de entender. Menos botões, mais clareza e mais estilo. Some a isso a versatilidade de sete lugares de verdade e um impacto social de médio para bom, e você tem um conjunto bem completo.
Esse pacote ainda é coroado por um motor novo que muda o desempenho do carro. O novo Disco adota o excelente diesel 3.0 de seis cilindros em linha que apareceu recentemente no Jaguar XF. Se você quiser ser particularmente específico, ele se chama AJ-V6D Gen III S, mas foi recalibrado para carregar mais peso e, depois disso, recebeu um nome bem mais prosaico: LR-TDV6.
Ele vem com dois turbos sequenciais, entregando 241bhp e 442lb ft de torque (cerca de 599 Nm) - e tudo isso já a 2,000rpm -, com 83% do torque máximo disponível desde a marcha lenta. Talvez não seja “estiloso” despejar uma lista de números, mas aí vão eles: o motor novo tem 29% mais potência do que o antigo 2.7, 36% mais torque, é 9% mais limpo e traz pouco menos de 10% de melhoria em consumo. Para uma troca de motor, é uma substituição que faz sentido.
Ele não é exatamente um foguete no 0-100 km/h, que leva 9.6 seconds, mas a forma como responde está muito à frente do modelo anterior: mais cheio e mais limpo em toda a faixa de giros. Também há várias medidas voltadas a eficiência - o torque elevado permite que o câmbio automático ZF faça o lock-up mais cedo, reduzindo a dependência daquele “mingau” do conversor de torque hidráulico e ajudando a subir o mpg e a baixar o CO2.
Há ainda um sistema chamado IPS (Intelligent Power System), que aciona o alternador apenas quando isso é mais eficiente, e até o ar-condicionado agora tem embreagem: quando não está em uso, ele se desacopla da transmissão, o que novamente favorece a eficiência. Sinceramente, eu iria ao ponto de dizer que o Discovery 4 é o carro mais desejável de toda a gama Land Rover.
É uma afirmação grande diante do Range Rover - e também diante do RR Sport reestilizado e até do Defender. Mas o Disco 4 virou uma declaração à parte num mundo em que versatilidade pesa. Pense em situações plausíveis para uma família comum: o Disco 4 cobre praticamente todos os cenários.
Ajuda que ele seja bonito e consiga aparecer numa festa chique sem dar a impressão de que você queria um Range Rover mas não conseguiu pagar - mesmo sendo possível encontrar um Disco 4 GS por £35k. E o “lado fora de estrada”? Conta, claro. Só que o novo Discovery 4 já consegue justificar a própria existência mesmo sem botas enlameadas. Hoje em dia, isso diz muito.
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