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Estudo sugere que o Instagram pode corroer a identidade corporal ao longo dos anos

Jovem sentada na cama olhando para o celular com expressão pensativa em quarto iluminado.

Passámos anos a perguntar de que forma as redes sociais mudam o jeito como as pessoas avaliam a própria aparência. Um estudo recente aponta para algo ainda mais inquietante.

A preocupação já não é apenas estética. A questão é se, lá no fundo, o cérebro continua a saber de quem é o rosto que vemos como “nosso”.

O Instagram pode ir além da aparência

Grande parte das pesquisas sobre redes sociais olha para fora: formato do corpo, peso e o quanto alguém se sente atraente. Quase nunca entra no que acontece “por dentro”, nos sinais subtis do batimento cardíaco e da respiração que nos dizem que somos uma única pessoa viva.

Um grupo da Universidade Católica do Sagrado Coração, em Milão, decidiu ligar esses dois lados.

O estudo foi conduzido pela Dra. Maria Sansoni e coordenado pelo professor Giuseppe Riva.

E o tema não é pequeno. A OMS estima que cerca de um em cada sete adolescentes viva com um transtorno mental - e as preocupações com o corpo ficam perto do centro desse quadro.

Como o corpo se reconhece

A cada segundo, o cérebro combina duas correntes de informação. Uma vem de dentro: batimentos do coração, sensações do intestino e a posição dos membros.

A outra vem de fora: aquilo que vemos e tocamos. Dessa mistura nasce uma convicção simples: este corpo é meu, e eu sou separado das outras pessoas.

Quando essa integração enfraquece, pode ficar difícil sentir-se “em casa” na própria pele.

Alterações nesse processo aparecem em transtornos alimentares e em condições dissociativas - por isso, a questão vai muito além de vaidade.

Pegando “emprestado” o rosto de um desconhecido

Para testar essa ideia, a equipa recrutou 95 adultos jovens, na maioria mulheres, com idade média de quase 26 anos. Em média, usavam o Instagram havia praticamente oito anos.

Cada participante passou por duas ilusões em realidade virtual. Ao sincronizar o que a pessoa vê com o que ela sente, essas ilusões podem convencer, por instantes, o cérebro de que o rosto ou o corpo de outra pessoa é o seu.

Numa das tarefas, o participante via o rosto de um desconhecido a ser tocado com uma escova na bochecha, enquanto sentia o mesmo toque na própria bochecha. Quando o tempo dos estímulos coincidia, aquele rosto “emprestado” começava a parecer seu.

O quão fácil alguém cai nesse truque indica o quão flexível é o sentido de “eu”. Uma identidade mais firme tende a resistir; uma mais solta cede com maior facilidade.

Mais anos desfocam a fronteira

Os resultados trouxeram uma surpresa. O tempo diário a deslizar o feed não previu nada aqui: não alterou as preocupações com a imagem corporal nem a capacidade de perceber o próprio batimento cardíaco.

O que mais pesou foi o histórico. Quanto mais tempo a pessoa tinha de Instagram, mais rapidamente aceitava o rosto do desconhecido como se fosse o seu.

O padrão pareceu um efeito de “dose”, que se acumula ao longo de anos - e não de horas. E atingiu precisamente o rosto, o marcador mais pessoal que carregamos.

Por que o Instagram afeta mais o rosto

“É através do nosso rosto que nos reconhecemos no espelho, construímos a nossa individualidade e somos reconhecidos pelos outros.

Em outras palavras, a associação não surge em qualquer representação corporal, mas precisamente na parte do corpo mais intimamente ligada ao sentido de quem somos”, disse o professor Riva.

É por isso que o achado pesa. O efeito não apareceu em qualquer parte do corpo, e sim naquela que usamos para nos definir.

Em geral, rostos são difíceis de enganar. Carregam tanta identidade e significado social que costumam resistir melhor a essas ilusões do que mãos ou troncos - logo, ver essa “folga” no rosto é um sinal relevante.

Filtros de beleza mexeram com o corpo inteiro

Os filtros de beleza contaram outra história. Quem os usava mostrou maior probabilidade de sentir controlo sobre um corpo virtual - uma sensação de agência sobre uma forma digital que nunca foi, de facto, a sua.

Esse efeito pareceu mais leve e transitório, associado ao uso ocasional, e não a anos de hábito.

Ainda assim, os autores tratam o dado com cautela, porque apenas 12 pessoas na amostra usavam filtros.

Não é prova de qualquer dano

Nada disso demonstra que o Instagram cause doença mental. Nem sequer prova que essas mudanças sejam, por si só, prejudiciais.

O estudo é um recorte do momento, não um filme de causa e efeito. O que ele oferece é uma nova porta de entrada: perguntar se anos de imagens idealizadas vão, pouco a pouco, reescrevendo a linha entre “eu” e “o outro”.

Os autores chamam isso de Hipótese da Erosão Digital da Identidade Corporal. A ideia é simples: se toda a gente online parece igual, torna-se mais difícil sustentar aquilo que faz você ser você.

Uma questão maior para adolescentes

“Os participantes envolvidos no estudo pertencem à primeira geração a crescer com as redes sociais: começaram a usar essas plataformas no fim da adolescência e integraram-nas ao seu quotidiano por quase uma década”, afirmou a Dra. Sansoni.

“Se associações com processos fundamentais para a construção da identidade corporal já estão a surgir nesses adultos jovens, a questão que se coloca diz respeito às novas gerações e aos novos adolescentes, que entram em contacto com essas tecnologias cada vez mais cedo e por períodos cada vez mais longos.”

Pelos padrões de hoje, os adultos deste estudo receberam os telemóveis “tarde”. As crianças agora encontram esses ecrãs muito antes - e permanecem neles por muito mais tempo.

É essa a preocupação que vibra por baixo dos resultados. Se a fronteira já pode amolecer em adultos que começaram na adolescência, a pergunta torna-se urgente para quem nunca conheceu um mundo sem filtros.

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