Proteger a saúde do coração o máximo possível pode exigir bem mais exercício do que as recomendações atuais costumam indicar.
Hoje, especialistas em saúde geralmente aconselham 150 minutos por semana de atividade física moderada a vigorosa (MVPA).
Exercício e saúde do coração: o que o Biobanco do Reino Unido sugere
E se você treinar acima desse patamar?
Uma análise de dados de saúde do Reino Unido indica que, quanto mais atividade física uma pessoa faz, melhores tendem a ser os resultados para o sistema cardiovascular.
A avaliação de longo prazo foi realizada por pesquisadores na China e incluiu 17,088 participantes do Biobanco do Reino Unido, acompanhados por aproximadamente oito anos.
Entre as pessoas que atingiam as recomendações atuais, o risco de sofrer um evento cardiovascular grave - como infarto ou AVC - foi 8 a 9 por cento menor.
Já quem praticava de três a quatro vezes esse volume apresentou uma redução de risco superior a 30 por cento.
Isso equivale a cerca de 9 a 10 horas de exercício por semana, um total intimidador diante da rotina corrida de hoje. Por outro lado, os desfechos associados também foram muito mais expressivos, sobretudo em quem parte de um nível de condicionamento mais baixo.
O que “mais minutos” significa na prática
Um comunicado sobre o estudo, divulgado pelo Jornal Médico Britânico (BMJ), defendeu que "as recomendações atuais de exercício são baixas demais" e que "pessoas menos condicionadas precisam fazer mais exercício para obter os mesmos benefícios".
Aiden Doherty, bioinformata da Universidade de Oxford e que não participou do trabalho, diz que essa leitura é "enganosa".
Segundo Doherty, a principal mensagem do estudo é, na prática, que qualquer incremento conta - especialmente para quem tem baixo condicionamento.
"Não podemos dar muito peso ao número de 560 a 610 minutos de exercício por semana", escreveu Doherty em uma análise independente para o Centro de Mídia Científica.
"É evidente que haverá benefício cardiovascular para pessoas que conseguem fazer mais de 1 hora e 20 minutos por dia de atividade física moderada a vigorosa, mas essa não é uma mensagem sensata de saúde pública".
Independentemente do que diga o comunicado, os autores do estudo - liderados por Zhide Liang, da Universidade Politécnica de Macau, na China - concordam com Doherty que as recomendações atuais devem ser mantidas.
Eles observam que, mesmo hoje, grandes parcelas da população não atingem as metas vigentes. Por isso, "a principal mensagem de saúde pública continua direta: atingir 150 min/semana de MVPA oferece proteção cardiovascular relevante independentemente do nível de condicionamento".
Para quem lê, é um alívio saber que não é obrigatório passar o dia inteiro na academia para que o coração colha os benefícios do exercício.
Evidências, números e limitações do estudo
Na amostra do Biobanco do Reino Unido, ocorreram 1,233 eventos cardiovasculares graves ao longo de quase oito anos, incluindo fibrilação atrial, infartos, insuficiência cardíaca e AVC.
O cardiologista Steffen Petersen, da Universidade Queen Mary de Londres, escreveu em uma perspectiva independente que se trata de um "estudo observacional grande e bem conduzido".
Embora esse tipo de pesquisa consiga apontar associações - e não provar causa e efeito -, os autores aplicaram um método de inferência chamado randomização mendeliana para se aproximar da causalidade.
"Um ponto forte importante deste trabalho é o uso de atividade e condicionamento medidos por dispositivos, e não por autorrelato, o que aumenta a confiança nas relações de dose–resposta observadas", acrescenta Petersen.
Os resultados mostram uma escalada acentuada nos desfechos cardiovasculares conforme a “dose” semanal de exercício. Para obter, por exemplo, uma redução de risco de 20 por cento, foi necessário realizar cerca de 340 a 370 minutos de exercício por semana (mais do que o dobro do recomendado atualmente).
Ainda assim, pessoas com o menor nível de condicionamento tiveram de investir mais tempo para alcançar ganhos equivalentes. Para esse grupo atingir a mesma redução de 20 por cento, a análise sugere algo em torno de 30 a 50 minutos adicionais de MVPA por semana, em comparação com quem tem condicionamento mais alto.
"Importante: essas descobertas, ao mesmo tempo, reforçam o valor para a saúde pública da recomendação atual de 150 min/semana", concluem os autores.
"Esse limiar funciona como um mínimo universal robusto… "
Para ampliar ainda mais a proteção do coração, provavelmente seria necessário aumentar mais o volume de atividade física. Mas é essencial manter o realismo.
Somente 12 por cento dos participantes da amostra do Biobanco alcançaram pelo menos 560 minutos de exercício por semana, "indicando que, embora tais volumes sejam atingíveis, eles representam um limiar comportamental alto para a maioria das pessoas".
A comunicação em saúde pública precisa considerar esse ponto - por isso, normalmente trabalha com uma recomendação mínima.
Ao mesmo tempo, também é importante definir com precisão quanto exercício cada pessoa precisa para chegar ao máximo de benefícios de saúde.
Agora, são necessários ensaios clínicos randomizados e controlados para verificar se esses patamares mais altos de exercício realmente se traduzem em melhor saúde do coração.
O estudo foi publicado no Jornal Britânico de Medicina do Esporte.
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