Promessas de perda de peso em tempo recorde, noites de sono impecáveis e um corpo “desinchado” dominam as gôndolas de chás.
Só que a realidade passa longe de ser tão direta.
Com a explosão dos chás funcionais e das misturas “detox”, muita gente trata a caneca quente como um atalho para uma saúde sem falhas. O médico nutrólogo francês Jean-Michel Cohen, porém, afirma que parte desses itens vendidos como “milagrosos” esconde pegadinhas na fórmula - e pede mais senso crítico na hora da compra.
Chá virou produto de marketing, não de saúde
O consumo de chás e infusões aumenta ano após ano, tanto na Europa quanto no Brasil. E não se trata apenas do tradicional chá preto ou do chá mate. Hoje, a variedade inclui:
- chá verde termogênico
- infusões “queimadoras de gordura”
- misturas para “drenar líquidos”
- blends para “dormir melhor” ou “relaxar rápido”
Muitas dessas opções se vendem pela rapidez do resultado: emagrecer alguns quilos, diminuir o inchaço abdominal, segurar a ansiedade. No papel, parecem inofensivas; no dia a dia, frequentemente são apenas marketing bem produzido.
Produtos vendidos como infusão saudável podem trazer excesso de aromatizantes, açúcar escondido e ingredientes pouco interessantes para o uso diário.
O ponto central, segundo Jean-Michel Cohen, é a mudança de perfil: a bebida tradicional, feita com folhas inteiras, vem sendo substituída por sachês industriais com muito pó, fragmentos e aditivos.
Por que a qualidade das folhas muda tudo
Para falar em chá “bom”, o começo é básico: a matéria-prima. Em geral, as folhas mais valorizadas são as menores e as mais próximas do broto, por serem mais ricas em compostos aromáticos naturais. E, de acordo com o médico, o ideal é que essas folhas sejam usadas inteiras - não moídas até virarem pó.
Com folhas inteiras, a água quente tende a extrair melhor os óleos essenciais e outras substâncias bioativas. O resultado costuma ser um sabor mais elaborado e, em muitos casos, benefícios mais consistentes ligados à própria planta.
Nos sachês comuns, no entanto, essa experiência quase desaparece. Em vez de folhas visíveis, aparece um conteúdo finamente moído, derivado de brisuras e, às vezes, até de “poeira” de folhas secas.
Quanto mais o chá parece “pó”, maior a chance de perder aroma natural e depender de aromatizantes artificiais para parecer saboroso.
Cohen ressalta que vários produtos do cotidiano entregam mais “aroma” do que ingrediente vegetal identificável. Na xícara, o consumidor nota um cheiro forte de frutas vermelhas ou de especiarias, mas uma parte relevante desse efeito vem de compostos adicionados - e não do que está, de fato, na planta.
As quatro referências colocadas em xeque
Após analisar rótulos, o nutrólogo citou quatro produtos específicos que, na visão dele, deveriam ser evitados ou consumidos apenas com muita moderação. Eles também funcionam como exemplos do que observar em qualquer marca.
1. Chá sabor mirtilo e framboesa (Twinings)
O primeiro é um chá com sabor de mirtilo e framboesa. O apelo é óbvio: frutas vermelhas, imagem de produto leve, embalagem sofisticada. O problema, conforme Cohen, é a composição dominada por aromatizantes.
Na prática, isso quer dizer que o gosto de fruta não necessariamente vem de pedaços de mirtilo ou framboesa, mas principalmente de aromas adicionados. Há ainda outro ponto que exige cautela: a presença de raiz de alcaçuz (regaliz).
Esse ingrediente, comum em blends aromáticos, pode aumentar a pressão arterial em algumas pessoas. Portanto, tende a não ser a escolha mais adequada para quem tem hipertensão ou histórico cardiovascular.
2. Chá latte sabor chocolate, avelã e chai (Twinings)
Outra referência questionada é o chá latte com sabor de chocolate, avelã e chai. Aqui, a proposta é mais “gostosinha”, quase um doce quente em formato de bebida. O problema é que esse tipo de item costuma ficar bem distante da ideia de um chá leve.
Preparados assim podem incluir açúcares adicionados, aromatizantes muito intensos, leite em pó e gorduras. Para quem procura um hábito diário mais saudável, essa soma tende a acrescentar calorias e componentes pouco interessantes - especialmente se o consumo se repete várias vezes ao dia.
