- Restomodding - termo cada vez mais ouvido - é, na prática, a combinação entre restaurar um automóvel e modificá-lo para deixá-lo mais atual, aproveitando o que a indústria evoluiu em materiais, motores, suspensões e afins. Em muitos projetos, o limite parece mesmo ser a imaginação.*
Na essência, essas intervenções tornam o carro muito mais utilizável no dia a dia, elevando junto a performance, a confiabilidade e a durabilidade.
Quem defende essa vertente costuma dizer que ela entrega o melhor de dois universos: ter um clássico, mas sem as dores de cabeça de possuir um. Já os críticos não aceitam a descaracterização - por vezes irreversível - de automóveis considerados clássicos, especialmente quando muitos deles não foram produzidos em grandes quantidades. Fica para outra conversa…
Por enquanto, reunimos algumas propostas que podem ser vistas como as de resultado mais desejado - existem muitas outras, igualmente bem executadas, mas estas nos conquistaram…
Alfaholics GTA-R
O próprio nome já entrega a ideia. A Alfaholics é uma empresa britânica focada em modelos da Alfa Romeo, indo da comercialização de peças para carros antigos - como o Giulia GT (série 105/115) mostrado - até restaurações completas. Mas o trabalho deles vai além disso.
A participação da Alfaholics em competições impulsionou uma série de evoluções do Giulia e, com a publicação online de toda essa evolução, começaram a surgir pedidos por carros completos - e assim nasceu o GTA-R.
Depois de várias atualizações ao longo do tempo, a versão mais recente atende por GTA-R 290 (alusão à relação peso-potência: 290 cv por tonelada).
O Alfaholics GTA-R 290 é como se fosse uma reencarnação, elevada ao cubo, do primeiro Giulia GTA. Ainda que seja uma homenagem legítima ao Giulia GTA, o GTA-R 290 vai bem além de apenas prestar tributo.
As linhas clássicas da carroceria “escondem” materiais mais modernos, como fibra de carbono (em alguns painéis), alumínio e titânio (nos braços da suspensão dianteira).
Sob o capô trabalha um quatro cilindros em linha de 2,3 l, um cuore derivado do 2.0 Twin Spark do Alfa Romeo 75, que entrega aqui 240 cv, naturalmente aspirados (mais cavalo menos cavalo). Parece pouco? Pois o GTA-R 290 pesa só 835 kg - é mais leve do que um Alfa Romeo 4C, e sabemos muito bem do que aquele carro é capaz…
Como dá para imaginar, o preço está longe de ser amigável: passa de 200 mil libras, isto é, mais de 225 mil euros. Ainda assim, isso não impediu que aparecessem clientes para mais de 20 unidades.
E quem dirige costuma não querer outra coisa - inclusive gente habituada a guiar praticamente todos os superesportivos, como o Sr. Chris Harris.
Eagle Spyder GT
Mesmo antes de restomod virar palavra da moda, a Eagle já pegava o belíssimo Jaguar E-Type e o transformava em algo ainda mais competente - e ainda mais desejável. O Eagle Spyder GT é a quarta geração de modelos criados a partir do cupê e do roadster da Jaguar: antes dele vieram o Eagle E-Type, o Eagle Speedster e o Eagle Low Drag GT.
Segundo a britânica Eagle, o Spyder GT consegue reunir em um só carro a performance do Low Drag GT, seu cupê - herdando o seis cilindros em linha de 4.7 l com 335 cv, ainda com carburadores - e a estética do Speedster original.
Construído todo em alumínio, ele pode receber ainda um escapamento de titânio, o que faz o peso ficar apenas alguns quilos acima de 1 tonelada. Assim, o 0 aos 100 km/h acontece em menos de cinco segundos, e a velocidade máxima passa dos 270 km/h.
Tiff Needell, que já teve a chance de guiá-lo, diz não se importar com o fato de chamarem o modelo de um dos carros mais bonitos do mundo… O que o fez se apaixonar foi ele ser um dos mais bonitos… de dirigir.
