Como em tantos períodos da história humana, os momentos finais da Idade da Pedra foram marcados por crises, conflitos e rituais de morte íntimos - muitos deles difíceis de entender por completo hoje.
Ainda assim, uma descoberta macabra num antigo assentamento na Eslováquia deixou arqueólogos boquiabertos, mesmo considerando o contexto enigmático e por vezes brutal do Neolítico.
A descoberta em Vráble, Eslováquia
Em 2022, investigadores escavavam um assentamento com cerca de 7.000 anos perto da cidade de Vráble, na Eslováquia, quando se depararam com uma cena digna de filme de terror: pelo menos 77 esqueletos humanos sem cabeça, espalhados de forma desordenada por dois fossos que circundavam um dos bairros do sítio.
Com o avanço das escavações e das análises, ficou claro que aquele lugar não era ocupado apenas por vivos. Até agosto de 2025, foram identificados restos de 112 indivíduos - e os pesquisadores esperam que esse total aumente significativamente à medida que o estudo continue.
Quem eram os agricultores da Cultura da Cerâmica Linear (LBK)
O assentamento é atribuído à Cultura da Cerâmica Linear (LBK), considerada uma das primeiras comunidades agrícolas da Europa. Esse conjunto cultural teria surgido na bacia dos Cárpatos e se espalhado pela Europa Central por volta de 7.500 anos atrás.
O sítio reúne centenas de habitações - incluindo longhouses (casas longas) erguidas com postes - organizadas em três bairros distintos, com áreas de quase 40 acres cada (cerca de 16 hectares).
Entre os mortos, parte foi enterrada de modo mais “convencional” para o período: em covas funerárias próximas às casas, acompanhados por “bens funerários” como recipientes de cerâmica, lâminas e oferendas de cordeiros jovens.
Sepultamentos sem crânio e o que isso pode significar
O bairro a sudoeste é o único cercado por um par de fossos - e foi justamente neles que os habitantes depositaram os mortos. Embora os esqueletos apareçam em diferentes estados de preservação, os crânios estão misteriosamente ausentes, com uma única exceção: uma criança colocada entre adultos, cujo crânio foi preservado.
Diante disso, é inevitável perguntar: esses restos aparentemente mutilados seriam fruto de violência, como nossas sensibilidades atuais poderiam sugerir?
"Em contraste, temos evidências de que os sepultamentos - que nos parecem incomuns - faziam parte de práticas sociais, que estruturavam relações locais e supra-regionais, e há apenas sinais limitados de conflito e crise", afirma Martin Furholt, arqueólogo da Universidade de Kiel, na Alemanha, e autor principal do estudo.
Além disso, marcas nos ossos indicam que as cabeças foram removidas com cuidado, por meio de ferramentas afiadas, em vez de golpes desajeitados ou extremamente violentos com instrumentos rombudos.
"As primeiras análises sugerem, acima de tudo, que decapitações violentas não foram realizadas aqui, mas sim remoções habilidosas dos crânios", explica Katharina Fuchs, antropóloga biológica da Universidade de Kiel.
Achados de outros sítios europeus da mesma época apontam para diversas hipóteses, incluindo práticas de caça de cabeças.
Outra possibilidade é que essas pessoas tenham sido vítimas de sacrifícios humanos - ou que seus crânios tenham sido tomados como um roubo simbólico da própria pessoa, uma subtração de identidade.
A violência, de todo modo, é documentada noutros assentamentos LBK da região, incluindo massacres que poderiam envolver famílias inteiras. Há indícios de que alguns grupos teriam torturado inimigos quebrando-lhes as pernas antes de executá-los.
Em outros lugares, coveiros neolíticos chegaram a cortar corpos em pequenos pedaços, e há casos em que pessoas possivelmente coletavam calotas cranianas.
Também é plausível que esses enterramentos tivessem finalidade mágica ou cerimonial, direcionada a ancestrais ou divindades - num mundo que alguns acreditavam ser governado por deuses e espíritos.
O que se sabe com mais segurança é que sepultamentos sem cabeça foram amplamente registrados no Neolítico europeu, o que sugere uma prática estabelecida.
"Devemos supor que essas práticas estavam inseridas em contextos de significado completamente diferentes dos das sociedades modernas", diz Furholt.
"Isso é o que torna uma interpretação delas tão desafiadora."
Próximos passos das análises
Os trabalhos futuros incluem análises de ossos e de outros artefatos para esclarecer vínculos entre indivíduos, modos de vida e pistas demográficas adicionais.
Além disso, novos esqueletos sem cabeça ainda podem aparecer ao longo de quase 160 metros (cerca de 520 pés) do sistema de fossos que ainda não foi explorado.
Os próprios crânios também podem surgir, talvez dentro das casas do assentamento ou nos fossos.
Resta torcer para que Hollywood esteja errada - e que desenterrar esses restos antigos, potencialmente consagrados, não liberte uma maldição global que só um herói arqueólogo com um chicote na mão consiga resolver.
Esta pesquisa foi publicada nos Anais da Sociedade Pré-Histórica.
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