Os planos da Opel para lançar um novo C-SUV 100% elétrico, apoiado na base e na tecnologia da chinesa Leapmotor, vêm gerando bastante discussão. Será a primeira vez que um carro de origem chinesa vai trazer no capô o emblema da marca alemã - e, embora a Opel não seja a primeira a seguir esse caminho, certamente também não será a última.
Ainda assim, olhando para a trajetória da fabricante, essa “novidade” não é exatamente inédita. E não estamos falando do cenário atual, em que a Opel divide plataformas e conjuntos mecânicos com outras marcas da Stellantis.
A questão é mais antiga: em diferentes momentos, a Opel colocou na sua gama modelos criados por outras montadoras, vindos dos Estados Unidos, do Japão, da Coreia do Sul e até do Reino Unido. Em vários casos, eram pouco mais do que um exercício de rebatismo - ou seja, carros em que praticamente só o logotipo mudava.
É bem provável que você já tenha visto, dirigido ou até sido dono de um desses Opel com «dupla nacionalidade». O detalhe é que muita gente nunca soube de onde eles realmente vieram.
Alguns viraram campeões de vendas, outros passaram quase invisíveis, mas todos compartilham o mesmo ponto de partida: alianças e parcerias estratégicas com outras fabricantes. É hora de relembrar quais foram.
Opel Monterey
Bem antes da febre atual dos SUVs, a Opel já oferecia na Europa um verdadeiro fora de estrada na sua linha. Ele se chamava Monterey, mas, apesar do nome, era na prática um Isuzu Trooper japonês - e do tipo «velha guarda». Usava chassi de longarinas, trazia caixa de redução e tinha capacidade real para encarar trilhas.
A proposta seguia a mesma cartilha de clássicos como Mitsubishi Pajero - que vai voltar -, Toyota Land Cruiser e Nissan Patrol. Com tantos rivais fortes (e com nomes de peso), é compreensível que ele tenha passado despercebido para muitos europeus.
Ainda assim, para quem queria um jipe de verdade que equilibrasse algum conforto com boa aptidão fora de estrada, o Monterey era uma alternativa que merecia atenção.
Opel Frontera
Se o Monterey ficou mais “de nicho”, o seu «irmão mais pequeno», o Opel Frontera, foi o oposto: virou sucesso. Ao longo dos anos 90, tornou-se um dos modelos mais populares da marca na Europa e ajudou a impulsionar a primeira onda da febre dos SUVs, que parece não ter fim.
Mesmo baseado em chassi de longarinas, o Frontera abriu mão de parte do desempenho fora de estrada para oferecer mais conforto. E, em duas gerações, fez do visual atraente um dos seus principais trunfos.
O que muita gente talvez não soubesse é que, apesar do “passaporte” alemão, ele era mais um Isuzu. Dependendo do mercado, atendia pelos nomes MU ou Amigo.
Sob o capô, ele acabou virando uma verdadeira «sociedade das nações», principalmente entre os motores a diesel: os 2.3 TD e 2.2 DTi vinham da Opel, o 2.8 TD era da Isuzu e o 2.5 TDS vinha da italiana VM.
Depois do Frontera, a Opel só apresentaria outro SUV dois anos mais tarde, o Antara. E, apesar das muitas semelhanças com o Chevrolet Captiva - além de ter sido desenvolvido (em grande parte) na Coreia do Sul e produzido por lá -, ele não entra nesta lista. O motivo é o nível de participação da Opel no seu desenvolvimento, que foi bem mais significativo.
Ainda sobre o Frontera, a Opel decidiu ressuscitar o nome. Só que ele deixou de ser um fora de estrada “clássico”: as habilidades no barro deram lugar ao uso urbano, e hoje o modelo se posiciona no segmento B-SUV, um dos que mais gera volume de vendas no «velho continente».
Opel Agila
Não foi só de jipes/SUVs que a Opel foi atrás na Ásia. Além de Frontera e Monterey, o Japão também trouxe para a marca os compactos urbanos (segmento A). E o pioneiro nesse papel foi justamente o Agila: o primeiro citadino da história da Opel. Alto e estreito, suas origens eram fáceis de identificar - ele era o “gêmeo” do Suzuki Wagon R+, com o qual dividia praticamente tudo.
Pequeno por fora e surpreendentemente espaçoso por dentro, o Agila levou para uma marca europeia uma fórmula que o Japão já explorava há muito tempo: carros urbanos altos, práticos e simples de usar no dia a dia.
Ele pode não despertar grandes paixões, mas continua sendo um dos casos mais curiosos da colaboração entre a Opel e as montadoras japonesas. E ainda ganhou uma segunda geração, desta vez “irmã” do Suzuki Splash.
