Com a ofensiva dos elétricos a ganhar espaço no mercado, uma dúvida começa a aparecer com cada vez mais frequência: um carro elétrico pode, um dia, virar um clássico?
A questão parece simples, mas tem várias camadas. Um clássico elétrico terá o mesmo peso - e o mesmo valor - de um clássico a combustão? Como a tecnologia dos modelos atuais vai envelhecer? E os esportivos elétricos de hoje - o Alpine A290, o CUPRA Raval ou o Abarth 600e - conseguem despertar o mesmo tipo de emoção que versões equivalentes a gasolina?
Esses pontos pautaram o episódio mais recente do Auto Talks, gravado durante o ECAR Show 2026, com Hugo Marcos, do CarOnlineTV - alguém que passa boa parte da semana dirigindo carros antigos. E, quando não está ao volante, é bem provável que esteja com as mangas arregaçadas na oficina, tentando garantir mais alguns anos de vida para eles.
Clássico, antigo ou simplesmente velho?
Antes de encarar a pergunta que deu origem ao papo, foi preciso deixar uma diferença bem clara: nem todo carro antigo é clássico. A idade, por si só, não basta para assegurar esse rótulo.
Existem automóveis que atravessam décadas sem deixar rastro e outros que, com os mesmos anos no calendário, continuam mexendo com as pessoas. O que separa uns dos outros não é o tempo em si, e sim a história que carregam e o modo como conseguiram marcar uma geração.
Da conversa também surgiu uma ideia interessante: a distinção entre clássicos de estrada e clássicos de museu. Alguns nasceram para serem dirigidos, acumulando quilômetros e memórias. Outros se transformaram em peças de patrimônio, lembradas por terem sido pioneiras, revolucionárias ou, simplesmente, inovadoras.
O BMW i3 ilustra bem isso. Quando chegou, em 2013, trouxe soluções que, até então, eram mais comuns em supercarros: caso da monocoque em fibra de carbono e do uso de plástico reforçado com fibra de carbono.
Mais de dez anos depois, ele ainda chama atenção na rua e segue se destacando no mercado de usados. Mas será que isso, por si só, pode render ao modelo o status de clássico daqui a alguns anos?
O problema da perfeição
Falar de elétricos com chance de se tornarem clássicos passa, inevitavelmente, por olhar para os modelos que se diferenciam por apostar em uma condução mais esportiva. E, nesse campo, os elétricos vêm se afirmando nos últimos anos.
Por causa deles, já não faz sentido reduzir essa conversa a números. Potência deixou de impressionar como antes, e acelerações que, há poucos anos, eram território de superesportivos agora aparecem em modelos familiares ou em compactos urbanos.
Mas será que o que define um futuro clássico é a rapidez? Claro que não. O que conta é tudo o que existe ao redor de um carro: o contexto, a história e até os defeitos.
O lag do turbo, o cheiro de gasolina, o motor reclamando nos primeiros minutos de uma manhã fria, ou mesmo aquele pequeno soluço mecânico que tanto irrita quanto arranca um sorriso. São imperfeições - e, ao mesmo tempo, parte da personalidade de um carro.
O mesmo vale para a confiabilidade. No caso dos elétricos, desde que haja autonomia, eles estão sempre prontos para sair. Não fazem birra, não engasgam, não exigem paciência do motorista.
Parece só vantagem, é verdade, mas para muitos entusiastas isso também significa uma perda. Porque, como resumiu Hugo Marcos, são justamente as imperfeições que fazem a gente criar laços com os automóveis. E, nesse ponto, os elétricos ainda largam atrás.
Encontro marcado no próximo Auto Talks
Não faltam motivos, portanto, para assistir/ouvir ao Auto Talks mais recente, o novo formato editorial da Razão Automóvel, nas plataformas de sempre: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário