Pais com maior peso tendem, com mais frequência, a ter filhos também com maior peso. Essa associação aparece em muitos países e se repete de geração em geração.
Durante muito tempo, porém, a causa desse vínculo permaneceu pouco clara. A criança poderia ganhar mais peso por efeitos do período dentro do útero ou, de forma mais simples, por causa dos genes herdados.
Um ciclo que vale a pena quebrar
A obesidade infantil vem aumentando há décadas e tem resistido à maioria das tentativas de reversão. Em países mais ricos, cerca de 30% das crianças já apresentam excesso de peso.
Como o problema surge cedo e se concentra em famílias, a prevenção passou a mirar cada vez mais os pais. A aposta é que pais mais saudáveis antes da gravidez possam favorecer filhos mais saudáveis.
Existe também uma leitura mais preocupante dessa hipótese. Se uma mãe com maior peso transfere risco adicional ao bebé durante a gestação, o peso poderia acumular a cada geração.
Nesse cenário, a obesidade viraria um ciclo que se alimenta sozinho. Para interrompê-lo, seria necessário intervir antes mesmo de a criança ser concebida.
Genes ou o útero
Essas duas explicações levam a orientações muito diferentes. Se o peso na gravidez molda o tamanho futuro da criança, então ajudar os pais a reduzir peso antes da conceção poderia quebrar o ciclo.
Se, por outro lado, os genes forem o principal motor dessa ligação, essa estratégia pode ter impacto limitado. Essa diferença é importante para a saúde pública - e tem sido difícil chegar a uma resposta definitiva.
Dois métodos, uma pergunta
Uma equipa liderada por Tom Bond, da Universidade de Bristol, decidiu investigar a questão com duas abordagens independentes.
O trabalho foi feito em parceria com colegas da Universidade de Queensland, na Austrália, e do Instituto Norueguês de Saúde Pública (NIPH).
A opção por usar dois métodos ao mesmo tempo foi intencional. Quando estratégias com fragilidades distintas apontam na mesma direção, a conclusão tende a ficar muito mais robusta.
Acompanhando milhares de famílias norueguesas
Os dados vieram do Estudo de Coorte Norueguês de Mães, Pais e Crianças (MoBa), que acompanhou crianças nascidas entre 1999 e 2009.
Cerca de 114.500 crianças foram recrutadas enquanto as mães faziam ultrassonografias de rotina. Na análise principal, foram utilizados dados de 85.866 dessas crianças.
O estudo reuniu informações sobre peso ao nascer, índice de massa corporal (IMC) dos seis meses aos oito anos e hábitos alimentares relatados aos oito anos.
Comparando mães e pais
O primeiro teste foi simples e engenhoso. A mãe carrega o bebé durante a gravidez; o pai, não - portanto, o útero só pode conectar diretamente a criança à mãe.
Se o peso materno influenciasse o filho via gestação, o IMC da mãe deveria acompanhar o peso da criança de forma mais estreita do que o IMC do pai.
Já uma associação parecida para ambos os pais sugeriria algo partilhado, como a herança genética.
O peso ao nascer acompanha mais a mãe
No momento do nascimento, o padrão foi nítido. O IMC da mãe mostrou uma ligação mais forte com o peso ao nascer do bebé do que o IMC do pai.
Esse resultado é compatível com a ideia de que o ambiente dentro do útero ajuda a determinar o tamanho ao nascer. Até ali, parecia que a gestação tinha um papel relevante.
Depois, o quadro mudou. Dos dois aos oito anos, mães e pais exibiram associações semelhantes com o peso da criança.
Se o útero fosse o fator dominante, era de esperar que a mãe continuasse muito à frente. Em vez disso, os dois perfis ficaram praticamente iguais, o que apontou para algo que ambos transmitem.
Genes de gémeos e irmãos
A comparação sugeria influência genética, mas não permitia medi-la diretamente. Por isso, a equipa recorreu a um segundo método baseado em relações familiares.
