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Cogumelos mágicos, psilocibina e Alzheimer: o que um relato de caso em uma mulher na casa dos 80 sugere

Idoso desenhando conexão cerebral enquanto mulher observa, com cogumelo e frasco de suplemento na mesa.

Cogumelos mágicos costumam ser lembrados por provocar alucinações e mexer com a perceção da realidade - não por serem associados ao tratamento de doenças cerebrais. Para a maioria das pessoas, eles evocam a ideia de “viagem”, e não a doença de Alzheimer.

Ainda assim, o relato de uma paciente levou investigadores a questionarem se a psilocibina - o composto psicadélico presente nos cogumelos mágicos - poderia produzir efeitos inesperados num cérebro envelhecido.

A demência é um termo amplo para um conjunto de sintomas que comprometem memória, raciocínio e autonomia no dia a dia. A doença de Alzheimer é a causa mais comum desse quadro.

Psilocibina, cogumelos mágicos e Alzheimer: o caso descrito

O relatório descreve o que foi observado numa mulher japonesa-americana, na casa dos 80 anos, com doença de Alzheimer em estágio avançado, depois de ela ingerir cogumelos contendo psilocibina.

Ela apresentava uma piora progressiva havia cerca de uma década. Nos cinco anos anteriores, comunicava-se sobretudo com palavras isoladas e dependia intensamente de outras pessoas para cuidados quotidianos. Além disso, tinha dificuldade para caminhar e para se vestir sozinha, e convivia com incontinência urinária crónica.

A paciente recebeu 5 g de cogumelos com psilocibina. A quantidade exata de psilocibina não pôde ser determinada, porque a potência varia entre cogumelos. Durante a experiência, ela transpirou de forma intensa e entrou num estado prolongado semelhante ao sono.

Cerca de 19 horas depois, começou a falar espontaneamente e a recordar memórias da própria vida.

Nos dias e semanas seguintes, cuidadores relataram que ela parecia mais desperta, reconhecia familiares, caminhava com mais independência, voltou a se vestir sozinha e recuperou a continência urinária.

Um mês depois, realizou uma segunda sessão supervisionada com 3 g de cogumelos e, mais uma vez, pareceu mais expressiva e mais ágil.

Comparações, limites do relato e o que ele não prova

O caso foi comparado ao livro Awakenings, do neurologista Oliver Sacks, publicado em 1973, que descreveu pacientes que recuperaram capacidades perdidas de forma inesperada após tratamento com o medicamento para Parkinson L-dopa, também chamado de levodopa.

As doenças e os fármacos, porém, não têm relação direta. O paralelismo está no tipo de pergunta que ambos suscitam: quanta função pode permanecer “oculta” num cérebro gravemente comprometido?

Apesar do interesse, o relatório não demonstra que psicadélicos revertem a doença de Alzheimer.

Trata-se de uma única pessoa, e não de um ensaio clínico controlado. O diagnóstico foi sustentado pela história clínica, sem confirmação por biomarcadores - sinais biológicos de Alzheimer identificáveis por testes como exames de imagem cerebral ou análise do líquido cefalorraquidiano.

Também não houve grupo de comparação nem avaliação padronizada de memória e cognição antes e depois. Grande parte do que se registou veio de relatos de cuidadores e familiares.

A doença de Alzheimer envolve proteínas anormais, inflamação, danos nas conexões entre células cerebrais e, por fim, morte de neurónios (células nervosas). Não há evidência de que a psilocibina tenha revertido esses processos fundamentais da doença.

Hipóteses biológicas: redes cerebrais, neuroplasticidade e 5-HT2A

Os autores levantam a possibilidade de que a psilocibina tenha modificado temporariamente a comunicação entre redes cerebrais remanescentes - conjuntos de regiões do cérebro que atuam em conjunto.

Isso poderia ter tornado algumas capacidades mais acessíveis por um período limitado. Como o relatório não incluiu exames de imagem cerebral, essa explicação permanece como hipótese não testada.

Parte do interesse científico vem do facto de o cérebro ter capacidade de adaptação. Durante grande parte do século XX, predominou a ideia de que o cérebro adulto era relativamente fixo. Hoje se sabe que ele consegue reorganizar-se ao longo de toda a vida: novas conexões podem surgir, e as redes podem mudar em resposta à experiência.

Esse fenómeno, chamado neuroplasticidade, sustenta aprendizagem, memória e recuperação após lesões. Em geral, torna-se menos eficiente com o envelhecimento e com a demência.

A psilocibina atua principalmente por meio de um recetor de serotonina chamado 5-HT2A. A serotonina é um mensageiro químico envolvido em humor, perceção e outras funções. Recetores são proteínas que permitem às células responder a sinais químicos.

Estudos em animais indicam que a psilocibina pode favorecer a formação de espinhas dendríticas - pequenas projeções nos neurónios que ajudam na comunicação entre células.

Psicadélicos também podem influenciar vias de sinalização relacionadas ao fator neurotrófico derivado do cérebro, o BDNF, uma proteína importante para a manutenção das conexões entre células nervosas.

Pesquisas com neuroimagem sugerem que a psilocibina altera de forma temporária a comunicação entre redes cerebrais de larga escala. Algumas redes ficam menos rigidamente separadas, e padrões habituais de atividade são interrompidos.

Na última década, ensaios clínicos mostraram resultados promissores em depressão. Estudos menores também investigaram terapia assistida por psilocibina para ansiedade e algumas formas de dependência.

Outras linhas de investigação analisaram possíveis efeitos anti-inflamatórios. Isso é relevante porque se acredita que a inflamação crónica contribua para a doença de Alzheimer e para outros transtornos neurodegenerativos - condições em que as células nervosas vão sendo danificadas ou morrendo gradualmente.

Assim, evidências de laboratório e em animais sugerem que psicadélicos podem afetar crescimento de células nervosas, inflamação e atividade de redes cerebrais. Se esses efeitos também ocorrem em pessoas com doença de Alzheimer, porém, ainda não se sabe.

Pesquisas em andamento e razões para cautela

Em paralelo, um estudo na University of California, Berkeley, está a examinar como a psilocibina afeta adultos cognitivamente saudáveis de 60 a 85 anos.

O objetivo não é testar um tratamento para demência. Os participantes receberão psilocibina sintética e farão exames de imagem cerebral, além de testes de memória e raciocínio.

Há motivos importantes para prudência.

A psilocibina não é isenta de riscos. Experiências psicadélicas podem ser assustadoras e desorientadoras, sobretudo em pessoas vulneráveis. Em adultos mais velhos, podem existir riscos aumentados de quedas, problemas cardíacos e circulatórios e interações com medicamentos.

No caso descrito, a mulher apresentou sudorese intensa, suspeita de temperatura corporal elevada e um estado prolongado semelhante ao sono. O facto de não terem sido observadas complicações duradouras não prova que a abordagem seja segura.

Seria perigoso interpretar esse relato como motivo para experimentar cogumelos psicadélicos fora de um contexto de investigação ou de clínica, com supervisão rigorosa.

O caso aponta para uma possibilidade: mesmo após anos de declínio cognitivo severo, certas capacidades podem permanecer temporariamente acessíveis.

Se a psilocibina teve um papel direto, de que forma isso poderia ocorrer e se efeitos semelhantes podem ser reproduzidos noutras pessoas são questões em aberto.

Para respondê-las, serão necessárias pesquisas controladas.

Rahul Sidhu, doutorando, Neurociência, University of Sheffield

Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.


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