Homens podem contrair tipos perigosos de papilomavírus humano (HPV) na boca ao longo de toda a vida, segundo uma pesquisa recente.
Os autores defendem que, para reduzir o aparecimento de cancros associados ao HPV na garganta e na boca, as conclusões ajudem a ampliar a cobertura vacinal não apenas entre rapazes, mas também entre homens de meia-idade que não tiveram a oportunidade de se vacinar quando mais novos.
Cancros orofaríngeos e a relação com uma infeção evitável
Os cancros orofaríngeos - que se desenvolvem na garganta e na boca - atingiram níveis epidémicos em algumas regiões do mundo, incluindo os EUA e a Europa. Além disso, os homens recebem esse diagnóstico com muito mais frequência do que as mulheres, mesmo quando não apresentam outros fatores de risco tradicionais para cancro, como tabagismo ou consumo de álcool.
Novos dados obtidos nos EUA, no Brasil e no México indicam que uma infeção prevenível pode estar a alimentar esse aumento.
Risco de HPV oral em qualquer idade
Ao analisar 3,137 homens saudáveis, com idades entre 18 e 70 anos, os investigadores observaram que o risco de adquirir uma nova estirpe de HPV capaz de causar cancro “não diferiu por idade”. Em termos práticos, isso significa que os homens permaneceram suscetíveis à infeção durante toda a vida, e não apenas na juventude.
O HPV pode ser transmitido por via sexual. E, embora nem todas as estirpes do vírus levem ao cancro, os tipos HPV-16 e HPV-18 aparecem em até 90% dos casos de cancro oral associado ao HPV.
A notícia positiva é que existe vacina - e ela protege contra essas duas estirpes.
Vacinação contra o HPV e a diferença entre rapazes e raparigas
O problema é que rapazes jovens estão a receber a vacina contra o HPV em taxas muito inferiores às de raparigas jovens. Esse desequilíbrio pode ajudar a explicar por que os cancros orofaríngeos continuam a aumentar, ao mesmo tempo que os casos de cancro do colo do útero despencam.
Atualmente, os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) recomendam que todos os jovens no país se vacinem contra o HPV até os 26 anos, com o objetivo de prevenir certos cancros fatais. Acima dessa idade, porém, a vacina é indicada apenas para homens imunocomprometidos ou com outros fatores de risco.
“HPV vaccination of people in this age range provides less benefit, for several reasons, including that more people in this age range have already been exposed to HPV”, diz o site do CDC.
Ainda assim, essa lógica pode não ser tão sólida quanto parece. Poucos estudos investigaram de forma rigorosa o risco ao longo da vida de infeções orais por HPV em homens. E, quando o fazem, muitas vezes concentram-se apenas em homens que têm parceiros sexuais masculinos.
Além disso, sexo oral não é a única forma de contrair HPV na boca: alguns relatos sugerem que o vírus também pode circular por meio de dedos, boca e contacto pele a pele.
O que o estudo mediu (EUA, Brasil e México)
No estudo atual, conduzido por uma equipa liderada por investigadores do Moffitt Cancer Center, na Florida, foram recolhidas duas amostras de bochecho oral de participantes do sexo masculino em pelo menos duas ocasiões, entre 2007 e 2016.
Logo no início, quase 20% do grupo já apresentava infeção oral por HPV, e quase 6% tinha uma estirpe conhecida por causar cancro.
“Nosso estudo reforça a importância de manter vigilância contínua contra infeções orais por HPV”, explica a epidemiologista Anna Giuliano, fundadora do Center for Immunization and Infection Research in Cancer, no Moffitt.
“A taxa consistente de aquisição de HPV em diferentes idades e as variações regionais significativas exigem estratégias de vacinação adaptadas e maior consciencialização para ajudar a prevenir cancros orofaríngeos relacionados ao HPV.”
HPV-16: prevalência, fatores de risco e impacto com a idade
Entre os tipos identificados, o HPV-16 foi o mais frequente no grupo estudado. Os fatores associados à aquisição dessa estirpe incluíram consumo de álcool, ter parceiros sexuais masculinos, maior número de parceiras femininas ao longo da vida, maior quantidade de sexo oral praticado e maior nível de escolaridade.
Com o avanço da idade, aumentou a probabilidade de desenvolver cancros orais ligados ao HPV-16.
A epidemiologista Karin Sundström, do Instituto Karolinska, na Suécia - que não participou da pesquisa - concordou que os resultados são “of high priority to disseminate, since they will inform modeling studies and public health efforts more thoroughly than the currently rather patchy data we possess on oral HPV infections over the life span.”
O estudo foi publicado na revista Nature Microbiology.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário