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O custo de abrir mão da modernização
A opção de abandonar uma modernização profunda de um sistema de armas já consolidado costuma ser vendida como economia imediata, mas frequentemente acaba virando uma oportunidade cara perdida - sobretudo em soberania e prontidão operacional. Quando se deixa de atualizar plataformas existentes (por exemplo, com eletrônica digital, conjuntos motopropulsores mais eficientes ou a adoção de armamento guiado), as Forças Armadas não apenas aceleram a obsolescência técnica do que já possuem como também travam o amadurecimento da base industrial de defesa local.
Sem esse tipo de investimento, engenheiros e técnicos nacionais deixam de adquirir a vivência prática necessária para absorver tecnologias críticas. Na prática, o país passa a depender integralmente de fornecedores estrangeiros para atender necessidades futuras.
Essa realidade se encaixa no caso do EE-9 Cascavel: a chance de modernizar a frota foi desperdiçada pelo Exército da Colômbia, evidenciando, na visão deste autor, uma falta de visão da cadeia de comando. No plano tático, a ausência de atualização amplia de forma preocupante a diferença de capacidades diante de possíveis adversários, num ambiente em que guerra eletrônica e precisão digital ditam as regras.
Um blindado com estrutura sólida e vida útil remanescente pode ser recuperado por meio de modernizações, deixando de ser um alvo vulnerável e passando a contar com consciência situacional, contramedidas e enlace de dados atualizados. Com isso, o Estado colombiano acabou diante de um dilema: ou direcionar orçamentos emergenciais bem mais altos para comprar sistemas importados do zero, ou aceitar uma perda permanente do seu poder de dissuasão.
LAV III: a escolha feita em 2022
No caso colombiano, a decisão tomada foi adquirir o LAV III novo - uma alternativa descrita aqui como de custo excessivo, com poder de fogo médio e sem capacidade dissuasória. Vale lembrar que a compra foi autorizada em 2022, em um processo amplamente questionado, cujo andamento permanece desconhecido até o momento, e que não dispõe de capacidade antidrones nem das contramedidas exigidas pela guerra moderna.
A modernização no Brasil
Quando o EE-9 Cascavel saiu de serviço no Exército Brasileiro, foi impulsionada a modernização da frota desses blindados de reconhecimento, desenvolvidos pela extinta Engesa, dentro do programa Cascavel NG (Nova Geração). A proposta estende a vida útil desse histórico caça-carros ao incorporar tecnologia atual, buscando garantir sua utilidade tática diante das exigências do campo de batalha contemporâneo.
O projeto é conduzido pelo Consórcio Força Terrestre, liderado pela Akaer, e promove uma transformação ampla nas capacidades originais do veículo. Entre os principais avanços, destacam-se:
- Maior poder de fogo, com a adoção de um computador balístico moderno, um sistema digital de controle de tiro e a possibilidade de integrar mísseis guiados anticarro.
- Ganho de mobilidade, graças à instalação de um motor mais eficiente e mais potente (MWM 6.12TCE), acompanhado de um sistema de controle de pressão dos pneus.
- Torre automatizada, operável por joystick, com optrônica diurna/noturna de última geração e um conjunto de câmeras 360° que fornece ao motorista excelente consciência situacional.
Esse esforço não só reduz custos ao reaproveitar plataformas maduras, como também avançou de maneira significativa. Um marco citado foi a conclusão de testes de tiro bem-sucedidos: o protótipo do Cascavel NG realizou ensaios rigorosos no Centro de Avaliações do Exército, efetuando pela primeira vez disparos reais com um novo computador balístico brasileiro integrado ao Sistema de Municionamento e Engajamento Modernizado (SMEM), demonstrando precisão elevada e maturidade tecnológica.
O próximo passo previsto é a entrega do lote piloto que, após a aprovação nas avaliações dos dois primeiros protótipos operacionais, será composto por sete unidades modernizadas, programadas para ingressar formalmente na Força Terrestre.
Capacitação e conteúdo nacional no Cascavel NG
Duas das maiores vantagens desse programa para o Brasil estão na formação de pessoal e no fortalecimento tecnológico interno. Por meio do Arsenal de Guerra de São Paulo e da empresa contratada, foram concluídos ciclos intensivos de treinamento voltados a oficiais e técnicos de todo o país.
A capacitação incluiu o processo de colimação da torre modernizada, a operação dos novos visores optrônicos e a manutenção do blindado. Esse caminho também impulsionou a nacionalização e o desenvolvimento tecnológico, com destaque para a obtenção de mais de 90 % de conteúdo nacional nos componentes eletrônicos e no software.
Cascavel na Colômbia
O Engesa EE-9 Cascavel da Colômbia foi adquirido originalmente em 1982, com a compra de 128 unidades da então empresa brasileira Engesa. Ao longo do tempo, prestou serviços relevantes em missões de contrainsurgência, combate ao narcotráfico e segurança viária, inclusive em unidades móveis como o Plano Meteoro. Trata-se de uma plataforma ágil, capaz de atingir até 100 km/h, com autonomia máxima de 880 quilômetros e suspensão Boomerang voltada para deslocamentos fora de estrada.
É fato que, após mais de quatro décadas de uso contínuo, o Exército Nacional da Colômbia iniciou a retirada gradual dessa frota emblemática. Segundo a liderança militar, a medida atende à necessidade de renovar o parque automotor tático com plataformas modernas, com maior proteção balística e tecnologia alinhada aos padrões do combate atual.
Ainda que o Cascavel tenha sido a espinha dorsal da cavalaria colombiana e tenha cumprido papel importante na segurança viária e no controle territorial, este autor avalia que a retirada ocorreu de forma apressada, sem se avaliar a modernização e a atualização que poderiam ter ampliado sua vida útil no contexto da luta interna e do aumento de ataques às tropas registrados desde 2025.
O armamento principal é o canhão Engesa EC-90 de 90 mm, apto a empregar munição de alto explosivo (HE), anticarro (HEAT) e de cabeça esmagada (HESH). O veículo também leva uma metralhadora coaxial de 7,62 mm acoplada à torre e outra metralhadora antiaérea externa voltada à defesa imediata da tripulação - o que faz com que, em 2026, as poucas unidades ainda em uso reúnam a maior potência de fogo entre todos os blindados em serviço no país.
Apesar dessas qualidades, não houve uma análise consistente de modernização dessa plataforma. De forma realista e considerando o cenário atual do país - com aumento desproporcional da violência, mortes contínuas de tropas nas estradas e emboscadas recorrentes aos poucos blindados disponíveis -, uma atualização do Cascavel poderia ter funcionado como elemento dissuasório contra grupos criminosos, além de reforçar a segurança da população e de soldados, infantes e policiais que perderam a vida no último ano.
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