Avanço dos construtores chineses no mercado europeu
Nos últimos anos, os construtores chineses vêm apostando pesado no mercado europeu - e os resultados já aparecem com clareza. Se em 2021 a participação era quase insignificante (0,5%), na primavera deste ano ela já passava de 9%, sem sinais de desaceleração.
Apesar de algumas marcas chinesas estarem começando a considerar produção dentro da Europa (como a BYD), o cenário predominante ainda é outro: mesmo com o crescimento das vendas, a maior parte das montadoras segue trazendo seus carros diretamente da China. Com isso, ficam sujeitas a tarifas aduaneiras que podem chegar a 45,3%.
E, ao que tudo indica, a União Europeia não quer limitar sua resposta a tarifas. Os construtores chineses seguem sendo encarados como um risco para a indústria automotiva europeia e, por isso, o bloco vem anunciando um pacote mais duro de medidas protecionistas.
Uma das iniciativas centrais anunciadas pela União Europeia é o Industrial Accelerator Act (Lei do Acelerador Industrial). A proposta legislativa busca resguardar a indústria e os empregos europeus ao impor condições mais rígidas ao investimento estrangeiro. Segundo especialistas, a lei pode começar a valer já em meados do próximo ano.
O que preocupa os construtores chineses
É justamente essa proposta que acendeu o alerta entre os construtores chineses. Se o texto avançar, qualquer fabricante que queira erguer uma fábrica na Europa terá de atender a um conjunto de exigências bem apertadas:
- Formar joint-ventures em que o parceiro europeu detenha o controle majoritário (as marcas chinesas não podem passar de 49%);
- Compartilhar e licenciar propriedade intelectual (tecnologia e patentes) com a entidade europeia;
- Manter, no mínimo, 50% de trabalhadores europeus (esta é a única regra não negociável);
- Adotar fornecedores e componentes locais.
Diante desse quadro, as montadoras chinesas se veem pressionadas por uma corrida contra o relógio para se estabelecerem na Europa antes que essas regras entrem em vigor.
Comprar em vez de construir
Construir uma fábrica do zero exige um prazo longo - algo que os construtores chineses não têm neste momento. Por isso, a alternativa que vem ganhando tração é comprar ou firmar parcerias em instalações industriais já existentes, mas que hoje operam abaixo da capacidade ou até estão paradas.
Várias montadoras já estão seguindo esse caminho. A BYD, que ergueu uma fábrica na Hungria e está construindo outra na Turquia, agora procura ativamente unidades subutilizadas na Itália e na Espanha.
A Chery adquiriu a antiga fábrica da Nissan em Barcelona e negocia com a montadora japonesa a produção em Sunderland (Reino Unido, onde atualmente são fabricados o Leaf e o Qashqai). A Leapmotor vai produzir seus modelos em parceria com a Stellantis em Madri e Saragoça, enquanto a Dongfeng se prepara para montar sua linha premium na fábrica da Stellantis em Rennes. Já a Geely negocia a compra de parte de uma unidade da Ford em Valência.
Acordos, fábricas e metas de volume na União Europeia
A SAIC, proprietária da MG, por sua vez abrirá a primeira fábrica do grupo na União Europeia, na Galícia, com capacidade para 120 mil veículos por ano. A XPeng, pelo que se sabe, mantém conversas com a Volkswagen e outros construtores para comprar uma fábrica europeia, embora já fabrique modelos nas instalações da Magna Steyr, na Áustria.
Citado pela Automotive News Europe, o analista da Jefferies, Philippe Houchois, sintetizou o momento: “os construtores chineses sempre ambicionaram produzir na Europa, mas começam agora a perceber que essa oportunidade pode estar a tornar-se mais limitada”.
Segundo a mesma consultoria, levando em conta os planos já conhecidos dos construtores chineses - caso se concretizem -, o resultado pode significar mais de dois milhões de carros produzidos no continente europeu.
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