A Ferrari acabou de registrar uma patente para um novo motor V12. Até aqui, nenhuma surpresa - já dá para notar que o futuro dos supercarros ainda deve passar, em grande parte, pelos motores a combustão.
A diferença, desta vez, é que o novo V12 da Ferrari usa pistões ovais. E por que ovais, em vez de circulares? Porque esse formato permite encurtar de forma relevante o comprimento total do motor, sem abrir mão da cilindrada e do curso originais de um equivalente com pistões redondos.
É uma sacada brilhante - cuja execução, lá nos cada vez mais distantes anos 80, quase enlouqueceu os engenheiros da Honda. Antes de voltarmos à Ferrari, topa uma viagem no tempo? Eu sei que sim…
Um fracasso e o Ferrari das motos
Na década de 80, a Honda também criou um motor com pistões ovais. A meta era desenvolver um quatro tempos tão avançado que conseguisse aposentar, de uma vez, os dois tempos que dominavam a classe principal (500cc) do Mundial de Motociclismo - hoje chamada de MotoGP.
Foi assim que surgiu a Honda NR500, apelidada de “Never Ready” por causa das dificuldades técnicas no começo. Apesar da ideia ousada - pistões ovais e oito válvulas por cilindro - a moto esbarrou em problemas de confiabilidade e de desempenho, o que impediu que ela brigasse de igual para igual com as duas tempos que misturavam óleo na gasolina.
Assim, a moto de corrida morreu - mas a tecnologia não foi descartada. Dos restos da NR de competição nasceu uma das motos de produção mais bonitas e avançadas de todos os tempos: a Honda NR750.
O quanto a Honda NR750 era - e ainda é - bonita? Basta dizer que ela foi a musa inspiradora de Massimo Tamburini (1943-2014) para a emblemática Ducati 916. O designer assinou modelos tão marcantes quanto a própria Ducati 916 e a MV Agusta F4 - passem por aqui para saber mais sobre isso.
Pistões ovais com nova abordagem
Mais de 40 anos se passaram - há quem diga que ainda existem engenheiros da Honda fazendo terapia até hoje, com o mesmo terapeuta dos engenheiros da Toyota, Subaru e Mazda, que também são muito teimosos. Só que a Ferrari não está seguindo exatamente o mesmo caminho.
Enquanto o conjunto oval da Honda era, na prática, um V8 “simplificado” em V4, com duas bielas por pistão e cabeçotes com oito válvulas por cilindro, a solução patenteada pela Ferrari é bem diferente. Aqui, os pistões têm um oval alongado, quase como um comprimido, e ficam posicionados a 90 graus em relação à abordagem adotada pela Honda.
Como funciona a nova solução da Ferrari?
Em um V12 tradicional, cilindros opostos dividem um mesmo munhão do virabrequim, mas as bielas ficam levemente desencontradas, o que acaba aumentando o comprimento total do bloco do motor. Na configuração patenteada pela Ferrari, os pistões da bancada esquerda passam a se conectar diretamente às bielas do lado direito.
Com isso, vistos de cima, os cilindros opostos ficam perfeitamente alinhados entre si, eliminando aqueles milímetros extras que normalmente esticam o comprimento total do motor.
Tanto trabalho para quê?
Esse arranjo permite à Ferrari diminuir o espaçamento entre os cilindros sem reduzir a cilindrada total, chegando a um conjunto mais compacto.
Além disso, a expectativa é de queda no peso das massas rotativas (conjunto móvel interno), já que seriam usados menos componentes - e também menores -, o que abre espaço para regimes de giro mais altos. Um ponto essencial para aumentar o nosso sorriso… desculpem, o desempenho em motores de alta performance.
Mas ainda há mais vantagens
Ao reduzir o comprimento do V12, a Ferrari pode encolher as dimensões totais de seus carros ou, então, ganhar espaço para componentes híbridos, como motores elétricos entre o bloco e a transmissão. Para nós, é a medida certa de eletrificação em um supercarro.
Outra vantagem é a chance de empregar válvulas de admissão e escape maiores - ou em maior quantidade -, elevando de modo significativo a eficiência volumétrica do motor. Ainda assim, a patente não entra em detalhes sobre a parte superior do motor (o cabeçote). Quem está perdendo a cabeça somos nós, com especulações…
Vamos continuar a especular?
Não dá para afirmar se a Ferrari realmente pretende colocar esse motor em produção ou se a patente existe principalmente para proteger a tecnologia de rivais. O fato é que, com normas de emissões cada vez mais rígidas, fabricantes como a Ferrari não podem se dar ao luxo de relaxar se quiserem manter os emblemáticos V12 vivos.
Se a Ferrari levar esse motor adiante - e a gente torce para que sim -, estaremos diante de uma das maiores revoluções técnicas já vistas nos V12 da marca de Maranello.
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