Foram incluídos gémeos, irmãos e meio-irmãos tanto na geração dos pais quanto na das crianças.
Como parentes partilham frações conhecidas do seu material genético, essa “conta” permite que um modelo separe a ligação entre pais e filhos em uma parte genética e outra composta por todos os demais fatores.
Esse tipo de modelo costuma exigir amostras enormes para funcionar bem. As famílias norueguesas ofereceram exatamente isso, com dezenas de milhares de pares de parentesco disponíveis.
Os genes explicam a maior parte
O resultado foi bastante marcante. Os genes responderam por cerca de 79% da associação entre o IMC materno e o IMC da criança aos oito anos, e por aproximadamente 94% da associação no caso dos pais.
Para o peso ao nascer, o padrão foi diferente. Nessa medida, os genes herdados explicaram quase nada da ligação observada com a mãe, o que deixa espaço para a atuação do útero no começo da vida.
"A obesidade ocorre em famílias, mas é difícil entender por quê. Nossos resultados sugerem que a ligação entre o índice de massa corporal (IMC) de uma mãe ou de um pai e o IMC de seus filhos até os 8 anos se deve principalmente aos genes herdados", disse Bond.
"Tínhamos interesse em examinar se a obesidade em mães durante a gravidez também poderia ter efeitos adversos no risco de obesidade em seus descendentes quando as crianças ficam mais velhas", acrescentou o coautor do estudo David Evans.
"Descobrimos que, embora o índice de massa corporal materno durante a gravidez provavelmente afetasse negativamente o peso ao nascer dos filhos, não pareceu ter grandes efeitos sobre o risco de obesidade dos filhos mais tarde na vida além do que é explicado pela transmissão de genes das mães para seus descendentes."
Um segundo método chega ao mesmo ponto
A conclusão não surgiu do nada. Um estudo anterior, feito por alguns dos mesmos autores, já tinha usado dados genéticos de três grupos europeus de famílias.
Naquele trabalho, variantes genéticas comuns herdadas explicaram cerca de 43% da ligação com o IMC da criança aos 15 anos. A nova estimativa ficou mais alta, em parte porque o método familiar capta mais variantes genéticas do que o estudo anterior conseguiu.
Assim, duas abordagens - baseadas em pressupostos diferentes e em amostras diferentes - convergiram. Essa concordância é o que dá força ao resultado.
Hábitos alimentares também “descem” na família
A associação não se limitou ao peso. Filhos de pais com maior peso tenderam a apresentar maior responsividade alimentar e mais episódios de comer em excesso por emoção.
Esses comportamentos podem ser uma das rotas pelas quais os genes influenciam o peso ao longo do tempo. Como o método familiar não tinha poder estatístico suficiente para testar essa hipótese, o caminho exato permanece em aberto.
Para a prevenção, a mensagem é direta. Reduzir o peso dos pais antes da gravidez pode não ser, por si só, suficiente para diminuir muito o risco de obesidade nos filhos.
"Nossas descobertas sugerem que a ligação entre o índice de massa corporal de pais e filhos é impulsionada em grande parte por genes partilhados, e não pelo ambiente intrauterino ou pelo comportamento parental", afirmou Alexandra Havdahl, coautora do estudo.
Pesquisas com animais há muito sugerem que uma mãe com maior peso “programa” seus descendentes para a obesidade. Esses resultados em humanos indicam que essa ideia deve ser encarada com cautela.
Peso saudável continua a ser importante
Os autores fazem uma ressalva importante. Genes não são destino: uma criança que herda maior risco ainda pode ter um desfecho diferente, dependendo do ambiente em que vive.
Eles também enfatizam que a saúde materna na gestação continua a ser crucial. Ter excesso de peso durante a gravidez ainda aumenta riscos reais tanto para a mãe quanto para o bebé.
"Pais que estão à espera de um bebé devem ser incentivados a manter um peso saudável, mas isso pode não ser suficiente para garantir que seus filhos também tenham um peso saudável", disse Bond.
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