O preço parte de 780 mil euros e alguns trocados, sem impostos (!).
Lancia Delta Futurista
A italiana Automobili Amos apareceu com uma proposta claramente diferente da maioria dos restomod. Não apenas pelo carro escolhido - a lenda Lancia Delta Integrale -, mas também por ele ser relativamente recente, já que a maior parte dos projetos desse tipo costuma buscar modelos bem mais antigos.
E o resultado final? Um “Deltona” mais leve, mais forte, mais rápido e… com só três portas. A carroceria agora é de fibra de carbono, um dos motivos centrais para o peso reduzido, 1250 kg; e o motor 2.0 Turbo 16V passa a entregar 330 cv. A transmissão também foi retrabalhada para aguentar melhor os cavalos extras, assim como o chassi.
No total, mais de 1000 componentes foram modificados, e a montagem de cada unidade leva de três a quatro meses. Serão produzidas apenas 20 unidades, cada uma pela “módica” quantia de 300 mil euros.
Mini Remastered
A David Brown Automotive começou chamando atenção com um modelo próprio, o Speedback GT, inspirado no Aston Martin DB5 (o mesmo do agente 007), mas usando como base um… Jaguar XKR. Só que o que realmente capturou a imaginação dos entusiastas viria em um pacote muito menor.
Para quem jamais imaginaria o Mini original “vítima” dessa “moda”, a David Brown Automotive provou o contrário - e a demanda superou todas as melhores expectativas… Mini como objeto de luxo? Acredite…
Usando motores recondicionados do Cooper S e do 1275 GT, ele se diferencia de outras propostas desta lista por oferecer “apenas” 79 cv e 99 cv. O visual foi atualizado, com destaque para as lanternas traseiras, mas a grande virada aconteceu por dentro. Um Mini clássico com Apple CarPlay? Sim: o Mini Remastered tem.
Essa excentricidade compacta exige mais de 1000 horas de mão de obra para ficar pronta - e, ainda assim, é difícil engolir o preço de 82 mil euros… por um Mini. A produção não é limitada: a David Brown Automotive fala em algo entre 50 a 100 unidades por ano.
Singer 911 DLS
A Singer, sediada nos EUA, talvez seja a marca que mais ajudou a elevar o status do restomod e, por isso, não poderia ficar fora. Seria possível escolher entre vários projetos - sempre partindo de um Porsche 911 -, mas a seleção, inevitavelmente, cai no mais recente e também no mais ambicioso de todos: o DLS, de Dynamics and Lightweighting Study.
Ao observar e destrinchar o resultado final, fica até difícil chamar o projeto de restomod, embora a base ainda seja a de um carro de produção: um Porsche 911 de 1990, geração 964 - dá a impressão de que nem um parafuso do carro original foi reaproveitado aqui…
Nessa máquina, tudo impressiona. O motor - o eterno boxer de seis cilindros - aqui com 4.0 l, é um colosso arrefecido a ar de 500 cv capaz de fazer… 9000 rpm (!). Ele foi desenvolvido pela Williams Advance Engineering, com consultoria de ninguém menos que Hans Mezger.
A ampla vivência da Williams em aerodinâmica também foi decisiva, aplicando conhecimento de sobra para melhorar o fluxo de ar sobre a carroceria do DLS - a “duck tail” de proporções exageradas e a entrada de ar na janela lateral são exemplos claros.
Para honrar o Lightweighting do nome (aligeiramento), uma dieta rígida de fibra de carbono, magnésio e titânio levou o peso a apenas e só 990 kg - menos que um Volkswagen Up! GTI -; o desempenho deve ser devastador.
Nada ficou ao acaso, seja no acabamento externo e interno, seja no desenvolvimento do chassi. A fórmula Singer é levada aqui a um extremo e muitos consideram o DLS o 911 perfeito.
A escala do projeto - com várias soluções exclusivas - faz com que o Singer DLS custe caro, muito caro: são mais de 1,5 milhões de euros de preço base, entrando no território dos hipercarros. Se é justo? Quase não importa, porque… interessados não faltam.
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