A frente ribeirinha ao lado do Museu da Eletricidade, ponto de encontro querido por muitos lisboetas (e por quem visita a cidade), virou palco da estreia do inovador Volvo Studio entre 24 de maio e 16 de junho - um evento itinerante que depois segue para outras cidades da Europa.
A iniciativa foi pensada para marcar a chegada ao mercado português dos modelos 100% elétricos da Volvo e parte de uma ideia tão simples quanto ambiciosa: pôr os interessados no comando. Na prática, a marca convida o público a fazer um test-drive mais longo do que o habitual - no trajeto entre Belém e Carcavelos - ao novo XC40 Recharge.
Diferentemente do que se vê na maioria dos eventos do gênero, esse test-drive acontece com total privacidade (sem alguém da marca no banco ao lado). Para participar, é preciso apenas agendar com antecedência, o que pode ser feito por este link. Além do XC40 Recharge, o espaço também exibe o recém-lançado C40 Recharge. O Volvo Studio funciona todos os dias, das 9h30 às 19h45.
Foi justamente durante a inauguração do evento que a Razão Automóvel conversou com Aira de Mello, diretora de Marketing e Comunicação da Volvo Car Portugal, que falou sobre o que vem por aí para a marca sueca, os desafios da eletrificação e a forma como a Volvo pretende conduzir esta nova etapa.
De Portugal para o Mundo
Razão Automóvel (RA) - Portugal foi o pontapé inicial de um evento internacional da Volvo focado na eletrificação. Considera que somos um país preparado para uma mobilidade 100% elétrica?
Aira de Mello (AM) - É verdade, ficámos muito orgulhosos por ser o primeiro mercado a receber o conceito Volvo Studio. Somos um país com um enorme potencial para uma mobilidade 100% elétrica, contudo, ainda há um longo caminho a percorrer. Enquanto não existir uma verdadeira eletrificação das cidades que possibilite carregar um elétrico de forma simples e acessível, tal será opção apenas para alguns.
Basta pensar em quem vive em áreas sem estacionamentos subterrâneos ou sem garagem particular - para essas pessoas, ter um carro elétrico ainda não é uma alternativa viável. Equipar uma cidade inteira com infraestrutura de recarga exige um investimento muito alto e lembra um pouco a fábula do “ovo e da galinha”: sem uma frota relevante de elétricos/híbridos que justifique, o investimento não acontece; e, sem infraestrutura, não há um boom de veículos eletrificados.
RA - O Volvo XC40 P8 Recharge é o grande destaque do Volvo Studio Lisboa, mas também está em exposição o Volvo C40, o primeiro Volvo que será apenas 100% elétrico. Como tem sido a reação do público durante os* test drive*?
AM - Os test drive são exclusivamente para o XC40 100% elétrico, para já o C40 é apenas para admirar! Contamos ter as primeiras unidades (do C40 Recharge) a rolar já no final do ano em Portugal.
A primeira experiência ao volante do XC40 100% elétrico tem superado até as nossas expectativas mais otimistas: o público tem gostado bastante da tecnologia “one pedal drive”, do Google Assistant integrado, do comportamento dinâmico e do equilíbrio do carro - mas, acima de tudo, de sentir o desempenho e a potência deste XC40, sem motor a combustão.
Isso tem sido essencial para quebrar a ideia “carro elétrico = eletrodoméstico” que, em tom depreciativo, às vezes aparece em conversas informais. O feedback tem sido muito positivo. As pessoas saem satisfeitas porque percebem, de fato, que estão conduzindo um carro forte, silencioso, limpo e, claro, seguro - afinal, é um Volvo.
Ambição realista
RA - A partir de 2030 a Volvo só vai vender automóveis 100% elétricos. Esta mudança é ousada e há quem defenda ser demasiado cedo. É uma decisão arriscada?
