Flexibilidade laboral e precarização do trabalho
A chamada flexibilidade laboral reúne hoje uma série de mecanismos de precarização e de redução dos custos do trabalho, embora, no discurso político dominante, seja vendida como se fosse um benefício para o trabalhador. A ideia de que os jovens não dão valor à estabilidade no emprego é usada como peça-chave para prepará-los a aceitar que sejam a primeira geração a viver pior do que as anteriores - justamente num período em que existe mais riqueza do que nunca.
O mito de que os jovens rejeitam a estabilidade no emprego
Para desqualificar os contratos de trabalho estáveis, repete-se que os jovens “querem compensações imediatas e poder mudar de emprego quando lhes apetecer”. Vale notar um detalhe: quando alguém tem um contrato seguro, nunca fica impedido de trocar de emprego se sentir necessidade ou vontade.
Além disso, para a maioria dos jovens, antes mesmo da liberdade de mudar de emprego, o que faz falta é a liberdade de acessar um trabalho digno, com remuneração justa, que permita organizar a vida pessoal e familiar.
O que a ausência de estabilidade já significou: “14 empregos entre os 12 e os 24 anos”
No ano 2000, quando comecei a pensar minha tese de doutorado, entrevistei um “velho operário” da Covilhã, com quase 90 anos (ele chegou a ser encarregado numa grande empresa), que explicou por que e como teve “14 empregos entre os 12 e os 24 anos”. Segundo ele, “Não havia qualquer estabilidade no emprego. Os patrões quando tinham necessidade... até saíam ao caminho dos trabalhadores para os aliciarem...”.
E acrescentou: “Mas, em período de crise, nem havia trabalho, nem salários, nem subsídio de desemprego, nem qualquer apoio, cada um ganhava o que calhava” (p 204). Em tempos de robotização, do digital e de inteligência artificial, o neoliberalismo segue insistindo na sua receita rançosa.
A “liberdade” precária e a gestão de recursos humanos
A suposta liberdade do trabalhador, associada às formas de trabalho precário, acaba por incorporar uma cultura de gestão de recursos humanos que desvaloriza o trabalhador enquanto parte de um coletivo e rebaixa o trabalho como elemento estruturante da identidade pessoal e social.
Diante de uma prática laboral que bloqueia trajetórias e carreiras profissionais e adota sistemas ardilosos de avaliação do trabalho - eliminando processos de progressão, como ocorre no nosso país, tanto no setor privado quanto no público -, os jovens com algum recurso e diante de uma oportunidade tenderão a trocar de emprego para melhorar sua condição. Ainda assim, a maioria ficará presa à desesperança e a sacrifícios para sobreviver.
Sistemas de Relações Coletivas de Trabalho, sindicatos e resistência
A ilusão de que a precariedade beneficia os trabalhadores busca aniquilar os Sistemas de Relações Coletivas de Trabalho (que, inclusive, foram um instrumento importante de melhoria da produtividade) e integra a tentativa de fazer a sociedade regredir a um patamar que foi derrotado, desde o fim do século XIX, pela ação coletiva e, em particular, pela ação dos sindicatos.
Como sabemos, não existem vitórias definitivas nem derrotas irreversíveis. O fato de a sociedade portuguesa aparecer consciente das armadilhas do pacote trabalhista, e a existência de predisposição de luta por parte dos trabalhadores, são sinais positivos de esperança.
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