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Produtos de degradação de antibióticos no tratamento de esgoto podem impulsionar resistência

Mulher cientista em jaleco branco segurando amostra de água em estação de tratamento ao ar livre.

Ao fazer um tratamento com antibióticos, a maior parte do medicamento não fica no organismo: ele atravessa o corpo e acaba indo embora pelo ralo.

Depois, entra na rede de esgoto, chega a uma estação de tratamento, passa pelos processos usuais e, por fim, segue com o efluente para um rio ou para o mar.

A suposição - bastante plausível - sempre foi que o tratamento resolveria esse problema. Uma pesquisa recente indica que isso não acontece, pelo menos não por completo.

O que sai do outro lado ainda pode favorecer a resistência a antibióticos em bactérias, às vezes com uma força comparável à do fármaco original.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da University of Queensland (UQ) e da University of Exeter.

O estudo investigou produtos de transformação de antibióticos - compostos químicos formados à medida que os antibióticos se degradam - e mostrou que eles podem induzir tanta resistência quanto os próprios medicamentos.

O problema nas estações de tratamento

Até 90% dos antibióticos que tomamos passam pelo corpo e entram no sistema de esgoto.

As estações de tratamento deveriam ser o ponto em que a questão seria controlada, mas na prática o cenário é mais complicado.

"O tratamento de águas residuárias é amplamente considerado capaz de reduzir as concentrações de antibióticos e a atividade biológica, embora não necessariamente eliminá-las", afirmou Pooja Lakhey, doutoranda na UQ.

"Nossa pesquisa mostra que estações de tratamento de águas residuárias podem atuar como reservatórios ocultos de bioatividade, com antibióticos e seus subprodutos contribuindo para a resistência."

Para entender se isso se repetia em realidades distintas, a equipe coletou amostras de efluentes em Queensland e em Cornwall, na Inglaterra - contextos bem diferentes, separados por geografia e clima, mas com resultados apontando para a mesma direção.

Nos dois locais, bactérias desenvolveram resistência ao serem expostas a produtos de degradação de antibióticos de três classes diferentes.

Os resíduos podem ser tão perigosos quanto o antibiótico

O achado mais preocupante foi o grau de potência desses compostos gerados pela degradação. Ao que tudo indica, degradar não é o mesmo que desativar.

"Em alguns casos, os produtos de degradação desencadearam resistência no mesmo nível de exposição que os antibióticos originais, sugerindo que mesmo após os antibióticos se degradarem, eles podem manter a capacidade de promover resistência a antibióticos em bactérias", explicou Lakhey.

Nem os programas de monitoramento de efluentes nem os testes ambientais mais amplos costumam procurar esses compostos.

O que geralmente é medido são os medicamentos originais; já seus “descendentes” químicos, em grande parte, ficam fora do radar.

Com isso, a dimensão do problema provavelmente vem sendo subestimada há muito tempo - e ambientes considerados seguros podem ser menos seguros do que os dados atuais fazem parecer.

Uma pandemia silenciosa

A resistência a antibióticos já é um dos problemas de saúde pública mais graves do planeta - e também um dos menos visíveis.

"A resistência a antibióticos é uma grande ameaça global à saúde, rotulada como a 'pandemia silenciosa' que já contribui para 5 milhões de mortes por ano", observou Lakhey.

A resistência se espalha por várias vias - hospitais, fazendas, comunidades - e os cursos d’água são uma delas.

Bactérias resistentes que se acumulam em rios e áreas costeiras não permanecem ali: elas chegam a pessoas que nadam, pescam e consomem água de fontes afetadas.

As concessionárias não são as vilãs

Seria fácil apontar a infraestrutura de esgoto como o ponto de falha. Mas essa leitura não é exatamente correta.

"As concessionárias de água não são a causa da resistência antimicrobiana, mas infelizmente ficam responsáveis por lidar com tudo o que é descartado", disse o Dr. Jake O’Brien, da Queensland Alliance for Environmental Health Sciences (QAEHS).

"Elas são fundamentais para nos fornecer amostras e muitas têm interesse em tentar lidar com os problemas depois que os identificamos. As questões reais são que os humanos usam antibióticos demais e seus produtos de degradação continuam a impulsionar a resistência a antibióticos."

Em um estudo anterior, a mesma equipe acompanhou as concentrações de cerca de 100 agentes antimicrobianos e seus produtos de transformação em 50 estações de tratamento na Austrália.

Os níveis nos sistemas hídricos eram elevados. Ainda assim, a pesquisa também encontrou locais onde a remoção foi mais eficaz, o que sugere que o desafio não é necessariamente insolúvel.

Algumas estações já apresentam desempenho superior a outras, e entender os motivos pode indicar melhorias práticas sem exigir a reconstrução de toda a infraestrutura do zero.

Repensando o que é medido

Murray, em Exeter, chamou atenção para uma lacuna específica na forma como o risco é avaliado hoje.

O foco regulatório tem sido, principalmente, nos compostos originais. Aquilo em que eles se transformam durante o tratamento costuma ser tratado como secundário.

"Estamos recomendando uma avaliação de risco que leve em conta o impacto tanto do composto químico original, como um antibiótico, quanto das partes componentes em que ele se decompõe ao longo do tratamento", disse a Dr. Aimee Murray, da University of Exeter.

"Precisamos avançar para processos de tratamento capazes de reduzir o perigo de todos esses elementos em impulsionar a resistência", concluiu.

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