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NASA investiga plumas coloridas na Mid-Atlantic Bight (MAB) com o satélite PACE

Satélite orbitando sobre recife colorido em tons de azul e verde no oceano perto da costa.

Há algumas semanas, um cenário fora do comum passou a chamar atenção nas águas costeiras do Atlântico Norte - a ponto de acionar equipes científicas da NASA. Afinal, o que está acontecendo?

No início de abril, satélites da NASA detectaram grandes plumas de água com cores muito vivas ao largo da costa dos Estados Unidos, combinando tons de verde, turquesa e marrom. A coloração aparece na Mid-Atlantic Bight (MAB), uma ampla enseada aberta para o oceano Atlântico que se estende por cerca de 1.000 km ao longo da costa Leste do país. Trata-se de uma área singular porque recebe água doce de cinco estuários: a Baía de Chesapeake, a Baía de Delaware, o estuário Hudson/Raritan, o braço de mar Long Island Sound e o sistema Albemarle-Pamlico.

Mid-Atlantic Bight (MAB): um mosaico de águas e partículas

A MAB forma um ecossistema bastante irregular, já que mistura diferentes tipos de água - cada um com seus próprios sedimentos, matéria orgânica e organismos microscópicos. Essa sobreposição de fontes cria “ruído” na observação remota e torna a leitura das imagens orbitais especialmente complexa, o que ajuda a explicar por que os pesquisadores ainda não fecharam um diagnóstico definitivo sobre o que, exatamente, está por trás do que foi visto.

Ler o oceano a partir da órbita: a saúde de um ecossistema em uma imagem

Para oceanógrafos, áreas costeiras como a MAB são bem mais difíceis de interpretar e estudar do que o oceano aberto, que costuma ser mais uniforme. Como concentram sedimentos e aportes orgânicos vindos de diversos rios e estuários, as informações visuais que essas regiões “devolvem” aos sensores são densas demais para uma análise simples.

É por isso que o uso de satélites se torna tão valioso: eles podem oferecer evidências visuais que ajudam a acompanhar e proteger zonas costeiras sensíveis. Essa é justamente a proposta do PACE (Plankton, Aerosol, Cloud, Ocean Ecosystem), o satélite mais recente da agência norte-americana, lançado em 2024.

Enquanto missões anteriores registravam apenas algumas faixas espectrais separadas, o principal instrumento do PACE - o OCI (Ocean Color Instrument) - é hiperespectral e consegue decompor a luz em 200 comprimentos de onda. Na prática, isso permite distinguir melhor as assinaturas ópticas de diferentes fontes (algas, material terrestre etc.), mesmo quando, a olho nu, elas parecem ter a mesma cor.

Com base nas imagens da pluma captadas pelo PACE (veja abaixo), Anna Windle avalia que o evento provavelmente tem origem biológica, embora a contribuição de sedimentos não possa ser descartada. Ela afirma: “Provavelmente há florações de fitoplâncton [nota do editor : proliferações importantes e súbitas de microalgas na superfície da água] em andamento”. E acrescenta: “As diatomáceas geralmente dominam as florações no começo da primavera, mas também estamos observando sinais de coccolitóforos misturados”.

Diatomáceas e coccolitóforos: a combinação incomum

As diatomáceas são algas microscópicas unicelulares presentes praticamente em qualquer lugar onde exista água salgada e luz. Sua estrutura externa (a frústula) é formada por sílica - o principal componente do vidro. Elas respondem por cerca de 20% do oxigênio que respiramos na Terra por meio da fotossíntese e são as principais responsáveis pelo tom esverdeado observado na água. Por causa dessa “carapaça”, elas refletem a luz de modo diferente de outras microalgas de corpo mais macio.

Já os coccolitóforos são organismos do fitoplâncton recobertos por pequenas placas calcárias chamadas cocólitos. Essas placas espalham a luz de outra forma e produzem a coloração turquesa leitosa típica do fim da primavera ou do verão na MAB.

O ponto que chama atenção é que ver coccolitóforos ao mesmo tempo que diatomáceas não é comum. Em geral, as duas comunidades aparecem em sequência: as diatomáceas dominam o início da primavera e, depois, dão lugar aos coccolitóforos. Estes últimos tendem a se multiplicar apenas quando a água já está suficientemente pobre em sílica - um nutriente essencial para as diatomáceas construírem sua frústula, mas que não é necessário aos coccolitóforos.

Para Oscar Schofield, oceanógrafo da Universidade Rutgers, o fato de esses dois grupos estarem compartilhando a região agora sugere que o ciclo biológico de primavera da MAB está perto do fim, enquanto o padrão de verão ainda não se instalou por completo. Ele explica: “Com o tempo, à medida que as grandes florações de primavera se desenvolvem, elas esgotam os nutrientes. A menos que cheias fluviais importantes ou tempestades os renovem, essa floração provavelmente começará a diminuir nas próximas semanas”.

O processo, portanto, segue uma lógica sazonal reconhecível - mas há grande chance de essa dinâmica se desorganizar em 15 ou 20 anos, principalmente por causa do aquecimento global, que eleva a temperatura dos oceanos a níveis potencialmente letais. Na MAB (assim como em muitas outras áreas costeiras vulneráveis), essa alternância de estações sustenta toda a cadeia alimentar marinha. Se as microalgas florescerem cedo demais ou tarde demais em relação ao calendário biológico do restante do ecossistema, o risco de um efeito dominó é concreto. Com menos zooplâncton, haverá menos larvas de peixe se alimentando - e menos delas chegarão à vida adulta: as águas ficarão mais pobres e os recursos pesqueiros da costa Leste dos EUA tenderão a cair junto.

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