O que mudou, afinal?
Por fora, parece que nada mudou: um Porsche Boxster num tom elegantíssimo, plantado e confiante numa estradinha secundária britânica. É um enredo com 25 anos, e só o plot twist de 2016 - o quatro-cilindros turbo - impediu que a história virasse um conto de fadas do começo ao fim.
Só que este aqui é um Boxster “de verdade”: o GTS 4.0, que entrou na família 718 no início de 2020. Ele tirou de cena, nas tabelas de preços da Porsche na maioria dos países, o GTS 2,5 litros turbo de som mais áspero (o 4-cilindros continua em mercados onde os benefícios fiscais são bons demais para ignorar). E, de partida, foi oferecido apenas com câmbio manual de seis marchas - um abraço caloroso aos puristas. Era começo de 2020; vale lembrar que abraçar era “tendência”…
Porsche 718 Boxster GTS 4.0 PDK: o automático entra no jogo
E sim: você já ia dizer que este carro não é manual.
A Porsche colocou o câmbio automático PDK de sete marchas no configurador. Ele não só passa a integrar a lista de opcionais do 718 GTS 4.0, como também a do Cayman GT4 e do 718 Spyder. Nesses dois modelos mais ligados ao Motorsport, isso é uma notícia ainda maior - e a ideia é guiá-los em 2021 -, mas, por enquanto, o PDK volta ao universo GTS e deve levar a maioria dos compradores com ele.
Hoje, o manual é uma escolha minoritária fora do 911 GT3 e do Carrera T; não há motivo para esperar algo diferente deste 4.0 recém-transformado em “carro de borboletas”.
Números e preço do Porsche 718 Boxster GTS 4.0 PDK
O motor boxer seis-cilindros de 4,0 litros dispensa turbos, então entrega seu pico de 395 bhp a 7.000 rpm e faz um belo barulho enquanto sobe de giro (ainda que não tão bonito quanto o do antigo GTS 3,4 litros de meados dos anos 2010). Com o PDK, entram mais 7 lb ft de torque: o máximo chega a 317 lb ft a 5.500 rpm. A Porsche declara 0–100 km/h em 4,0 s e velocidade máxima de 288 km/h - respectivamente, 0,5 s melhor e 5 km/h pior do que no manual.
Em consumo e emissões, há avanço em relação ao manual: o PDK é indicado com 9,9 km/l e 230 g/km de CO₂, contra 9,2 km/l e 246 g/km declarados para o manual.
O PDK soma cerca de 30 kg e acrescenta £2,303 ao preço (tanto no Boxster quanto no Cayman). Então, antes mesmo de você se empolgar com acabamentos internos e cores, o 718 Boxster GTS 4.0 PDK (ufa) parte de £68,643. É fácil imaginar a conta encostando em oitenta mil libras, mesmo sendo comedido nos extras.
O GTS fica 20 mm mais baixo do que os 718 “normais”, recebe um desenho exclusivo de rodas de 20 polegadas e, por dentro, traz as generosas porções de Alcantara que já viraram assinatura dessas três letras. Ou seja: além de ganhar dois cilindros a mais e o dobro de cilindrada de um Boxster (ou Cayman) de entrada, você leva um pacote um pouco mais focado - algo que ele, para ser justo, já não deixava faltar.
Na estrada: rapidez fácil e um conjunto que parece pensar junto
O GTS 4.0 dita o padrão da categoria naquele refinamento que a turma do teste de estrada adora: a reação de cada comando parece ter exatamente o mesmo “peso”, e acelerador, direção, suspensão e freios soam como se estivessem fundidos num único raciocínio. Num dia frio, com a temperatura abaixo de 10 °C e o asfalto meio encardido, ele também entrega pequenas doses de sobresterço com pouca provocação - e faz isso de um jeito espalhafatoso sem obrigar o motorista a se equilibrar num trapézio arriscado. É dócil, tolerante e te deixa melhor do que você é.
Sem a complexidade de trocar marchas manualmente, dá para andar ainda mais rápido do que antes, com mais facilidade para esticar as “pernas” muito longas do GTS 4.0 - a segunda marcha ainda bate no corte acima do limite de velocidade, uma reclamação que você provavelmente já leu mais de uma dúzia de vezes. Além disso, os modos Sport, Sport Plus e Sport Response (selecionados num seletor no volante) conversam de forma mais natural com trocas automáticas do que com um câmbio manual, o que traz flexibilidade extra quando você resolve explorar as reservas, nada superficiais, do 4.0.
O porém: competente demais?
Para citar meu colega Tom Ford falando do 4.0 manual durante a Speed Week 2020 da Top Gear: “o Boxster é precisão. É racionalidade. Ele contorna com enorme destreza, provavelmente é o mais rápido na maioria das situações. É o carro que você compraria se colocasse tudo na balança, fizesse uma média e tomasse a escolha ‘correta’ e bem informada”.
O que, nesse mundo curioso dos carros de alto desempenho, pode soar - com certa justiça - como “um pouco profissional demais”. Minha tarde com o Boxster foi emoldurada por uma viagem de ida e volta de quatro horas num Morgan Plus Four, um carro que me fez rir como um idiota de um jeito que este Boxster com borboletas raramente conseguiu. Por outro lado, o teto do Porsche não vaza sob chuva torrencial, os mostradores não embaçam por trás do vidro num dia gelado e dá para ouvir o som acima de 97 km/h. A racionalidade talvez não seja a impressão mais empolgante de primeira, mas tende a virar algo valioso nos anos de propriedade que vêm depois.
E é justamente isso que o PDK acrescenta ao Boxster: ainda mais racionalidade, com uma camada extra de polimento num carro que já parecia pronto para uma colaboração com o Mr Sheen. Vai ser muito fácil conviver com ele - e, ainda assim, eu sou um desses rabugentos que ficaria com o ritmo mais lento, o esforço maior e o consumo ligeiramente pior de um GTS 4.0 com câmbio manual. A grande maioria, porém, deve optar pelas borboletas, e eu duvido que se arrependa nem um pouco.
Nota: 8/10
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