Idade, como dizem, é só um número. Com a quilometragem de carro usado acontece a mesma coisa: muitas vezes um número enorme e assustador, daqueles que fazem o comprador empalidecer.
Ainda assim, segundo o eBay, quilometragem alta não precisa ser motivo de pânico. Um levantamento recente desse que é, para muita gente, o ambiente mais estressante de leilões, indica que no Reino Unido já existem quase seis milhões de veículos rodando com mais de 100.000 milhas no hodômetro (cerca de 161.000 km).
E isso é só o começo: quase um quarto de milhão de veículos britânicos já acumulou mais de 200.000 milhas (aproximadamente 322.000 km), enquanto 2.699 já passaram da marca de meia milhão de milhas (por volta de 805.000 km).
O que a pesquisa do eBay diz sobre carros usados de alta quilometragem
Quase 3.000 carros com 500.000 milhas “nas costas”. É um número respeitável - ainda mais porque, no meio deles, há três carros elétricos. (Ótima notícia para provar que VE pode durar; nem tão boa assim para quem ficou atrás deles na fila do carregador.)
Para o eBay, essa fotografia do mercado serve como argumento de que não deveríamos ter medo de comprar um usado com seis dígitos no odômetro. Na verdade, a empresa sugere que a gente deveria até correr para aproveitar - uma conclusão sem qualquer relação, claro, com o fato de o eBay vender um bocado de peças para manter esses velhos “guerreiros” funcionando.
“As pessoas frequentemente ignoram carros com alta quilometragem”, observa a mecânica Laura Kennedy. “Mas a verdade é que um veículo bem mantido com mais de 100.000 milhas no hodômetro pode ser uma pechincha. Se um carro passou por revisões no prazo, foi bem cuidado e roda bem, não há motivo para ele não continuar por anos.”
O clube das 500.000 milhas: contas, voltas e comparações inúteis
Meio milhão de milhas é, falando matematicamente, milha pra caramba. Dá para fazer mais de 4.000 voltas na M25. Equivale a 20 voltas ao redor do Equador. E leva você até a Lua e de volta com “combustível” de sobra.
Já que estamos fazendo conta, esses 2.699 carros do clube das 500.000 milhas somam, no mínimo, 1,3 bilhão de milhas no total (cerca de 2,09 bilhões de km). Isso dá sete viagens de ida e volta até o próprio SOL. A luz - que, convenhamos, tem um ritmo bem decente - leva mais de duas horas para percorrer essa distância. Isso é uma comparação útil? Não, não é.
Quais carros chegam lá (e por que ainda assim não é garantia de nada)
A pesquisa do eBay não abriu a lista por marca e modelo, mas dá para apostar que há várias Skoda Octavia no meio. Um outro estudo recente apontou que, na Grã-Bretanha, uma em cada cem Octavia ostenta mais de 250.000 milhas no hodômetro (aproximadamente 402.000 km), o que sugere duas coisas: (a) Octavia é bem confiável e (b) motoristas de táxi acumulam distância a rodo.
Provavelmente também aparecem alguns Land Rover Defender “raiz”: há alguns anos, foi divulgado que 16 Defenders no Reino Unido tinham ultrapassado 750.000 milhas (cerca de 1.207.000 km). Isso levanta perguntas interessantes sobre o paradoxo do Navio de Teseu - e também sobre o estado da coluna de quem dirige.
De todo modo, convém pisar no freio: comprar um carro com 100.000 milhas no relógio não significa levar para casa um sobrevivente indestrutível. Pode até ser, mas também pode significar que você está adquirindo uma granada de mão. A lição mais sensata por trás do esforço do eBay não parece ser “compre carro com alta quilometragem”; é “não compre um carro que foi abandonado à própria sorte”.
O fato de a Grã-Bretanha ter um punhado de veículos com quilometragem altíssima não prova que carros duram para sempre. O que isso mostra é que a Grã-Bretanha tem muitos carros - e que alguns deles, às vezes, aguentam bastante tempo.
Só que não são tantos assim. Considerando cerca de 42,5 milhões de veículos nas estradas britânicas, isso quer dizer que apenas um em cada 16.000 passou de meia milhão de milhas: mais ou menos a mesma chance de um britânico ser atingido por um raio em algum momento da vida. Bem menos revigorante, igualmente improvável.
E todos os carros que não chegaram às 500.000 milhas não entram na estatística. Eles estão enferrujando em algum campo em Shropshire.
Mesmo com o detalhe de que comprar um carro de alta quilometragem não garante longevidade - e pode muito bem garantir exatamente o contrário -, a TopGear.com recomenda com força que você tente. Não porque vá render anos de rodagem sem dor de cabeça, mas porque é um jeito muito barato de entrar no território da raridade de verdade.
Pense nisso: hoje existem cerca de 2.800 McLarens rodando no Reino Unido. Lamborghini? Quase seis mil.
O que faz um Toyota Avensis com 500.000 milhas ser consideravelmente mais exótico do que um Speedtail ou um Revuelto. Sem falar que tende a resistir melhor à desvalorização e é bem menos traumático quando alguém amassa a lataria com um carrinho de compras.
A ideia é simples: se você quer exclusividade real, história de verdade, esqueça aquela P1. Compre uma Octavia com meio milhão no hodômetro.
Claro, a emoção talvez seja menos “ih, foi sobresterço repentino?” e mais “ih, foi a correia dentada que arrebentou?”. O cheiro vai ser mais complexo. Mas pense nas histórias que essa Octavia poderia contar. É verdade que muitas dessas histórias provavelmente envolvem passageiros da madrugada despejando fluidos corporais variados no tecido do banco traseiro - mas, ainda assim, história é história.
Desafie a obsolescência programada. Compre um trambolho velho, acabado e sem glamour.
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