Você já ouviu uma voz quando estava totalmente sozinho? Ou teve a sensação nítida de que havia alguém por perto, mesmo sem ver ninguém?
Você não é caso único: cerca de 60 por cento dos norte-americanos acreditam já ter vivido algum tipo de experiência difícil de explicar.
Ainda assim, como aquilo foi para você? Assustador? Inspirador? Talvez tenha despertado uma espiritualidade nova, ou aproximado você da memória de alguém querido que morreu.
Ou, quem sabe, tenha sido o tipo de acontecimento que fez você procurar um médico e sair com um pedido de exame de imagem do cérebro.
Seja qual for o episódio - e qualquer que tenha sido a sua reação - ainda existe pouca pesquisa sobre como as pessoas interpretam e elaboram eventos “estranhos”.
O que o estudo do IDOR investigou
Para entender melhor esse tema, psicólogos sociais do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), no Brasil, decidiram investigar a questão em um novo artigo publicado na revista PLOS One.
O grupo partiu de um instrumento já existente, o Inventário de Experiências Não Ordinárias (INOE), um questionário que pergunta aos participantes se eles já passaram por algum de 38 acontecimentos incomuns e, quando a resposta é “sim”, em que contexto aquilo ocorreu e quais foram as consequências.
A partir dessa base, os pesquisadores criaram uma versão ampliada e aplicaram um questionário de 47 perguntas a 5,117 pessoas no Brasil, para então submeter as respostas a análises estatísticas.
Os achados são tão curiosos quanto se poderia imaginar.
"Experiências como sentir uma presença, ter uma visão ou perceber como se estivesse observando a si mesmo de fora do próprio corpo são muito mais comuns na população geral do que as taxas de diagnóstico clínico sugeririam", afirma o autor sênior Ronald Fischer, psicólogo do IDOR.
"Observamos que a maioria das pessoas na nossa amostra de mais de 5.000 participantes que relata essas vivências não está doente, e a maioria as descreve como neutras ou positivas - tanto no momento em que acontecem quanto depois, ao olhar para trás e refletir sobre a experiência."
O que foi considerado uma experiência não ordinária
Entre os eventos classificados como “não ordinários”, entraram situações como:
- emoções repentinas e intensas, como alegria, admiração ou medo;
- ver visões;
- ouvir vozes;
- experiências fora do corpo;
- sensação de “eu” diminuído;
- percepção da presença de pessoas falecidas ou de forças extraordinárias;
- déjà vu;
- percepção extrassensorial;
- experiências de quase morte;
- sonhos lúcidos;
- sensação de ter vivido vidas passadas.
Quando alguém indicava ter vivido qualquer uma dessas situações, passava a responder perguntas adicionais sobre as circunstâncias do episódio. Isso incluía o estado mental do participante - por exemplo, se estava acordado e atento, sonhando, pegando no sono ou despertando, ou sob efeito de drogas ou álcool - e também o local em que se encontrava.
Além disso, os participantes informavam quanto tempo a experiência durou, com que frequência ela ocorreu e a idade aproximada em que aconteceu (ou começou).
Na sequência, eram perguntados sobre quem ou o que consideravam responsável pelo ocorrido - como deuses, anjos, demónios, espíritos ou outras entidades - e por que acreditavam ter sido “escolhidos” para passar por aquilo.
Por fim, avaliavam se o evento ajudou ou atrapalhou o que estavam a fazer naquele momento, se foi algo agradável ou desconfortável e que impacto teve em suas vidas depois.
O que os resultados revelaram
Os resultados chamaram a atenção.
Mais de 60 por cento disseram que a experiência aconteceu quando estavam acordados e alertas, e quase 40 por cento estavam sozinhos no momento. Cerca de 36 por cento afirmaram que o episódio durou alguns minutos, enquanto 27 por cento relataram algo muito rápido ou quase instantâneo.
Aproximadamente 19 por cento disseram que não conseguiram acompanhar a passagem do tempo durante o evento.
De forma surpreendente, o número mais comum de ocorrências para uma mesma pessoa foi de duas a três vezes, mencionado por 38 por cento dos respondentes. Outros 30 por cento afirmaram que aquilo aconteceu apenas uma vez.
Dois terços indicaram que a experiência ocorreu ou começou quando já eram adultos, enquanto mais de 20 por cento relataram algo fora do comum na adolescência.
Como as pessoas explicaram e sentiram essas vivências
Um ponto interessante surgiu quando se perguntou quem teria causado a experiência: 36 por cento disseram não acreditar que alguém tenha sido responsável. A opção seguinte, com maior frequência, foi “um deus ou deuses”, com 16 por cento, e 11 por cento atribuíram o evento a algum tipo de espírito santo.
Num padrão parecido, ao serem questionados sobre o motivo de aquilo ter acontecido, 41 por cento apontaram o acaso, enquanto 28 por cento disseram ter sido um “sinal” ou uma mensagem.
As respostas ficaram relativamente equilibradas quanto à possibilidade de a ciência conseguir - agora ou no futuro - explicar esse tipo de experiência. Mesmo assim, a balança inclinou-se, ainda que por pouco, para a ideia de que “não, há algo mais envolvido”.
Quase metade dos participantes relatou sentir alegria ou bem-estar durante a experiência, e menos de um quarto disse ter sentido sofrimento ou desconforto.
Cerca de metade também afirmou ter percebido efeitos positivos ou muito positivos na vida depois do episódio, enquanto menos de 15 por cento relataram impactos negativos.
"Para muitas pessoas, experiências assim podem ser cheias de significado e levar a crescimento pessoal e insight", diz Fischer.
"Dar visibilidade a esses possíveis desfechos positivos é importante para ajudar as pessoas a entender o que viveram e para contribuir com a normalização dessas experiências."
Por que isso importa
Segundo os autores, vivências desse tipo continuam pouco estudadas no meio académico. Mas, independentemente do que de facto esteja a acontecer, compreendê-las com mais detalhe pode ajudar a oferecer melhor apoio a quem relata eventos incomuns.
"O mais importante é que esperamos que o nosso trabalho ajude a reduzir o estigma ao focar nas diferentes formas como as pessoas vivenciam e dão sentido a essas experiências", afirma Fischer.
"No entanto, também queremos enfatizar que, se as pessoas sentirem que essas experiências interferem nas suas atividades diárias, devem conversar com um profissional ou procurar ajuda de alguém em quem confiem."
A pesquisa foi publicada na revista PLOS One.
Este artigo passou por verificação de factos feita por Rachel Garner e edição de Rebecca Dyer. Embora nos orgulhemos do nosso processo, somos humanos. Se você notar algum erro, por favor, avise-nos.
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