“Não gosto dela, e ninguém deveria gostar”, disse o Presidente Americano Donald Trump ao falar da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que ele acusou de “explorar o resto do mundo”, durante uma assembleia geral das Nações Unidas em 2018. A entidade que, em mais de uma ocasião, foi apontada por Trump como culpada pela alta no preço do petróleo caminha para o próximo mês enfraquecida. O motivo é a decisão dos Emirados Árabes Unidos (EAU) de deixar a OPEP e a OPEP+, após quase seis décadas de cooperação.
Emirados Árabes Unidos e OPEP: o que muda com a saída
De acordo com o relatório anual de 2024 da OPEP, os EAU eram o quarto maior produtor entre os 12 países-membros do grupo. Ao se retirar, o país passa a ter liberdade para extrair petróleo sem as limitações de cotas de produção. “Durante o nosso tempo na organização, fizemos contribuições significativas e sacrifícios ainda maiores para o benefício de todos. No entanto, chegou a altura de nos focarmos no que o nosso interesse nacional dita”, diz um comunicado divulgado na terça-feira, 28 de abril, pelo Ministério da Energia e das Infraestruturas, que afirma que a decisão “reflete a visão estratégica e económica de longo-prazo dos EAU”.
Impacto no mercado e no preço do petróleo
O ministro de Energia dos EAU, Al Mazrouei, disse à CNN internacional que as restrições de navegação no Estreito de Ormuz fazem com que a decisão “não tenha impacto significativo no mercado e no preço” do petróleo. Esse quadro, porém, pode se alterar quando a circulação no estreito for normalizada. Se, em um cenário pós-guerra, os Emirados elevarem a produção, isso pode acelerar a volta a patamares de preços anteriores, disse à “Associated Press” Michael Brown, pesquisador de estratégias da corretora Pepperstone.
A desconfiança imposta pela guerra
A medida é tomada em meio ao aumento das tensões entre o país e a Arábia Saudita - o ator mais influente dentro da OPEP - e a uma crise energética global ligada à guerra no Irã e às restrições à navegação no Estreito de Ormuz. A sintonia entre Riad e Abu Dhabi, por anos tratados como parceiros centrais na ordem do Golfo Pérsico, vem se deteriorando, e ambos passaram a se envolver em guerras por procuração em países do Oriente Médio e da África.
Em uma análise publicada pelo Council on Foreign Relations, o especialista Steven Cook avaliou que ocorreu uma “erosão da confiança e solidariedade” recíprocas que os líderes dos dois países demonstraram no começo da guerra. “Os EAU e a Arábia Saudita divergiram à medida que a guerra prosseguiu, com os sauditas a juntarem-se aos paquistaneses, egípcios e turcos na procura de uma solução diplomática. Por seu lado, os emiradenses não se opõem a uma solução diplomática, mas, tendo em conta o fogo de que foram alvo do Irão, querem garantir que, qualquer que seja o acordo alcançado, o regime não pode voltar a ameaçar a sua segurança”, escreveu.
Outros elementos também pesam. Além dos integrantes da OPEP, a OPEP+ reúne outros 11 países (incluindo a Rússia) com os quais há coordenação de cortes na produção de petróleo. “A Rússia revelou ser um parceiro firme do Irão, ameaçando assim a segurança dos Emirados e levantando questões em Abu Dhabi sobre porque é que a EAU quereria cooperar com a OPEP+ em benefício de Moscovo. A experiência anti-drones da Ucrânia é atualmente inestimável para os EAU e os dois países assinaram recentemente um acordo de defesa, sinalizando uma inversão da inclinação percepcionada da EAU em direção a Moscovo nessa guerra”, escreveu William Wechsler, diretor dos programas do Oriente Médio do Atlantic Council, em uma análise publicada pelo think tank.
Ajuda militar de Israel, críticas ao Golfo
Pouco depois de Israel e dos Estados Unidos da América (EUA) iniciarem uma guerra contra o Irã, vários países árabes entraram na mira da retaliação de Teerã. Os Emirados Árabes Unidos também foram atingidos e, diante disso, o país passou a considerar congelar bilhões de dólares em ativos iranianos, segundo a Reuters. Conforme o ministério da Defesa, até 9 de abril o território foi alvo de 537 mísseis balísticos, 26 mísseis de cruzeiro e mais de dois mil drones.
Para a liderança política dos Emirados, a reação dos países do Golfo à retaliação iraniana foi frustrante. “A postura do Conselho de Cooperação do Golfo foi a mais fraca historicamente, tendo em conta a natureza do ataque e a ameaça que representava para todos”, criticou o conselheiro presidencial da EAU Anwar Gargash, dizendo ainda que esperaria essa atitude da Liga Árabe, mas que “estava surpreendido” com o CCG.
Ainda assim, o apoio veio de outra frente. O site “Axios” informou nesta semana que Israel enviou aos EAU, no início da guerra com o Irã, um sistema de defesa aérea ‘cúpula de ferro’, junto com tropas para operá-lo. Em 2020, os Emirados se tornaram o terceiro país árabe a reconhecer Israel oficialmente, depois do Egito em 1979 e da Jordânia em 1994. O relacionamento entre os dois lados se manteve mesmo com os ataques israelenses a Gaza, e os EAU não fizeram críticas aos ataques realizados pelos EUA e Israel contra o Irã, concentrando a retórica na condenação à resposta iraniana. Em março, “The Washington Post” noticiou que os EAU estavam se preparando para ajudar os EUA e outros aliados a reabrir à força o Estreito de Ormuz, o que indicaria alinhamento com a administração de Trump.
Wechsler avalia que a decisão dos Emirados “provavelmente vai reforçar as relações EUA-EAU”, mas faz uma ressalva: “ironicamente, com o passar do tempo, o passo provavelmente também vai fortalecer as relações EUA-Arábia Saudita, uma vez que Riade vai ter um peso ainda maior na estabilização dos preços de petróleo mundiais”.
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