Opel Karl
Quando o Agila saiu de cena, a Opel recorreu às parcerias internas da General Motors, dona da marca na época, para continuar no segmento dos compactos urbanos. Apresentado em 2015, o Opel Karl ilustra bem a fase final da GM na Europa.
O conglomerado passava por uma grande reestruturação depois da crise financeira global de alguns anos antes. O grupo fechou várias marcas e, no fim das contas, acabaria deixando a Europa: primeiro ao retirar a Chevrolet e, depois, ao vender a própria Opel para o Groupe PSA.
Antes dessa saída, a Opel aproveitou muito do que já estava pronto para a nova geração do Chevrolet Spark, pensada sobretudo para o mercado sul-coreano e asiático. Assim nasceu o Karl - outro caso típico de rebatismo, ou quase isso.
Com um desenho bem discreto para um compacto, o Karl chamava atenção principalmente pelo essencial: era barato, lógico e, para o tamanho, surpreendentemente espaçoso. Talvez por isso siga como uma das escolhas mais sensatas no mercado de usados, mesmo que muita gente não saiba da ligação direta com a subsidiária sul-coreana da General Motors.
Opel Sintra
Mas os Opel com dupla nacionalidade não vieram apenas da Ásia - e, se existe um modelo que representa esse conceito com perfeição, é o Opel Sintra.
Lançado em 1996, o primeiro monovolume da marca alemã nasceu nos Estados Unidos dentro de um programa global da General Motors. Da mesma base saíram diferentes modelos do grupo norte-americano, como o Chevrolet Venture (conhecido como Trans Sport na Europa), o Pontiac Trans Sport (mais tarde Montana), o Oldsmobile Silhouette e, em alguns mercados, o Buick GL8.
Mais americano do que alemão - e com um nome português que já rendeu até um artigo (vocês podem ler aqui) -, o Sintra foi a tentativa da Opel de responder à crescente «febre dos monovolumes» que tomou força nos anos 90.
Tamanho e espaço não faltavam, mas o projeto era claramente moldado para a realidade norte-americana. Os motores também não casavam bem com o contexto europeu, os resultados nos testes de segurança não convenceram e a confiabilidade, abaixo do esperado para a reputação da marca, selou o destino do Sintra. Sua vida comercial não chegou a três anos.
Depois dele, a Opel não voltou a investir em um monovolume grande. Ainda assim, retornaria ao formato com o bem mais bem-sucedido Zafira, lançado em 1999. Curiosamente, embora fosse 100% alemão, ele não saiu totalmente “puro” de Rüsselsheim, já que contou com uma «mãozinha» de um certo fabricante de Stuttgart - como muitos vão lembrar naquele artigo.
Opel GT
Foi também nos EUA que a Opel buscou o seu último conversível esportivo até hoje. Durante décadas, o nome GT esteve ligado ao pequeno cupê lançado no fim dos anos 60. Mas, ao voltar em 2007, ele reapareceu de um jeito totalmente diferente. A segunda geração do Opel GT era, essencialmente, um Pontiac Solstice adaptado ao mercado europeu.
Apesar da origem, a fórmula era difícil de contestar: motor dianteiro, tração traseira, câmbio manual e um 2.0 Turbo com 264 cv. Em uma época em que esse tipo de configuração começava a sumir, o GT tentou ir contra a maré.
No fim, não conseguiu reunir muitos compradores, e hoje é um dos Opel mais raros dos últimos 20 anos.
Opel Speedster
Para fechar - e sem perder importância -, vale falar do Opel Speedster, provavelmente o carro mais radical a carregar o emblema da marca alemã. Desta vez, o “alemão” vinha com sotaque britânico, por ser baseado no marcante Lotus Elise.
A própria história do projeto é interessante. A Lotus atravessava mais uma de suas crises, sem recursos para desenvolver uma nova geração do Elise que atendesse aos novos regulamentos de segurança. Foi então bater à porta da General Motors, sua antiga proprietária, que enxergou ali a chance de colocar mais emoção na linha da Opel e da Vauxhall com um esportivo extremo.
A gigante americana acabou financiando boa parte do desenvolvimento e, com isso, nasceu não apenas uma nova geração do Lotus Elise, mas também o Opel Speedster e o Vauxhall VX220. Ao contrário de outros nomes desta lista, o Speedster não era um simples exercício de rebatismo.
Ele compartilhava com o esportivo britânico o inovador chassi de alumínio colado, mantendo o peso com folga abaixo de 1 tonelada.
No visual, era totalmente diferente, com painéis e faróis exclusivos, e também se distinguia na mecânica. O Speedster usava motores Opel, e não Rover - primeiro o 2,2 litros aspirado e, mais tarde, o 2,0 litros Turbo com 200 cv. Foi isso que transformou o pequeno conversível esportivo em um dos Opel mais rápidos de todos os tempos. E também em um dos mais memoráveis.
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