3. Marrakech Tea (Nescafé Dolce Gusto)
O conhecido chá “estilo marroquino” em cápsula também foi citado. A crítica de Cohen é objetiva: no rótulo, o primeiro ingrediente listado é açúcar.
Ao tomar uma xícara, a pessoa pode estar ingerindo o equivalente a um cubo de açúcar, sem perceber.
Com isso, o que muita gente interpreta como bebida “leve” vira mais uma fonte cotidiana de açúcar livre. Para quem está lidando com peso, triglicerídeos elevados ou resistência à insulina, esse detalhe pesa bastante quando acumulado ao longo das semanas.
4. Infusão “queimadora de gordura” (Jardin Bio Étic)
Por fim, o nutrólogo critica uma infusão vendida como “queimadora de gordura”. A embalagem passa a ideia de uma bebida simples, baseada em ervas. Só que o produto traz teína, o mesmo estimulante presente no chá.
Na prática, isso implica um efeito estimulante - o que não combina com a noção de uma infusão leve para qualquer horário. E a promessa de “queimar gordura”, para Cohen, é claramente inflada: nenhum chá, sozinho, é capaz de produzir esse tipo de resultado visível.
Como ler o rótulo do seu chá sem cair em ciladas
Para manter o hábito de forma mais consciente, vale checar alguns pontos elementares no rótulo:
| O que olhar | Por que conta |
|---|---|
| Lista de ingredientes curta | Menos itens costuma significar menos aditivos e mais planta de verdade. |
| Folhas, flores ou cascas identificáveis | Ingredientes reconhecíveis indicam composição mais transparente. |
| Posição do açúcar na lista | Se aparece entre os primeiros, o produto é muito mais doce do que parece. |
| Aromas “naturais” em excesso | Podem mascarar a baixa qualidade ou a pouca quantidade de planta. |
| Promessas milagrosas no rótulo | Emagrecimento rápido ou “queima de gordura” quase sempre são marketing, não ciência. |
Milagre na xícara? O que o chá realmente pode fazer
Chás e infusões, sim, podem ser úteis na rotina. Eles ajudam a reduzir o consumo de refrigerantes, trazem sensação de conforto, aumentam a ingestão de líquidos e, em certos casos, somam a outros cuidados por conterem compostos como catequinas, flavonoides e antioxidantes.
O problema aparece quando a bebida vira uma “solução única”. Uma infusão de ervas com ação digestiva pode aliviar incômodos após uma refeição pesada, mas não corrige uma alimentação desajustada. Um chá com leve efeito diurético pode diminuir a sensação de inchaço, porém não resolve retenção relacionada a hormônios ou a doenças.
Quando o rótulo promete demais, vale desconfiar: chá não substitui alimentação equilibrada, sono adequado e movimento diário.
Riscos discretos: quando o “inofensivo” pesa na saúde
Algumas situações pedem atenção redobrada. Pessoas com hipertensão podem reagir mal à combinação de cafeína (ou teína) com plantas como o alcaçuz. Quem sofre com insónia pode piorar o descanso ao consumir chás estimulantes no fim do dia, acreditando que está a tomar apenas uma infusão de frutas.
Também existe o efeito acumulado do açúcar. Um chá pronto adoçado, consumido todos os dias no meio da tarde, adiciona calorias que quase não chamam atenção. Em um mês, isso já pode representar um volume considerável de colheres de açúcar a mais na alimentação.
Como montar uma rotina de chá mais segura e honesta
Um caminho simples é montar um pequeno “arsenal” em casa com ervas básicas, compradas a granel em lugares confiáveis: camomila, hortelã, erva-doce, capim-limão, casca de laranja seca. Assim, o consumidor vê exatamente o que vai para o bule, sente o perfume verdadeiro das plantas e decide as combinações.
Outra medida é deixar chás com açúcar, leite em pó ou “sabores de sobremesa” para momentos pontuais - como um agrado - e não como um ritual diário associado à saúde. Para o dia a dia, versões sem adoçantes e com ingredientes inteiros costumam fazer mais sentido.
Quem usa medicamentos contínuos, como anti-hipertensivos, anticoagulantes ou remédios para tireoide, pode precisar de orientação profissional antes de exagerar em determinadas ervas. O chá raramente é o grande vilão, mas, em quantidades altas e consumo frequente, algumas plantas interagem com fármacos.
No essencial, Jean-Michel Cohen não defende abandonar o chá - e sim abandonar a ilusão. A caneca fumegante pode ser uma aliada prazerosa na rotina, desde que o consumidor leia o rótulo com o mesmo cuidado que dedica ao que coloca no prato.
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