A NASA oficializou a tripulação da Artemis III: Randy Bresnik, Frank Rubio, Andre Douglas e Luca Parmitano. O último, astronauta da Agência Espacial Europeia (ESA), está prestes a colocar o seu nome na história do continente europeu. Veja por que a trajetória dele é tão singular.
Um novo capítulo está em curso. Ao ser escalado para a Artemis III, o italiano Luca Parmitano se torna o primeiro astronauta europeu a integrar uma missão do programa lunar norte-americano - um marco inédito, mais de meio século depois de Apollo.
E o papel dele será determinante. Como piloto da cápsula Orion, Parmitano ficará diretamente responsável pelos comandos nas manobras de acoplagem mais sensíveis da missão, incluindo operações de encontro em órbita baixa com dois módulos de pouso lunar: o Blue Moon, da Blue Origin, e o Starship, da SpaceX. Trata-se de uma coreografia de altíssima precisão, sem precedentes pela dificuldade: três dos foguetes mais potentes do planeta terão de operar em perfeita coordenação ao longo de poucas semanas para que a missão aconteça como planejado.
Vale reforçar: aqui, a meta não é pousar na Lua, e sim colocar à prova, em condições reais, todos os sistemas e procedimentos que permitirão que a Artemis IV faça isso. “É realmente uma missão dos sonhos para um piloto de testes”, contou o italiano.
Um piloto militar que virou astronauta de elite
Os quatro nomes escolhidos pela NASA para a Artemis III têm origem nas Forças Armadas. Randy Bresnik voou caças F/A-18 em missões de combate pelos Marines; Frank Rubio acumulou mais de 600 horas de voo de combate pilotando um Black Hawk no Exército dos Estados Unidos; e Andre Douglas serviu na Guarda Costeira norte-americana. Para uma missão com exigência técnica desse nível, esse perfil não é coincidência.
Luca Parmitano segue a mesma linha. Antes de entrar no corpo de astronautas da ESA, em 2009, o italiano construiu a carreira na Aeronáutica Militar Italiana, avançando até a patente de coronel. Em 2007, foi selecionado para se tornar piloto de testes e passou pela EPNER, a renomada escola francesa de pilotos de testes em Istres, considerada uma das mais prestigiadas do mundo nessa área.
No total, ele soma mais de 2.000 horas de voo em mais de 40 tipos diferentes de aeronaves civis e militares, de caças a helicópteros.
366 dias no espaço em duas missões marcantes
A experiência de Luca Parmitano em órbita é extensa. O astronauta italiano acumula 366 dias no espaço, distribuídos em duas longas missões na Estação Espacial Internacional (ISS). Ele está entre os europeus mais experientes da sua geração.
A primeira missão, Volare, levou Parmitano à ISS em 2013. Foi um mergulho direto na rotina operacional: já nesse primeiro período, ele realizou as primeiras atividades extraveiculares e se adaptou à vida em microgravidade, aos sistemas complexos da estação e ao nível de coordenação internacional que esse tipo de expedição exige.
Foi na segunda missão, Beyond, em 2019, que ele avançou ainda mais. Parmitano assumiu o comando da Estação Espacial Internacional - um feito raro para um astronauta da ESA nos últimos anos e, ao mesmo tempo, uma demonstração clara de liderança em um ambiente extremo. Durante a expedição, ele coordenou centenas de experimentos científicos a bordo, conciliando rotinas operacionais com as demandas do programa de pesquisa internacional.
De volta à Terra, Parmitano passou a atuar no Johnson Space Center, em Houston, como representante da ESA. Lá, também assumiu funções como CAPCOM - a voz em solo que conversa diretamente com os astronautas em missão - e participou do treinamento de futuros astronautas europeus em atividades extraveiculares e operações robóticas. Uma posição estratégica que o manteve próximo do dia a dia da NASA e ajudou a preparar, por dentro, o seu retorno ao espaço.
Um recordista em atividades extraveiculares
Ao todo, o astronauta já realizou 6 atividades extraveiculares, com um total de mais de 30 horas no vácuo do espaço. Esses números o colocam entre os europeus mais experientes nesse tipo de operação.
E não foi exatamente simples: em 2013, Parmitano viveu um dos episódios mais tensos já registrados em uma atividade extraveicular na ISS. Água começou a entrar no seu capacete, criando um risco real de afogamento. A operação precisou ser abortada às pressas, e Parmitano voltou ao módulo de ar quase sem enxergar, com o rosto gradualmente coberto por uma película líquida que comprometia visão e audição. O incidente poderia ter sido fatal e levou a NASA a revisar profundamente os protocolos de segurança relacionados aos trajes espaciais.
Longe de se deixar abalar, Parmitano voltou a executar tarefas complexas na missão Beyond. Ele participou, por exemplo, de uma das atividades extraveiculares mais difíceis já realizadas: o reparo do detector de matéria escura AMS-02, instalado na parte externa da estação. Uma intervenção delicada em microgravidade, em que ele e os colegas precisaram improvisar ferramentas inéditas e criar procedimentos completamente novos.
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