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Na era da eletrificação, a terceirização dos motores de combustão e a Horse (Renault e Geely)

Carro elétrico esportivo prateado em exibição dentro de showroom moderno com janelas grandes.

Por décadas, falar de carro também era falar de motor. Siglas e arquiteturas como TDI, VTEC, boxer, turbo, 16 válvulas ou EcoBoost não eram só detalhes técnicos: ajudavam a construir a identidade de modelos e marcas desde praticamente a origem do automóvel.

Só que esse cenário está mudando rápido. A corrida pela eletrificação, a busca por cortes de custo e a pressão regulatória cada vez maior estão empurrando as montadoras para soluções mais baratas do que desenvolver e produzir motores a combustão internamente. A terceirização (subcontratação) vem aparecendo como o caminho mais provável.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

O lugar do motor a combustão está sendo redefinido, em grande parte, pela eletrificação. Em sistemas híbridos, o motor elétrico ganha cada vez mais protagonismo para garantir desempenho e economia de combustível, enquanto o motor a combustão vai ficando em segundo plano e, em alguns casos, vira praticamente um gerador - no fim, pouca gente se importa se tem turbo, injeção direta ou três ou quatro cilindros.

John Lawler, vice-presidente da Ford, disse à Automotive News Europe que hoje “os consumidores não pensam da mesma forma sobre motorizações como há 30 anos”. A eletrificação está deixando os conjuntos motrizes mais parecidos entre si - entrega linear, torque instantâneo e ausência de som -, então o motor passa a ser só mais um componente do carro e perde força como diferencial frente à concorrência.

“Antes, o motor definia o carro - potência, cilindrada, binário -, mas grande parte disso desapareceu.”

John Lawler, vice-presidente da Ford

Essa mudança de percepção vem abrindo espaço para mais sinergias entre fabricantes, com o objetivo de reduzir custos.

Além dos investimentos altos que já estão fazendo em eletrificação, as montadoras também precisam enfrentar a nova concorrência chinesa, muito mais agressiva em termos de custo.

Segundo John Lawler, os fabricantes chineses operam com uma estrutura de custos cerca de 30% inferior em relação a “qualquer outro no mundo”. Além disso, têm uma sobrecapacidade interna de produção de 10-11 milhões de unidades que só pode ser preenchida com uma expansão agressiva para outros mercados. Reduzir custos e ganhar competitividade virou questão de sobrevivência.

O que se economiza no desenvolvimento de motores a combustão pode ser direcionado para onde os construtores chineses estão ditando o ritmo: software e eletrificação.

“Os construtores chineses vão tornar-se uma força a ter em conta a nível global, e nós vamos ter de competir com eles à mesma escala.”

John Lawler, vice-presidente da Ford

Horse é caso paradigmático

Nesse novo mundo, em que o motor a combustão tende a virar um componente padronizado - sobretudo no mercado de volume -, compartilhado até entre rivais, a Horse já é um exemplo claro. A joint venture do Grupo Renault com a Geely se dedica exclusivamente ao desenvolvimento e fornecimento de motores térmicos e sistemas híbridos.

A Horse não abastece apenas o Grupo Renault e a Geely com motores a combustão. Qualquer montadora pode ser cliente. E cliente ela já tem, por exemplo, a Mercedes-Benz: o novo CLA mild-hybrid usa um motor desenvolvido em parceria com a Horse e será produzido na China.

Isso mesmo com a Mercedes tendo no portfólio um motor de capacidade equivalente e com o mesmo número de cilindros, encontrado no Classe C ou no CLA atual.

A escolha pela Horse deve permitir à Mercedes economizar recursos que seriam necessários para adequar seu motor equivalente à norma Euro 7 (entra em vigor em 29 de novembro de 2026).

Provavelmente veremos mais marcas adotando motores de terceiros, de empresas como a Horse. A pressão por custos mais baixos é enorme e, se para continuar competitivas elas precisarem cortar investimentos em motores a combustão, dificilmente vão pensar duas vezes.

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