O que está em negociação entre Galp e Moeve
Nos próximos meses, o mapa da refinação de combustíveis em Portugal pode passar por uma virada. Está em negociação uma operação entre a Galp e a espanhola Moeve que aponta para a criação de um grande grupo ibérico de refinação e distribuição de combustíveis. Nesse desenho, a empresa portuguesa ficaria com uma participação minoritária, em torno de 20%.
O pacote inclui a refinaria de Sines, que seria transferida para essa nova entidade. Na prática, o controle efetivo sobre a única infraestrutura de refinação do país deixaria de ser 100% nacional, como é hoje. Em contrapartida, a Galp - participada pelo Estado via Parpública em 8% - ganharia escala em Espanha, integração comercial e acesso a duas refinarias do outro lado da fronteira.
Do ponto de vista empresarial, a lógica é fácil de entender. O setor enfrenta uma pressão enorme: transição energética, margens mais apertadas, fechamento de refinarias na Europa e a exigência de investimentos pesados em descarbonização. Em um continente onde escala voltou a ser condição de sobrevivência, a promessa de criar um “campeão europeu” no setor é sedutora - ainda que a liderança da Repsol não pareça estar em causa.
Por que o momento é delicado para a Europa
Ainda assim, o timing dificilmente poderia ser pior. O mundo já mudou - ou está mudando - em velocidade vertiginosa. A Europa se prepara para um cenário que acreditava superado: a possibilidade de uma guerra dentro do seu espaço geográfico, para além das fronteiras ucranianas.
Os Estados-membros debatem gastos em defesa na ordem de 5% do PIB. Voltam ao centro do debate expressões como autonomia estratégica, resiliência industrial e segurança do abastecimento energético. Tudo isso voltou a ser política de Estado - na verdade, talvez nunca tenha deixado de ser.
É nesse pano de fundo que surge uma pergunta estratégica, daquelas para as quais torço para nunca precisarmos buscar resposta. Em uma situação de ruptura grave - conflito, escassez prolongada, estado de emergência etc. - qual será o interesse a orientar essa infraestrutura? O português ou o espanhol?
Refinaria de Sines como instrumento de soberania energética
Manuel Castro Almeida, ministro da Economia, também reconhece o peso de manter o controle da refinaria de Sines em território nacional. “Era melhor termos uma refinaria totalmente controlada a partir de Lisboa. É a única refinaria portuguesa que tem peso relevante na nossa economia e na soberania do país”, afirmou na semana passada na conferência “Conversa Capital” organizada pelo “Jornal de Negócios/Antena 1”.
A condução e o acompanhamento desse tema estão a cargo da ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, cujo currículo nessa área é bastante relevante. A ministra diz estar “consciente das vantagens e das possíveis desvantagens” do negócio.
Ao ser questionada sobre risco à soberania energética nacional, ela rejeita essa hipótese. “Sou muito apologista de um mercado aberto. Temos muito a ganhar com um mercado aberto. Quem se fecha é porque tem medo”. Eu não seria tão categórico. A confiança e a experiência da ministra podem nos tranquilizar, mas não deveriam nos anestesiar.
Em cenários extremos, a história já mostrou que os Estados quase sempre priorizam seus próprios interesses. E aqui estamos falando de combustível, mas poderíamos estar falando de água. Todos lembramos das tensões e conflitos recorrentes entre Portugal e Espanha sobre a gestão de barragens em rios compartilhados (Douro, Tejo, Guadiana), com Portugal acusando a Espanha de reter água para fins hidrelétricos e de ignorar o cumprimento dos caudais mínimos acordados na Convenção de Albufeira.
Por isso, independentemente do desfecho, é importante não perder de vista que a refinaria de Sines não é apenas um ativo industrial. Ela também é um instrumento de soberania - uma dimensão que ganha peso à medida que tentamos antecipar os problemas que rondam o futuro da Europa. E eles não são poucos: a segurança energética é um deles.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário