Alguns carros entram para a história do automóvel; outros ficam restritos à memória de fanáticos por carros; e há ainda aqueles que, sem serem propriamente extraordinários, ganham um espaço definitivo no imaginário coletivo. É exatamente nesse último grupo que se encaixa o DeLorean DMC-12.
Transformado em ícone cultural pela trilogia “De Volta para o Futuro”, o cupê esportivo de portas em asa de gaivota e carroceria de aço inoxidável tem uma trajetória tão dramática quanto a ficção que o consagrou. O filme “Driven”, de 2018, inclusive, retrata parte do caminho tortuoso que levou ao nascimento do modelo - e também ao seu desfecho.
E a história do DMC-12 é tão cheia de reviravoltas que renderia um longa por si só, incluindo o destino curioso de algumas das máquinas e ferramentas usadas na fabricação após a quebra da empresa. Antes disso, porém, vale voltar alguns anos e contextualizar o projeto e o cenário em que ele surgiu.
Um projeto ambicioso
Depois de subir rapidamente na General Motors e se tornar o mais jovem chefe de divisão (Pontiac) da história - ele foi, por exemplo, responsável pelo lançamento do Pontiac GTO, visto por muitos como o primeiro “carro musculoso” -, John DeLorean decidiu que era hora de “voar sozinho”.
Assim, em 1975, nascia a DeLorean Motor Company. Embora a empresa fosse norte-americana, quando chegou o momento de escolher onde produzir o automóvel, DeLorean optou pela Irlanda do Norte. O motivo era direto: os milhões em incentivos públicos oferecidos pelo governo britânico, que enxergava no empreendimento uma chance de criar empregos em uma região marcada por conflito político e social.
Com cerca de 77 milhões de libras esterlinas (aproximadamente 110 milhões de euros) em empréstimos, subsídios e garantias financeiras - suficientes para cobrir a maior parte dos custos iniciais -, a DeLorean conseguiu colocar o complexo industrial de Dunmurry em operação e produzir carros em apenas 28 meses após o início das obras.
Apesar do entusiasmo inicial, a prática se mostrou bem menos simples. Desde cedo, a fábrica funcionou em um ambiente de instabilidade, enfrentando entraves logísticos, pressão política e problemas financeiros.
Mesmo com a intenção de gerar empregos, a região não contava com mão de obra local experiente em produção automotiva. Isso exigiu treinamentos mais longos e um período muito maior do que o previsto até que a linha de montagem atingisse um ritmo estável. Na prática, DeLorean foi obrigado a estender a fase de pré-produção de um projeto que já estava atrasado por natureza.
Atrasos revelaram outros problemas
O cronograma original previa que as primeiras unidades saíssem da linha no fim de 1979. Na realidade, o primeiro DMC-12 de produção só ficou pronto em 21 de janeiro de 1981 - mais de um ano depois.
O atraso rapidamente deixou de ser apenas um problema de agenda e passou a comprometer a estrutura da empresa. Além de estourar o orçamento, esse tempo extra escancarou fragilidades técnicas e organizacionais de um projeto que talvez tivesse ambição demais para as condições disponíveis.
Uma parcela importante da demora veio da necessidade de redesenhar o DMC-12 praticamente do zero. O protótipo inicial apresentado por John DeLorean apostava em soluções experimentais, inclusive métodos de fabricação ainda pouco amadurecidos.
Diante da inviabilidade do conceito original, a marca buscou a Lotus - e não seria a última vez que a empresa emprestaria seu conhecimento técnico a outros fabricantes - para reorganizar o desenvolvimento. O resultado foi um novo chassi e uma suspensão completamente revisada, já pensados para o motor V6 PRV (2,85 litros), fruto da parceria entre Peugeot, Renault e Volvo.
A esse conjunto de obstáculos se somaram dificuldades industriais menos óbvias, mas igualmente decisivas. O uso de painéis de aço inoxidável escovado (como na Tesla Cybertruck) complicou a fabricação, exigindo ajustes constantes tanto nas matrizes de estampagem quanto nos processos de conformação.
Um automóvel icônico que deixou a desejar
Quando o DMC-12 finalmente chegou ao mercado, seu visual futurista e inconfundível causou impacto - mas a dinâmica não acompanhava o apelo. A carroceria de aço inoxidável e as portas em asa de gaivota garantiam status instantâneo, porém os números modestos do V6 PRV - apenas 132 cv e 220 Nm - limitavam de forma clara o desempenho.
Mesmo chamando atenção por onde passava, as vendas não ganharam tração. Em 1982, com cerca de 10 000 unidades produzidas, a DeLorean Motor Company entrou em colapso. A combinação de baixa demanda, custos elevados e incapacidade de sustentar financeiramente a operação culminou na falência.
Para piorar, John DeLorean acabou envolvido em um caso judicial de grande repercussão ligado ao tráfico de drogas. Embora tenha sido absolvido, o estrago na reputação e nas finanças já era irreversível. A empresa não suportou e a produção foi encerrada.
Assim, o DMC-12 - apesar da aparência exótica - parecia destinado a ser apenas uma nota de rodapé na história do automóvel. Só que a trilogia “De Volta para o Futuro” o transformou em um dos maiores ícones automotivos de todos os tempos. E o fim da fabricante não encerra essa história.
O mito urbano e a realidade
Depois da queda, como acontece em qualquer encerramento empresarial, foi preciso dar destino aos ativos da DeLorean, que foram liquidados, vendidos e revendidos durante o processo de insolvência.
Entre esses ativos estavam os moldes e as ferramentas usados para estampar os painéis de aço inoxidável do DMC-12. Eram componentes industriais pesados, extremamente específicos e com pouco valor fora de uma linha de produção automotiva - e acabaram alimentando mitos, impulsionados pelo fim abrupto da empresa e pela exposição midiática em torno do fundador.
A lenda mais persistente dizia que o governo britânico teria destruído propositalmente os moldes e as ferramentas do DeLorean para impedir qualquer tentativa de recriar o carro, jogando tudo no fundo do oceano. Não houve conspiração governamental, mas parte da história é verdadeira: eles realmente terminaram no mar.
Após o fechamento da fábrica na região de Belfast, esses equipamentos foram vendidos para uma empresa de sucata em Cork, na Irlanda, entrando no fluxo comum de bens industriais sem uso imediato depois de uma falência.
Daí em diante, o enredo ganha um tom quase irônico. Em vez de voltarem à indústria automotiva para reaproveitamento, os moldes foram revendidos para um setor totalmente inesperado: a aquicultura de alta tecnologia, mais especificamente a criação de salmão.
Em vez de formarem os painéis do carro que levou Marty McFly a viajar no tempo, essas peças enormes - entre 4-6 toneladas, 12 peças no total - passaram a servir a um objetivo muito mais prático: funcionar como lastro para fixar redes de cultivo no fundo do oceano. Elas foram afundadas na Kilkieran Bay, no Condado de Galway, na Irlanda, entre 18 e 22 metros de profundidade.
A atividade de aquicultura que levou ao afundamento dessas peças foi suspensa há muito tempo e, hoje, elas são apenas um recife artificial e abrigo de muitos caranguejos e lagostas. Em 2009, surgiram algumas fotografias subaquáticas do local, mas já era difícil ver os componentes: estavam completamente cobertos por algas.
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