AM - Na Volvo temos tomado muitas decisões não isentas de risco nos últimos tempos. Felizmente, o que temos visto é que, de alguma forma, temos ajudado a “abrir a porta” e que muitos dos nossos “congéneres” nos seguiram - aconteceu quando arriscámos anunciar o fim do Diesel, quando arriscámos anunciar a limitação a 180 km/h e também a eletrificação de toda a gama.
Ficamos contentes com isso, porque esse sempre foi o objetivo: estimular a discussão e acelerar a transformação. Precisamos mesmo fazer alguma coisa para que exista planeta para os nossos netos - e, obviamente, não somos líricos!
A Volvo, sozinha, não vai salvar o mundo; mas, se cada um cumprir a sua parte… felizmente, nunca tivemos resultados tão fortes em vendas e awareness quanto desde que iniciámos, há cinco anos, essa transformação da marca. Isso indica que estamos na direção certa e que as pessoas estão conosco nesta jornada.
RA - O consumidor ainda tem receio do desgaste das baterias, preço da substituição em caso de avaria e do destino que lhes dão depois de utilizadas. Como é que respondem a essa inquietação?
AM - Na Volvo, as baterias têm garantia de oito anos e uma vida estimada de cerca de 10. Quando deixam de estar nos nossos automóveis, são reaproveitadas numa “segunda vida”. É um processo que ainda está evoluindo, mas já com bons exemplos: temos antigas baterias em uso na BatteryLoop e na própria Volvo Cars.
Essas baterias contribuem para armazenar energia proveniente de energia solar. Desde abril, algumas delas passaram a alimentar postos de recarga de carros e bicicletas elétricas no centro de negócios da empresa sueca de higiene e saúde Essity, em Gotemburgo.
Em outra iniciativa parecida, a Volvo Cars, a Comsys AB (empresa sueca de tecnologia limpa) e a Fortum (empresa europeia de energia) participaram de um projeto-piloto para aumentar a flexibilidade do fornecimento em uma instalação hidrelétrica na Suécia - baterias que antes equiparam híbridos plug-in da Volvo serão usadas como armazenamento estacionário, ajudando a disponibilizar os chamados serviços de “fast-balance” para o sistema energético.
Com esses e outros trabalhos, a Volvo está a estudar como as baterias envelhecem e de que forma podem ser reutilizadas - e a reunir mais conhecimento sobre o seu valor comercial após o uso nos automóveis. Isso é bastante relevante para tornar esse ciclo mais competitivo e facilitar uma eventual substituição nos carros, caso esse seja o objetivo do consumidor.
RA - A Volvo vai tornar-se, nesta década, numa marca centenária. Em 1927 nasceram com o foco na segurança, mas hoje há mais preocupações…será um período de reinvenção total?
AM - Nada disso. Em termos de valores, o centro da marca continua o mesmo - a vida, as pessoas. Tudo o que fazemos na Volvo continua a contribuir para a SUA segurança.
Mas de que adianta ter carros inteligentes e seguros se não houver planeta, se não houver futuro? Por isso, elevamos a sustentabilidade ao patamar da segurança. Se há 94 anos salvamos vidas, chegou a hora de ajudarmos a salvar “A” vida… de todos.
A reinvenção não passa tanto pelos valores da marca; passa mais pela transformação do negócio e por como entendemos o automóvel - a posse, o consumo, e o serviço em que queremos transformá-lo. Mas isso já seria tema para outra entrevista!
RA - Dizem, frontalmente, que sobre a poluição e alterações climáticas “são parte do problema”. É uma comunicação “sem filtros” que tem vindo a crescer numa indústria que sempre foi bastante tradicional. Acha que o Dieselgate foi um dos principais culpados pelo acelerar da eletrificação e por esta mudança radical na indústria?
AM - Qualquer indústria poluente é parte do problema. No caso do automóvel, além do processo produtivo existe o próprio produto. Mais ou menos poluentes, todos temos a nossa parcela de responsabilidade - e, na Volvo, queremos contribuir para ser parte da solução.
Por isso, duas das nossas fábricas já são ambientalmente neutras e, em breve, todas serão; e é também por isso que queremos acabar com os motores a combustão.
Todos os episódios, todas as notícias, todos os documentários ajudam na conscientização - das marcas, das pessoas, da sociedade. Sinceramente, acho que a indústria automotiva tem sido, sim, um exemplo para outras: muito mais tradicionais e muito mais poluentes, que seguem operando como há 70, 100 anos, sem mudanças visíveis ou sequer anunciadas.
Mudar o paradigma
RA - A Volvo daqui a nove anos vai vender apenas 100% elétricos. Mas há marcas recentes como a Tesla e outras que vão entrar no mercado europeu em força, que já o fazem desde o primeiro dia. O que é que vai fazer a diferença para o consumidor? Acredita que a história e o legado de uma marca como a Volvo tem peso suficiente na decisão de compra?
AM - Sem dúvida. Quando alguém escolhe uma marca - seja a Volvo ou outra - escolhe também um conjunto de valores com os quais se identifica, uma história, um legado, um ADN.
Costumamos dizer que estar ao volante de um Volvo fala muito sobre a pessoa: um Volvo é muito mais do que um automóvel, é uma forma de estar na vida. O automóvel “das pessoas que se preocupam com as outras pessoas”. Seja qual for a propulsão, isso é único e impossível de imitar.
RA - A Volvo anunciou que a venda dos seus veículos 100% elétricos será feita apenas* online*. Mas para marcar o lançamento do primeiro 100% elétrico, fizeram um “evento físico”. Não é contraditório?
AM - Bom ponto! Acreditamos numa correlação entre o online e o offline. Não pretendemos abandonar o “físico” no processo de venda. Comprar um automóvel tem um forte componente emocional e, do nosso ponto de vista, é essencial que o consumidor sinta, toque e experimente o produto - principalmente quando falamos de uma tecnologia nova, que precisa ser vivida e comprovada.
Por isso, convidamos as pessoas a irem ao Volvo Studio Lisboa, fazer um ensaio dinâmico ao nosso novo 100% elétrico e, quando o Volvo Studio nos deixar (13 de junho), a visitar os nossos concessionários.
O objetivo é, sim, simplificar a vida: o processo começa online, onde o cliente poderá configurar o carro e simular opções de compra, e depois segue para um concessionário da marca, onde a venda será concluída.
RA - Como é que esta digitalização vai afetar os concessionários?
AM - Não vai afetar. Continuamos a apostar, de forma inequívoca, na nossa rede de concessionários como peça essencial no processo de compra - algo comprovado pelo crescimento que a Volvo tem mostrado em Portugal.
Nada substitui o contato humano e a emoção de experimentar o produto; o que estamos a fazer é tornar o processo mais ágil - tanto para o consumidor quanto para o concessionário.
Quem inicia a compra online chega ao concessionário com clareza sobre o que quer: o carro já foi configurado nos detalhes, o modo de aquisição já foi simulado, e só falta aquilo que o online não consegue entregar - o contato… com o automóvel e com as pessoas. Nesse sentido, o papel do concessionário permanece o mesmo.
RA - Em 2020 limitaram os carros a 180 km/h. A partir de 2030 só vão vender 100% elétricos. Há mais novidades a caminho?
AM - Algumas! Já comunicamos, embora ainda não tenhamos introduzido, as câmeras a bordo que vão permitir monitorar o estado do condutor e intervir caso exista risco para si ou para terceiros (fadiga, intoxicação ou doença súbita).
Esta é mais uma inovação diretamente ligada à segurança e que em breve será realidade. Em 2022 teremos algumas novidades sob o lema da “Mobilidade” e outras mais que esperamos ajudem, mais uma vez, a fazer evoluir a indústria! Fique ligado.
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