Desempenho e SUV: uma combinação improvável
Muita gente encara “alto desempenho” e “SUV” como conceitos tão incompatíveis quanto “elefante” e “balé”. E, num mundo minimamente racional, essa impressão faz sentido. Para levar muita bagagem com rapidez em qualquer situação que não envolva sair do asfalto, uma perua 4x4 é infinitamente mais lógica do que a leva atual de SUVs hipertrofiados. Mesmo assim, a AMG pede que você segure a descrença por mais um tempo, porque o novo ML63 AMG chega justamente para tentar provar o contrário.
Evolução do Mercedes ML63 AMG: do ML55 AMG ao terceiro ato
Foi a própria Mercedes, por meio do braço de preparação AMG, que ajudou a inaugurar esse nicho de “super-SUV” ainda em 1999. O primeiro modelo a abrir esse sulco foi o ML55 AMG. Ele até andava depressa, mas de um jeito meio “locomotiva”: força bruta, pouca finesse. E, para piorar, entrou para a lista dos carros mais pouco confiáveis de todos os tempos - consumia discos de freio como se fossem bolachas e, no geral, parecia se desmontar se você sequer o encarasse com mais severidade. Eu sei disso por experiência: eu tive um.
A fase seguinte da história foi o ML63 AMG bem mais competente. Ele teve a decência de não se desintegrar em cinco minutos, ganhou um comportamento visual e dinâmico mais convincente e, em linha reta, era capaz de lotar o retrovisor de boa parte dos esportivos médios. Ou seja: muito menos motivos para detestar e muito mais para gostar.
O que mudou no ML63 AMG: motor, eficiência e acerto dinâmico
Nesta terceira tentativa, a atualização foi mais discreta no olhar, mas nem por isso menos relevante no resultado. A transformação começa no motor: o V8 6,2 litros aspirado, barulhento e teatral, saiu de cena para dar lugar a uma versão recalibrada do V8 biturbo M157 - menos intimidador no temperamento, porém muito mais eficiente - que vem do CLS AMG. Na prática, isso empurra o consumo médio daquele patamar de um dígito (capaz de esvaziar tanque e conta bancária) para algo mais aceitável: 24mpg (cerca de 8,5 km/l). Agora, se a prioridade for empurrão e não economia, o opcional AMG Performance Package trata de fazer esses números voltarem rapidamente para a casa dos dígitos solitários.
Suspensão, Active Curve System e distribuição de força
O chassi ficou mais silencioso, mais composto e mais preciso graças a um pacote de novidades. A suspensão a ar ativa, com amortecimento adaptativo, se soma a um arranjo absurdamente complexo chamado Active Curve System, que usa hidráulica para compensar a rolagem da carroceria. O conjunto faz um trabalho impressionante para manter as 2,3 toneladas do ML AMG bem assentadas no asfalto.
Também ajuda o fato de a distribuição de força ser 40/60 entre dianteira e traseira - num ML “normal”, é 50/50 -, o que contribui para o carro entrar em curva com mais rapidez. A direção AMG com assistência variável conforme a velocidade vai na mesma linha.
A sensação ao volante
O ponto é que nada disso parece realmente natural. Sim, ele é rápido. E, sim, faz curva mais depressa e com menos inclinação do que você imaginaria possível. Só que, em nenhum momento, você deixa de perceber que é a tecnologia vencendo a física - e não você. Para quem não se incomoda com isso, ótimo; mas experimente uma perua de alto desempenho antes de assinar por um desses. Se isso não fizer você repensar, duas palavras ainda valem a lembrança: “pense” e “de novo”.
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