O Smart #5 chega como um SUV elétrico grande e consegue, ao mesmo tempo, surpreender e fascinar. Surpreende porque a Smart nunca tinha se aventurado num modelo desse porte. Fascina porque, na prática, quase tudo no novato parece dar muito certo. Fica a pergunta: existe algum “porém” escondido?
No meu uso, há um ponto que realmente incomoda: a ergonomia é desnecessariamente complicada… e basicamente é só isso. De resto, o Smart #5 impressiona - e impressiona ainda mais por ser a estreia da marca no segmento dos SUVs grandes (4,70 m de comprimento e 1,92 m de largura). Para uma primeira investida, o resultado é tão bem resolvido que deixa claro como a Smart soube ler o mercado… com a ajuda de Mercedes e Geely, é verdade.
O visual com jeito de mini Jeep, mini Hummer ou mini Land Rover ao menos foge do lugar-comum, especialmente neste verde fosco que aproxima o Smart #5 de um veículo militar. O capô é plano “como a Bélgica”, e o para-brisa inclina “como a Torre de Pisa”. Com 20 cm de altura livre do solo, ele ainda encara alguns trechos mais castigados e atravessa alagados de até meio metro de profundidade.
Quase 600 cv sob o capô: um monstro de potência… com suavidade
Ele também está longe de ser lerdo. Com 588 cv e 643 Nm de torque, gerados por um conjunto com dois motores elétricos, o alemão vai de 0 a 100 km/h em 4,9 s e chega a 200 km/h de velocidade máxima. Esses números são do nosso carro avaliado, o Summit Edition. E dá para ir além: a versão Brabus derruba o 0–100 km/h para 3,8 s graças aos 646 cv. O preço a pagar é conviver com um visual “tuning” que não combina muito com a proposta deste Smart.
Porque, no fundo, o carro é claramente afinado para o conforto. A suspensão é macia e, como efeito colateral, a carroceria balança bastante em curvas. Em acelerações fortes e frenagens mais firmes, ele tende a levantar a dianteira e mergulhar. Em piso escorregadio, as rodas patinam com facilidade. A direção, bem leve no modo Conforto, endurece pouco no modo Sport. Em resumo: não há por que dirigir com pressa, mesmo com toda essa reserva de potência disponível.
A arte da suspensão “macia”: o segredo do conforto sem eletrónica
A suavidade é a prioridade, e o Smart #5 se destaca pela forma como o acerto “fofo” de suspensão filtra buracos e irregularidades. Não há aqui nenhum recurso técnico sofisticado: ele usa molas metálicas que trabalham por conta própria, sem qualquer intervenção eletrónica. O clima a bordo fica realmente aconchegante, com bancos agradáveis, ainda que faltem melhor apoio lateral e ajuste do comprimento do assento.
Os assentos são apenas aquecidos - não há massagem nem ventilação. Em compensação, o isolamento acústico é de alto nível, ajudado pelos vidros laminados. Na estrada, reina um silêncio surpreendente, apesar de a carroceria estar longe de ser “aerodinâmica”. E o carro ainda oferece áreas envidraçadas muito grandes, que deixam o interior mais claro e ajudam a reduzir pontos cegos na cidade. É raro.
Plataforma 800V: 18 minutos para voltar à estrada, o novo padrão?
A bateria de 100 kWh promete 540 km no ciclo WLTP e mais de 350 km em uso real a 130 km/h. Não é um número extraordinário por causa do consumo (27 kWh/100 km/h). Onde o Smart #5 realmente brilha é na carga rápida, ao ponto de atropelar boa parte dos concorrentes. A plataforma de 800V aceita até 400 kW em corrente contínua (DC), uma das potências mais altas do mercado.
Sair de 10 a 80% leva menos de 18 minutos. Com paradas bem planeadas, quase não dá tempo de esperar: uma ida rápida ao banheiro já pode devolver energia suficiente para seguir até o próximo carregador. Só não dá para esquecer o pré-aquecimento da bateria antes da recarga - algo que o carro faz automaticamente via GPS. Ainda assim, encontrar um carregador capaz de entregar esse nível de potência continua sendo, por enquanto, um desafio.
O ponto fraco: por que a ergonomia pode fazer você ranger os dentes
Outro desafio é se habituar aos comandos, especialmente para quem já tem uma certa idade. O Smart #5 esconde muitas funções na tela de 13 polegadas, e isso pesa contra a ergonomia. Para piorar, os menus não seguem uma lógica muito clara, e desativar assistências de condução exige atenção e dedos ágeis. Se isso já dá trabalho parado, imagine em movimento…
O controle do ar-condicionado também foi parar no meio dessa confusão digital. Claro - seria fácil demais se fosse direto. Existem atalhos na faixa inferior da tela, mas ainda assim é preciso navegar depois. Felizmente, os botões no volante continuam físicos, assim como os comandos das luzes. Melhor ainda: há quatro botões dedicados para as quatro janelas elétricas. Em 2026, é isso - a gente aprende a valorizar o básico.
Espaço a bordo e porta-malas de 630 L: o novo rei das famílias?
O sistema multimédia entra como um “salvador”: mesmo não sendo o mais intuitivo, a interface é rápida e responde bem. A Smart também caprichou nas animações, com um leão como avatar bem feito. Dá para personalizar praticamente tudo, com vários modos de visualização e papéis de parede, como num PC. Em qualidade de imagem e desempenho, as telas OLED (motorista e passageiro), operando com um processador assinado pela AMD, não dão margem para críticas.
O acabamento também surpreende positivamente. Quase todas as áreas são revestidas com plásticos macios, inclusive na parte baixa do painel e nas portas dianteiras e traseiras. É um cuidado acima do esperado pelo preço - e já chegamos nisso. O porta-malas leva 630 l e ainda há um compartimento dianteiro de 47 l (72 l nas versões de tração traseira). Na frente e atrás, o espaço é amplo, com boa folga para joelhos e cabeça.
57 600 € sem opcionais: o melhor custo-benefício do mercado?
Ao contrário de muitas marcas alemãs, a Smart optou por incluir tudo no #5 e praticamente eliminar os opcionais. Existem cinco níveis de acabamento, mas, na prática, só a cor muda de verdade. É uma decisão louvável numa época em que muita gente aposta em assinaturas para aumentar margens. E, em paralelo, a lista de série é extremamente completa.
No nosso Summit Edition, entram o head-up display com realidade aumentada, bancos em couro, ajustes elétricos dos bancos dianteiros e do banco traseiro, teto panorâmico, faróis em LED, bomba de calor, câmera 360°, áudio Sennheiser e ainda extras como modos camping, lavagem, animal de estimação e descanso. A condução autónoma está presente, mas às vezes falta suavidade. Por 57 600 € no topo de linha, é difícil exigir muito mais.
Veredito: por que o Smart #5 crava nota máxima
O Smart #5 é uma raridade. Quase tudo dá certo, e fica difícil apontar falhas. Eu destacaria apenas a ergonomia realmente confusa e o sistema de condução autónoma, que nem sempre é delicado. Mas isso é procurar problema, porque o restante é impecável - sobretudo pelo que custa. Em geral, os rivais cobram mais e entregam igual ou menos. Com isso, o SUV alemão vira o segundo veículo da nossa seção a alcançar a nota máxima.
Smart #5 Summit Edition
57 600 €
Veredito
10.0/10
Gostamos
- Recarga rápida recorde
- Equipamento completo
- Conforto de alto nível
- Acabamento caprichado
- Preço competitivo
Gostamos menos
- Ergonomia complexa
- Condução autónoma por vezes brusca
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