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Futuro da fábrica de Cacia depende das pessoas, afirma José Vicente de Los Mozos do Grupo Renault

Carro esportivo azul futurista Renault Futuro 2035 em ambiente interno moderno com piso de mármore.

A frase “O futuro da fábrica de Cacia depende das pessoas” foi dita de forma categórica por José Vicente de Los Mozos, Diretor Mundial para a Indústria do Grupo Renault e Diretor Geral do Grupo Renault em Portugal e Espanha.

A conversa com o executivo espanhol aconteceu nas instalações da Renault em Cacia, depois do evento que comemorou os 40 anos da fábrica na região de Aveiro. No encontro, o tema foi o rumo da indústria automotiva europeia - e, inevitavelmente, o que isso significa para o futuro da unidade produtiva da marca francesa em Portugal.

Los Mozos destacou, antes de tudo, os obstáculos que o setor enfrenta, começando pela crise atual de semicondutores, que “não afeta só a indústria automóvel, mas sim todo o mundo”.

Segundo ele, o problema também expõe uma fragilidade estratégica: “Infelizmente não temos fábricas de semicondutores na Europa. Dependemos da Ásia e dos Estados Unidos. E tendo em conta a nova cadeia de valor do automóvel, produzir componentes elétricos na Europa é muito importante para o futuro industrial da União Europeia”, afirmou, acrescentando que acredita que “esta crise vai continuar no futuro, em 2022”.

A falta de chips tem interferido no ritmo de produção de diversas fábricas de automóveis e de componentes em várias partes do mundo. Além disso, colocou pressão extra sobre a capacidade de reação das unidades industriais, já que o mercado está mais instável do que nunca: há fases de paralisação e, pouco depois, podem aparecer picos de pedidos.

Para Los Mozos, a saída passa por “aumentar a flexibilidade (de horários) e a competitividade”. Ele diz que já transmitiu isso tanto à direção de Cacia quanto às equipes: “Se queremos ser competitivos temos que ser flexíveis. Acho que eles perceberam e espero nos próximos meses ter um acordo neste sentido”.

Motores a combustão não podem acabar em 2035

Ao falar sobre o fim dos motores a combustão, o executivo ressaltou que o debate já foi levado a diferentes lideranças e governos: “Este tema é muito importante e nós já falamos hoje com o Presidente da República, também já falamos com o governo francês, italiano e espanhol. Todos os países onde temos operações”, declarou. A posição acompanha o que já vinha sendo defendido por Luca de Meo, diretor executivo do Grupo Renault, e por Gilles Le Borgne, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento no Grupo Renault.

No Salão de Munique de 2021, Gilles Le Borgne foi direto ao explicar a visão do grupo francês, em declarações aos britânicos da Autocar:

Los Mozos também defende mais prazo, mas faz questão de contextualizar que o cenário, apesar de exigente, abre espaço para novas possibilidades: “a partir daqui, cada momento é um momento de oportunidade. Esta fábrica tem um know-how muito importante e sempre que há oportunidades consegue reinventar-se.”

Ele afirma que a Renault está analisando a nova cadeia de valor dos carros elétricos e o que poderia ser feito localmente: “Estamos a olhar para a nova cadeia de valor dos carros elétricos e que coisas podemos fazer aqui. E é por isso que o know-how técnico de Cacia é importante. Trata-se de perceber como com soluções não muito caras conseguimos fazer essas peças. Temos algumas ideias mas ainda é cedo para torná-las públicas”.

O executivo lembrou ainda que a unidade já produz itens ligados à eletrificação: “Já fazemos componentes para híbridos e vamos desenvolver o plano Renaulution Portugal para ver o que vamos fazer no futuro”, disse, antes de reforçar, de maneira definitiva: “o futuro (da fábrica) depende das pessoas de Cacia”.

Cacia é importante, mas…

Para que a fábrica assegure o próximo ciclo, Los Mozos argumenta que liderança local e trabalhadores precisam atuar em conjunto, com foco em quatro pontos: “A direção da fábrica e os trabalhadores têm que trabalhar juntos sobre quatro premissas: atividade, trabalho, competitividade e flexibilidade. A partir daí é preciso trabalhar juntos para encontrar um equilíbrio”, afirmou.

Ele também contextualizou o peso de Cacia no cenário industrial português: é a segunda maior unidade industrial de construtores de automóveis em Portugal, ficando atrás apenas da Autoeuropa, além de ser uma das operações industriais mais relevantes da região de Aveiro.

Questionado sobre a possibilidade de a instabilidade política no país influenciar o futuro da Renault Cacia, o executivo voltou a ser enfático: “Isso é um assunto de Portugal, não afeta. O que afeta o futuro é os funcionários não perceberem que é preciso melhorar a flexibilidade e a competitividade desta fábrica. Isso sim pode afetar o futuro. O resto não é importante. Vivemos momentos de grande volatilidade no mundo, mas nós temos que estar focados em nós, em trabalhar e em levar o grupo para a frente com o Renaulution, sob a liderança de Luca de Meo”.

É preciso ajudar o setor automóvel

Depois de reiterar o valor de Cacia e de Portugal dentro do Grupo Renault, Los Mozos defendeu que é essencial que o governo português também reconheça essa importância e “ajude mais as empresas do setor automóvel”.

O importante é que Portugal ajude mais as empresas do setor automóvel. Quando vemos as ajudas que existem para automóveis elétricos percebemos que são menores do que em países como França, Espanha, Alemanha e muitos outros. Se queremos que as empresas invistam no setor automóvel, Portugal tem de ser um país amigo dos automóveis. E é preciso apoiar.

Por fim, ele propôs um caminho prático: “Façamos um plano de apoio automóvel, trabalhemos no futuro do setor automóvel. O que podemos fazer amanhã nesta fábrica? O futuro não depende só de nós, é necessário o apoio do governo português. Esta fábrica é importante para o Grupo Renault e para Portugal”.


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